#geraçãodeleitores O Visconde cortado ao meio — Italo Calvino

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A fechar a quadra natalícia, um caro amigo chega como convidado para nos introduzir um clássico contemporâneo curto e facilmente digerível após o banquete de Natal, perfeito para empurrar com uma fatia restante de bolo rei e champagne do réveillon. Conimbricence naturalizado lisboeta, apaixonado pela aviação e economista que procura minuciar a estatística portuguesa. Francisco é um jovem economista curioso, meticuloso e cândido que domina a arte de bem receber. Um leitor assíduo um tanto tardio que redescobriu o gosto pela arte com o avizinhamento da actual pandemia.

Neste episódio da #geraçãodeleitores, recomenda-nos uma das primeiras obras de Italo Calvino, uma dos principais vozes da literatura italiana, que publicou inclusivé o ensaio lido por muitos bibliófilos que ressalva a pertinência e atemporalidade das maiores obras da literatura: “Porquê ler os clássicos” [Perché leggere i classici]. Calvino tem o talento de fazer ebulir ideias e premissas inusitadas de forma a transbordar criatividade das suas páginas.


“Não tinha a intenção de fazer uma alegoria moral, nem muito menos política”. A edição que li (Teorema) vinha capeada com esta citação de Calvino, que, como podem imaginar, faz exatamente isso mesmo nesta pequena obra.


“O Visconde Cortado ao Meio” retrata um muito jovem aristocrata que se vê envolvido numa guerra contra os turcos, onde, logo na primeira batalha, vê o seu corpo ser trespassado por uma bala de canhão que o divide em dois. Uma das metades, que no início se acreditava ser a única, concentra em si apenas a maldade, o rancor e a fúria, e irá espalhar o terror quando regressa ao seu feudo. A outra metade, que continha apenas bondade e virtude, fará mais tarde o mesmo caminho até que ambos se encontram e disputam o amor da mesma mulher.


Fosse esta obra uma fantasia infantil, o bom triunfaria sobre o mal e talvez até a metade maldosa se convertesse em bondosa. Mas esta é de facto “uma alegoria moral” sobre o Homem, que, ao ser dividido, se torna único porque perdeu qualquer contradição nos seus sentimentos e pensamentos: agora ou é completamente bom, ou completamente mau. Mas este ser único, seja bom ou mau, não será adorado pelo povo: um, porque o aterroriza, o outro porque é “demasiado bom”.


Calvino pretendeu retratar nesta obra o Homem moderno, que procura tão incessantemente ser único dentro de si, que acaba por perder as suas qualidades sociais e a essência do ser humano, um ser racional, ponderado e completo. É um caso em que a soma das partes, é maior que o todo.


O Visconde Cortado ao Meio [Il visconti dimezzato]. 160 pág. 1952

Editado em Portugal pela Dom Quixote e em Itália pela Mondadori.

*Esta recomendação faz parte da iniciativa Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores A Era dos Muros — Tim Marshall

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Transpondo muros da desinformação e do preconceito, a convidada da #geraçãodeleitores não baixa os braços na sua missão de fazer chegar a mensagem das maiores questões humanitárias que assolam o nosso mundo. Um desafio majorado num mundo que, apesar da aparente enxurrada de informação e comunicação através dos meios digitais, se arrisca a ser mais indiferente pelo próximo e desconhecedor dos factos que jamais.

A dar este salto está Mafalda, estudante de medicina, apaixonada por húngaros de chocolate e criadora de uma página no Instagram que almeja trazer esta mensagem de igualdade: @kisokelela. A sua recomendação de leitura do autor de Prisioneiros da Geografia (analisado no Calhamaço) dá-nos uma visão global sob as fronteiras que mais nos dividem, para que possamos aprender com essas cisões e, no seu lugar, construir pontes.


Entender o que nos divide, no passado e no presente, é essencial para compreender tudo o que se está a passar no mundo.

Esta é a principal premissa do livro “A Era dos Muros” de Tim Marshall, ao longo do qual são descritas de forma audaciosa e pragmática não só as principais barreiras físicas que dividem o nosso planeta, mas também as barreiras imaginárias que existem no seio das várias sociedades, descritas pelo autor como sendo “mentalidades de fortaleza”.


