A Confissão de Lúcio — Mário de Sá-Carneiro

crítica

A verdade em neblina

Ah! que venturoso eu fora se não tivesse nascido em parte nenhuma e entretanto existisse.”


Antes de tudo, a palavra. Uma escrita soberba.

Sá-Carneiro usa língua portuguesa como ninguém, enaltecendo-a através de artifícios, de inversões sintáticas, de vocábulos arrojados e opulentos.
A Confissão de Lúcio‘ é uma novela vanguardista e à frente do seu tempo cujo valor inestimável está no seu estilo e na retórica, meritória de ser sublinhada de capa a contracapa.

” sabia-me arrastado, deliciosamente arrastado, em uma nuvem de luz que me encerrava todo e me aturdia os sentidos – mas não deixava ver, embora eu tivesse a certeza de que eles me existiam bem lúcidos. Era como se houvesse guardado o meu espírito numa gaveta.

Ler este livro foi altamente recompensador pela prosperidade linguística que dele transborda, e acima de tudo, pela oportunidade de ter um vislumbre de uma mente do Modernismo português, essa ínclita geração de Orpheu.

Uma novela vanguardista e à frente do seu tempo cujo valor inestimável está no seu estilo e na retórica

Semelhanças com Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos na sua fase abúlica não são mera coincidência, como se encontra evidenciado neste excerto:

Meus tristes sonhos, meus grandes cadernos de projectos – acumulei-vos numa ascensão, e por fim tudo ruiu em destroços… Etéreo construtor de torres que nunca se erguem, de catedrais que nunca se sagraram… Pobres torres de luar… pobres catedrais de neblina…!

— página 79

Quanto à trama, por mais rocambolesca e inverosímil que esta possa parecer, como o narrador nos indica, trata-se de uma dura confissão, da verdade, da ‘vida’ de Lúcio, envolta numa névoa de sensações, emoções, espiritualidade.

” Acho me tranquilo — sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado de um outro. Permaneci, mas não me sou.

Uma obra curta porém indispensável para admirar a arte que é a língua lusitana e compreender um movimento e um autor de mão cheia que partiu cedo demais.


4.4

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A Confissão de Lúcio (1914)

128 pág., Colecção BIS, LeYa
Confissao de Lucio