A Ilustre Casa de Ramires — Eça de Queirós

crítica

Fidalguia que edificou o brasão português

Aprecio um romance, peça ou filme no qual podemos vivenciar o crescimento de um personagem. Tenho esse particular agrado por reproduzir na arte o que acontece realmente. Não somos criaturas estanques e unidimensionais; somos organismos de tentativa-erro, aperfeiçoando-nos à medida que amadurecemos.

Na corrente realista, que procura espelhar o real tal qual ele é, o desenvolvimento dos personagens é, a meu entender, um requisito fundamental que Eça cumpre com exímia maestria. Este amadurecimento alicerçado em valores está particularmente patente no esboçar do protagonista Gonçalo Mendes Ramires. A sua personalidade bondosa, encantadora, cândida, porém também temerosa e procrastinadora está bem apurada e talvez seja o herói melhor construída do universo queirosiano. O ‘Fidalgo da Torre’ cresce ao longo da narrativa através do seu carácter, aspirações, inteligência emocional e bolina com natural ondulação pela vida aristocrática do virar do século XIX.  

José Maria Eça de Queirós dispensa apresentações no mundo lusófono e além fronteiras. Pessoalmente, os seus livros sempre proporcionam um prazer de leitura incomparável pela ironia cómica e pelo domínio da língua portuguesa. À escala literária mundial, encabeça a lista dos mais proeminentes escritores realistas do século XIX. Nesse índice, é acompanhado pelo também lusófono Machado de Assis e os universais Fiódor Dostóievski, Leo Tolstói, Anton Chekhov, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert, e Mark Twain, por exemplo. Curiosamente, uma grande parte constitui também a minha lista de autores predilectos. Tal poderá ser indicador do meu fascínio por esta corrente literária e artística que, erigida sobre o romantismo, quebrou com preceitos tradicionais na arte, bem como na sociedade.

Este ‘A Ilustre Casa de Ramires’, póstumo e não integralmente revisto pelo autor, insere-se na sua terceira e última fase literária, descrita pelos especialistas queirosianos como uma fase mais conciliadora. A terceira fase mantém a crítica social que está patente em toda a sua obra, contudo relaxa um pouco o carácter pessimista, envergando até por um tom panglossiano e optimista, de regeneração. Assim, Eça cria a vetusta família Ramires e a sua ilustre casa vigilada pela antiquíssima Torre, cujas pedras testemunharam até os confrontos Afonsinos, para mostrar que a honra e glória da Nação pode sempre perseverar, ainda que com outros contornos.

Este é um romance tripartido, notavelmente composto num paralelismo entre três diferentes planos: i) a narração da passagem da vida adulta de Gonçalo desde a vinda de Coimbra até à ida para África; ii) o plano histórico, onde é traçada a efígie de Portugal nos últimos anos da monarquia e do seu declínio; e iii) o conto sobre as bravuras da família Ramires escrito por Gonçalo como aproveitamento político e baseado num poemeto de um tio. Apesar de nos entreter e deleitar com a sua escrita requintada por horas, o plano narrativo da composição da novela histórica “A Torre de D. Ramires” relatando as aventuras do antepassado Tructesindo é uma parte um tanto enfadonha da obra. O narrador omnisciente evidencia técnicas modernas de ponto de vista (POV). Este instrumento literário inovador para o seu tempo é notadamente marcado quando o narrador passa de seguir o protagonista quando tem a sua reunião privada com o governador civil André Cavaleiro. É nos dada a percepção dos voyeurs, os restantes habitantes da vila que estacadamente assistem ao reencontro improvável dos dois amigos outrora de costas voltadas, observando como de gelosia através de janelas e reposteiros apenas os gestos, os bafos dos charutos e as salutares palmadas nas costas.

O livro está recheado de momentos hilariantes de paródia com os costumes portugueses, a escrita mordaz e as interações sociais retratadas. Exemplos que decerto irei recordar são: o episódio bastante chistoso da comparação de Gonçalo com a parábola do Bom Samaritano quando caminha a lado de um lavrador montado na sua égua; toda a descrição da ascensão de Gonçalo a distinto deputado nas Cortes, as “ensebadas cadeiras de S. Bento”, ainda que lhe custe a honra e abra uma fenda na Palavra dos vetustos Ramires; o episódio hilário que versa sobre o romance proibido da sua irmã com o simultâneo amigo e arqui-inimigo Cavaleiro; assim como o episódio climáxico das chicotadas com o esplêndido e ‘antiqüissimo’ chicote achado pelo leal Bento, um dos aios que mantém o requinte da quinta de Santa Ireneia.