“A divisão molda a política a todos os níveis – pessoal, local, nacional e internacional. Cada história tem dois lados, e o mesmo se passa com cada muro. É essencial estarmos conscientes daquilo que nos dividiu, e que continua a fazê-lo, de forma a compreendermos o que se está a passar no mundo de hoje.”

p. 12

Marshall reforça a ideia de que pelo menos um terço (1/3) de todos os países do mundo contam com algum tipo de muro ou separação física entre si, devido aos mais diversos factores: guerras, alterações climáticas, religião, perseguições étnicas ou, até mesmo, controlo por regimes totalitários.

O livro perscruta a questão fronteiriça entre o México e os EUA, Israel e Palestina, Arábia Saudita e Irão, Bangladesh e Myanmar, entre outros. Explora também questões tais como a exclusão com base na etnia ou religião, como é o caso dos muçulmanos uigures ou budistas tibetanos em relação aos chineses han.

Acima de tudo, “A Era dos Muros” permite ao leitor abrir os horizontes em relação a algumas das mais ignóbeis atitudes humanas, que determinam o cada vez mais evidente distanciamento entre sociedades e culturas e o oblívio da nossa humanidade em comum.

Considero ser uma leitura impreterível para todos os que se interessem por geopolítica e que procurem saber mais sobre o que motivou muitas das segregações que se vivem nos dias de hoje.



A Era dos Muros [Divided: Why We’re Living in an Age of Walls]. 288 pág. 2018

Editado em Portugal pela editora Desassossego e nos Estados Unidos pela Elliott & Thompson.

*Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores O Estrangeiro — Albert Camus

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A cortar a fita vermelha da nossa viçosa rubrica #geraçãodeleitores, que abre a porta a outras perspectivas literárias de convidados das gerações mais jovens, está Catarina, designer visual de 28 anos vivendo actualmente em Bruxelas, na Bélgica.

Portuense de gema, amante de ilustração, cinema e literatura, sempre sonhou vir a ser devoradora de queijo profissional. Desde cedo, impulsionada pelo seu pai, descobriu as intrigantes narrativas de autores do além-mar, entre eles de entusiasmantes autores como Albert Camus: o escritor franco-argelino que tem formado gerações de leitores atentos e pensantes.

Deixemos o brilhante laureado Nobel que cimentou o absurdismo na filosofia e na literatura ser o nosso maître de cérémonie da rúbrica #geraçãodeleitores!



Será Mersault julgado por matar um árabe ou será ele julgado e condenado por não ter chorado no funeral da sua mãe?

O que parece ao leitor um capítulo de frívola desimportância narrativa, vem a revelar-se a chave para a compreensão do desfecho trágico da personagem. Apresentado ao tribunal como um Monstro que demonstra sinais nítidos de insensibilidade, Mersault – assim apresentado por Camus – vive o episódio da morte da mãe com aparente displicência. Apresenta-se em frente ao caixão sem emoção e bebe tranquilamente um café com leite. Apresenta-se atrasado no desfile fúnebre sendo a sua única inquietação o calor insuportável que se faz sentir durante esse mês.

A frase emblemática do livro “A culpa deve ser do Sol” – dita por Mersault em tribunal durante o seu julgamento – não se perde nunca da memória de quem o lê.

Em O Estrangeiro, o leitor experimenta a metáfora do absurdo e o misantropismo, um magnum opus do aclamado escritor prémio Nobel de Literatura, Albert Camus, que morre tragicamente em 1960 num acidente de automóvel com o sobrinho do editor Gallimard. 

Talvez todos sejamos um pouco ‘Estrangeiros’ neste mundo cada vez mais impessoal e cruel.



O Estrangeiro [L’étranger]. 88 pág. 1942

Livro editado pelas Éditions Gallimard em França e pela Livros do Brasil em Portugal.

* Esta opinião faz parte da rubrica #geraçãodeleitores.

#geraçãodeleitores

rúbrica

A geração dos Millennials, e a subsequente Generation Z, está frequentemente associada a uma alienação da cultura e da literatura – um entendimento que importa desmistificar.

A #geraçãodeleitores é uma iniciativa do Calhamaço que demonstra que a nossa geração gosta de ler. O projecto pretende ilustrar que a leitura pode ser uma proteção para os tempos incomuns nos quais vivemos.


Esta iniciativa envolve a comunidade e dá voz aos leitores. Cada convidado recomendará a leitura de um livro que o marcou no último ao escrever uma breve review, escolher uma imagem ilustrativa da mensagem da obra e tirar uma fotografia com a capa do livro como #bookmask – uma defesa contra a pandemia da desinformação.

Vamos #partilharliteratura!