Cem anos de perdão — João Tordo

crítica

Thriller à portuguesa

Tendo conhecido a obra de João Tordo a partir de outro registo, fundacional, evocando o estilo film noir, mais intimista e com retrato de perfis psicológicos de escritores, presente nas primeiras publicações que lhe valeram o reconhecimento nas Letras nacionais: Hotel Memória e As Três Vidas (livro com o qual venceu o Prémio José Saramago em 2009), esta foi uma estreia no seu estilo thriller. Quasi-estreia também para o género literário que não tendo a explorar habitualmente, no qual se incluem policiais e histórias de crime. Tordo revela ser um leitor assíduo de thrillers, seguindo com a dosagem certa a receita comprovada e testada pelos mestres do ofício, Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, composta pela arquetipagem de personagens, diálogos relampejantes e cliffhangers entre secções e capítulos.

“Cem anos de perdão” retoma o desenrolar da dupla de personagens Pilar e Cícero, construídos no anterior Águas Passadas, algo que o autor faz questão de recordar ao leitor, num convite dissimulado para visitar a livraria mais próxima. Embora referenciando repetitivamente o primeiro caso Drexler, que deixou uma marca indelével nos protagonistas, Tordo dissocia as histórias, permitindo que os livros sejam desfrutados individualmente.

Destacam-se os episódios no estabelecimento prisional de Brixton onde Cícero se encontra encarcerado e que se assemelha, tal como assumido no livro, à novela de Stephen King, rei internacional do thriller, sobre a fuga entaipada pelo poster de Rita Hayworth que serviu de base ao famoso filme Shawshank Redemption. A dinâmica de poder e influência entre guardas prisionais, recém chegados e older offenders é credível e consegue agarrar o leitor. Por seu lado, as cenas de Pilar em Helsínquia parecem despropositadas e a narração decorrida na fictícia ilha de S. Dismas peca pela falta de profundidade nas cenas passadas na esquadra, nas vilas insulares inglesas e, sobretudo, na igreja e na comunidade religiosa segregacionista, tema central deste livro.

O final ficou aquém das expectativas, seguramente passando bem sem o desfecho forçado e melodramático a que um clímax parece obrigar para satisfazer o formato. Considerando o género em questão, é um livro que cumpre com o que promete: descrição psicológica dos criminosos e seus justiceiros, diálogos rápidos e ziguezagueantes e pesquisa histórica e temática.

Uma leitura prazerosa, ainda que evanescente, Cem anos de perdão explora com sucesso a ambiguidade moral, a influência do passado nas nossas ações e a concepção do “mal”.

Destaques

+ Cenas na prisão de Brixton verossímeis e intrigantes; perfil psicológico de Pilar Benamor; livro convive autonomamente com o precursor “Águas Passadas”, o que permite que seja lido em separado; pesquisa histórica sobre seitas religiosas, S. Dismas (o bom ladrão) e os dismáticos; desenho cénico da ilha britânica de St. Dismas; exploração do funcionamento de grupos religiosos que vivem em marginalização.

– Linguagem deveras coloquial em discurso directo recorrente; demasiados anglicismos, talvez numa tentativa de aproximação a público-alvo mais alargado e leitores mais jovens; desenvolvimento incipiente dos personagens ao longo da trama; remissões repetitivas para o primeiro tomo da trilogia.


3.6 / 5

Rating: 3.5 out of 5.

Excertos

8.33% ““A superstição, na sua raiz, é um medo excessivo dos deuses. O receio de uma profecia. Em latim, superstitio é algo que sobrou, que ficou de fora. Fora de quê? Da limitadíssima capacidade humana de compreender; como se os deuses tivessem deixado, aqui e ali, zonas de sombra que atemorizam o humano, propositadamente zombando da nossa finita razão.” – cap. Prisão de Brixton”

10.94% ““A manifestação mais óbvia do diabo é a sua capacidade de se esconder (…) fez-nos crer em si próprio disfarçado de outro, do seu contrário.” – cap. Prisão de Brixton”

21.01% ““A Inglaterra era um pedaço de terra isolado do continente europeu, onde os locais tinham hábitos diferentes, arraigados, sobranceiros – conduziam do lado errado da estrada, gostavam de cerveja insípida, salsichas com puré de batata e atiravam queijos do cimo de uma colina íngreme, para depois quase se matarem no seu encalço.” – cap. Brixton, p. 121”

25.87% “”Se não tivermos cuidado com esta gente, ainda vamos acabar a comer os nossos próprios testículos” – cap. Ilha de St. Dismas, p. 149″

60.07% “”Exerço com consciência e dignidade, é o que diz o juramento (de Hipócrates). E bom senso, claro.”

“E se tudo isto for o contrário do bom senso?”, perguntou Pilar. – cap. 17 de abril, ilha de St. Dismas, p. 345″

68.06% “”Essa história do Papillon é a melhor de todas, e eu sou como o Degas, a outra personagem principal. Não tenho interesse nenhum em fugir da prisão, gosto mais da vida aqui dentro do que lá fora”. – cap. ’19 de abril, prisão de Brixton’, p. 376″