Assinalo também o enlevo de Eça por um bom ‘escandalozinho’ de alcova e por paixões escondidas, quer no caso mirado no mirante da sua irmã Gracinha, quer na tentativa de conquistar a recém viúva nova-rica D. Ana, uma Vénus sem etiqueta, porém com duzentos contos de renda, apenas para descobrir pelo seu primo Titó acerca das suas infidelidades ainda quando o cadáver do seu marido Sanches Lucena arrefecia. Será este tema recorrente na literatura romântica e realista uma prova do carácter adúltero dos portugueses ou da sociedade de então?

“Não compreendem… Vocês não conhecem a organização de Portugal. Perguntem aí ao Gouveia… Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria.”

Em destaque, o pormenor da classe social de cada interveniente indicada pelo meio de locomoção, seja montado numa égua ou a cavalo, (destaque para os cavalos impecavelmente tratados do cunhado Barrolo que “nem uma gota transpiram”), numa tipóia ou caleche, ou então as longas caminhadas a pé para as classes mais desfavorecidas. Vemos o exemplo da esposa do Casco, um humilde lavrador que vê o seu contrato verbal com Gonçalo desonrado, que carrega estrada fora o filho enfermo pela mão e a bebé que amamenta ao colo. A atitude abnegada de Gonçalo, aconchegando o pequeno nos melhores tecidos do casarão e velado pelos austeros retratos dos antepassados Mendes Ramires, embora sincera e desinteressada, é percebida pelo mesmo como falsa aquando da sua eleição como deputado. É também um símbolo da mudança de paradigmas na sociedade, mais igualitária nos direitos e nos costumes e expressando a aproximação a um sistema político republicano e representativo. O protagonista é comparado com Portugal, quiçá numa das suas épocas mais frágeis política e socialmente, após o sentimento de derrota nacional e quase traição com o Ultimato inglês e a ameaça de rasgar o Tratado de Windsor, o mais antigo acordo entre dois estados soberanos. Em baixo, o excerto antológico do romance que evidencia a metáfora:


– Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o senhor Padre Soeiro quem ele me lembra?

– Quem?

– Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor Padre Soeiro… Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia. A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, sentimentos de multa honra, uns escrúpulos quase pueris, não verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar até mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre alento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão pairador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha torre, há mil anos… Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

    –  Quem?…

    –  Portugal. ”


Gonçalo Mendes Ramires – mais do que uma mera representação estereotipada e delimitada nas linhas do convencionalismo – descende da aristocracia cuja antiguidade precede a própria nacionalidade e forjou o milenário brasão de armas do reino de Portugal. Todavia, o Fidalgo não esconde as suas hesitações, os seus desejos, as suas preguiças, defeitos e virtudes, expressados quer pelos seus actos, como pelas suas inércias. O casting do aristocrata fora certeiro, visto representar em si mesmo Portugal no final do século das revoluções.

Concluindo, ao longo do romance, o tom irónico e de paródia valoriza muito a leitura que trota pela paisagem bucólica do Norte de Portugal, envolta em natureza empedernida e história. A Ilustre Casa de Ramires talvez seja o romance queirosiano mais maduro e uma das obras realistas que mais me deleitou: pela construção dos personagens e pela tomada das suas atitudes, de acordo com a consciência moral de cada um.  


4.4

Rating: 4.5 out of 5.

A Ilustre Casa de Ramires (1900)

312 pág.,
Editora Guerra & Paz


Crime e Castigo — Fiódor Dostoiévski

crítica

O vértice da moral humana

Nunca uma obra me tinha transmitido com tanto realismo a sensação de miséria e negligência social. De igual modo, a ética e a moral não haviam antes sido questionadas de forma tão acutilante. Saberemos nós distinguir o certo do errado? A quem cabe julgar os nossos pensamentos? E os nosso actos?

Dostóievski propõe esta reflexão como ninguém, constantemente suscitando a dúvida e empurrando o leitor para um inefável encurralamento ao lado do inesquecível protagonista. ‘Crime e Castigo’, impecavelmente edificado sob o triângulo da retórica (ethos, pathos e logos) é sobretudo um ensaio à vontade humana e perscruta o que nos motiva, o que nos causa repulsa, igualmente o que nos assusta e o que nos fascina.

Rodion Raskolnikov (Ródia para os mais íntimos) é um amigo que queremos ver vingar na vida. O seu nome de família significa cisma em russo, que é patente nas suas crenças, principalmente no que toca à distanciação religiosa, a falta de fé e a busca por equidade social a qualquer custo. O cisma é em última instância explorado na teoria que Rodion cria acerca da existência de homens superiores na sociedade, cujos possíveis crimes para construir uma causa maior deveriam ser compreendidos e absolvidos. Através do exímio desenvolvimento da personagem, o recém criminoso torna-se nosso aliado. Torcemos por ele, entendemos a sua vontade e sentimos a sua dor. Dostoievski desperta um dos sentimentos mais complexos de transmitir em literatura por um personagem: a empatia.

