A verdade em neblina
“Ah! que venturoso eu fora se não tivesse nascido em parte nenhuma e entretanto existisse.”
Antes de tudo, a palavra. Uma escrita soberba.
Sá-Carneiro usa língua portuguesa como ninguém, enaltecendo-a através de artifícios, de inversões sintáticas, de vocábulos arrojados e opulentos.
‘A Confissão de Lúcio‘ é uma novela vanguardista e à frente do seu tempo cujo valor inestimável está no seu estilo e na retórica, meritória de ser sublinhada de capa a contracapa.
” sabia-me arrastado, deliciosamente arrastado, em uma nuvem de luz que me encerrava todo e me aturdia os sentidos – mas não deixava ver, embora eu tivesse a certeza de que eles me existiam bem lúcidos. Era como se houvesse guardado o meu espírito numa gaveta.“
Ler este livro foi altamente recompensador pela prosperidade linguística que dele transborda, e acima de tudo, pela oportunidade de ter um vislumbre de uma mente do Modernismo português, essa ínclita geração de Orpheu.
Uma novela vanguardista e à frente do seu tempo cujo valor inestimável está no seu estilo e na retórica
Semelhanças com Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos na sua fase abúlica não são mera coincidência, como se encontra evidenciado neste excerto:
“Meus tristes sonhos, meus grandes cadernos de projectos – acumulei-vos numa ascensão, e por fim tudo ruiu em destroços… Etéreo construtor de torres que nunca se erguem, de catedrais que nunca se sagraram… Pobres torres de luar… pobres catedrais de neblina…!
— página 79
Quanto à trama, por mais rocambolesca e inverosímil que esta possa parecer, como o narrador nos indica, trata-se de uma dura confissão, da verdade, da ‘vida’ de Lúcio, envolta numa névoa de sensações, emoções, espiritualidade.
” Acho me tranquilo — sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado de um outro. Permaneci, mas não me sou.
Uma obra curta porém indispensável para admirar a arte que é a língua lusitana e compreender um movimento e um autor de mão cheia que partiu cedo demais.
4.4
128 pág., Colecção BIS, LeYa