Assim, Ródia é o nosso ethos, na medida em que constrói a sua credibilidade e nos inspira confiança devido ao seu intelecto e sensibilidade admiráveis. A par do corolário da tese de “selecção natural” humana, Dostóievski tem a mestria de nos levar a questionar a própria moral humana. Talvez “eliminar um parasita” como a velha agiota não seja assim tão imoral e até recomendável. Porém numa sociedade de direito, nenhum homem sozinho deve vestir a toga e julgar ter o poder de fazer justiça pelas próprias mãos. Os personagens secundários não são menos relevantes.

Compondo o pathos está o grupo desuniforme composto pela família de Ródia – o núcleo nevrálgico feminino da mãe e irmã – o cândido Razumikhin, o dipsomaníaco Marmaledov e a sua obstinada esposa Katerina Ivanovna, e o determinado Svidrigáilov compõem um bando que concomitantemente constrói o pathos. Estes despertam no nosso herói o seu lado emocional e os valores da família, amizade, camaradagem que não pode nunca ser dissociado da carapaça que fez crescer para lidar com a sociedade hostil que o rodeia. Por fim, o logos é nos apresentado pela afeição da devota Sónia e a sua compaixão através de palavras e gestos meigos, assim como a redenção possível na sua conversa com Porfíri.

Sob um olhar de vívido realismo, Dostoiévski percorre a Rússia dos czares como uma aguarela triste de Turner, atravessando pontes de um S. Petersburgo decadente e paradoxalmente sumptuoso cujo Ródia observa dolorosamente. Para além da questão fundamental na moralidade de um crime, Crime e Castigo‘ questiona o sistema social por classes do Império corrompido e as motivações do povo que vive entorpecido na sua miséria.

Acima de tudo, através desta obra-prima incontornável do final do século XIX, temos acesso privilegiado e sem precedentes à psique humana.


4.8

Rating: 5 out of 5.

Crime e Castigo (1866)

511 pág., Presença
Excelente tradução de Nina e Filipe Guerra

Se numa noite de inverno um viajante — Italo Calvino

crítica

Livro desconstruído

Inovador, irreverente, vanguardista. Uma lufada de ar fresco na literatura mundial.

Se numa noite de inverno um viajante‘, de título inusitado, celebra a arte da leitura, os hábitos e costumes de ser leitor, tecendo também críticas aos “ilustres” académicos e autoproclamados intelectuais que estragam o simples e natural acto de ler, bem como os editores que o tornam num negócio fortuito que valoriza a quantidade sobre a qualidade literária.


Italo Calvino configura-se um mestre contador de histórias, uma vez que a maioria dos contos inacabados suscitaram em mim, leitor, bastante interesse de as continuar, assim como ao Leitor. Fomos assim manipulados, tal como o Autor previra.

” Não que estejas à espera de alguma coisa de especial deste livro em especial. És um daqueles que por princípio não espera mais nada de nada. Há tanta gente, mais jovem do que tu ou menos jovem, que vive na expectativa de experiências extraordinárias; daquilo que o dia de amanhã lhes reserva. Tu não. Tu sabes que o melhor que se pode esperar é evitar o pior.

” Vamos ver. Talvez a princípio te sintas um pouco desorientado (…) Mas depois prossegues e dás-te conta de que o livro se deixa ler apesar de tudo, independentemente daquilo que esperavas do autor. Pensando bem até preferes que seja assim, encontrares-te perante qualquer coisa que ainda não sabes bem o que é.


4.3

Rating: 4.5 out of 5.

Cem anos de solidão — Gabriel García Márquez

crítica

Círculo sem fim

Foi de facto inesquecível embarcar nesta incursão pelo realismo mágico de Gabriel García Márquez, pelas paisagens lusciosas colombianas e toda a mística que cerca Macondo e os incomparáveis e inolvidáveis Buendía.

Cem Anos de Solidão‘ é um livro repleto e carregado de símbolos: os insectos, as premonições e os manuscritos indecifráveis que contiveram em si toda a verdade ao longo dos cem duros anos que condenaram a família à solidão.

” (…) a história da família era uma engrenagem de repetições irreparáveis, uma roda giratória que teria continuado dando voltas até a eternidade, se não fosse o desgaste progressivo e irremediável do eixo.

— Pilar Ternera

(Li este livro metade na língua de Camões e metade na de Cervantes, pelo que optei escrever a crítica na primogénita, embora ciente que a leitura em castellano contribuiu bastante para a percepção da verdadeira essência de expressões e vocábulos latinamericanos tradicionais e intraduzíveis).


4.5

Rating: 4.5 out of 5.

Cem Anos de Solidão (1967)

384 pág., Dom Quixote