Hábitos Atómicos — James Clear

crítica

Abrindo alas para uma estante menos habitual no blog, deixamo-nos alavancar pelas referências e adágios em produtividade e comportamento humano, num livro sucinto e despretencioso catalogado como não-ficção. Esperemos que as máximas e leis que enuncia para a construção e desenvolvimento de hábitos vos ajude como aqui o fez a desenferrujar a escrita para revisitar mais calhamaços.


Insiste, resiste, persiste

Pese embora pareça ouvirmos esta frase ao longe nos corredores do ginásio, esta máxima pronunciada tão frequentemente por treinadores, coaches e personal trainers constitui a tese central deste livro. A consistência é o que nos leva ao resultado. Tornarmo-nos cada dia 1% melhor. Pequenas mudanças, grandes resultados.

Com uma escrita limpa e pragmática, James Clear estrutura o processo de construção dos hábitos empilhado em quatro passos para o comportamento humano: i) deixa, ii) anseio, iii) resposta e iv) recompensa e alicerçado em quatro leis fundamentais: tornar o hábito i) evidente, ii) atractivo, iii) fácil e iv) gratificante. As três primeiras fazem com que o hábito emerja e aconteça, o última com que este continue e não desapareça. Para isto são nos enunciadas ‘leis’ e tácticas, i.e. a regra dos dois minutos, os caracóis de ouro e o empilhamento de hábitos.

sem enveredar pelo caminho e pedante dos livros do género em busca incessante pela produtividade porque sim ou de auto-ajuda, que prometem oferecer uma kriptonite para a procrastinação e uma panaceia para a eficácia.

Escrito num modelo usual nos livros não-ficção: exemplo/parábola > problema > solução > enquadramento teórico, Atomic Habits: An Easy & Proven Way to Build Good Habits & Break Bad Ones retém o leitor com espécimes de outros humanos como nós, mais ou menos bem sucedidos, que confiam nos hábitos para chegar ao sucesso com consistência, estremando-se assim amadores de profissionais.

Revelando um sólido conhecimento da psicologia e do comportamento humano e o que nos faz dar o ‘click’, o autor entrega um resultado com um forte pendor prático, transmissível, sem enveredar pelo caminho e pedante dos livros do género em busca incessante pela produtividade porque sim ou de auto-ajuda, que prometem oferecer uma kriptonite para a procrastinação e uma panaceia para a eficácia.

“É frequente cairmos num ciclo de tudo ou nada com os nossos hábitos. O problema não é escorregar uma vez, o problema é pensar que, se não somos capazes de fazer uma coisa de uma forma perfeita, então não devemos fazê-la de todo.”

– cap. 4ª lei: tornar o hábito gratificante, p. 197

Logo após fazer com que capa e contracapa se encontrassem pelo término do livro, o ímpeto imediato foi fazer deslizar para trás a tampa do portátil e dar ao dedo para finalizar esta análise. Afinal, o propósito e resultado do livro foi atingido. Se esta pequena mudança levará a maiores resultados, cabe ao tempo o veredicto.


4.0

Rating: 4 out of 5.

Hábitos Atómicos [2017]. Lua de Papel. 304 pág.

#geraçãodeleitores Fratelli Tutti — Papa Francisco

geraçãodeleitores

Para abrir o ano num tom de esperança, após um mês de quietude e tempo para reflectir nos projectos para dois mil e vinte e um, trazemos a nova encíclica do Papa Francisco, que por seu turno traz no bico uma mensagem com um forte pendor de tolerância, compaixão fraternidade entre os povos.

Escrita no rescaldo do longo distanciamento social, bem como da série de confinamentos vivenciados por todo o mundo para fazer face à mais recente pandemia, Fratelli Tutti alerta para a nova realidade, que exacerbou fissuras no tecido social e pôs à prova a paciência da nossa sociedade contemporânea, habituada a uma cultura instantânea, de soluções quasi-imediatas e prêt-à-porter.

Margarida sugere-nos a leitura atenta desta boa nova como resposta aos tempos incomuns e sem precedentes para a nossa geração. De olhar vigilante, um coração que parece não ter fronteiras e uma preocupação muito premente por inclusão social, ouvimos esta amiga que é também exemplo de esperança, superação e perseverança.



Fratelli Tutti, em português [Todos irmãos], é uma proposta de São Francisco de Assis que o Papa Francisco vem reforçar e aprofundar na sua nova carta encíclica sobre a fraternidade universal e a amizade social que desafia todos, crentes e não crentes cristãos.

Tal como na sua última carta encíclica Laudato Si, o Santo Padre reflete com uma enorme clareza sobre os sinais dos tempos, sem medos de tocar nas feridas que são as guerras, os conflitos, o individualismo, a indiferença e o descarte universal. Todas estas feridas são consequência de um modo de viver que não confere a devida dignidade humana ao próximo.

A carta encíclica Fratelli Tutti é outra prova do envolvimento do chefe da Igreja nas mais variadas áreas para o desenvolvimento da Humanidade, afirmando-se, com conhecimento, na política e na economia e apontando o diálogo como chave do progresso em qualquer uma das frentes. A sua reflexão sobre a política é de uma enorme riqueza, abordando e desmistificando alguns termos como o populismo e o liberalismo e clarificando ainda que a grandeza política reside na capacidade de “assumir este dever num projeto de nação, e, mais ainda, num projeto comum para a Humanidade presente e futura”.

A Fratelli Tutti é uma leitura densa pela importância de cada parágrafo. É um livro que requer disponibilidade para a reflexão e posterior transformação dos seus leitores. O convite do Papa Francisco é o de recomeçarmos e trabalharmos por ser construtores de sociedades mais abertas que integram todos, ungindo todos e qualquer um com a mesma dignidade humana.

“É um livro que requer disponibilidade para a reflexão e posterior transformação dos seus leitores.”

Se com a leitura desta carta encíclica não nos sentimos interpelados a comprometermo-nos com a fraternidade universal e com o bem comum, ou pelo menos com o desejo profundo de nos tornarmos comprometidos, apesar da nossa limitação, então a leitura não cumpriu o seu propósito.




Fratelli Tutti. 184 pág. 2020

Editado em Portugal pela Paulinas Editora e Apostolado da Oração.

*Esta recomendação faz parte da iniciativa Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores A Era dos Muros — Tim Marshall

geraçãodeleitores

Transpondo muros da desinformação e do preconceito, a convidada da #geraçãodeleitores não baixa os braços na sua missão de fazer chegar a mensagem das maiores questões humanitárias que assolam o nosso mundo. Um desafio majorado num mundo que, apesar da aparente enxurrada de informação e comunicação através dos meios digitais, se arrisca a ser mais indiferente pelo próximo e desconhecedor dos factos que jamais.

A dar este salto está Mafalda, estudante de medicina, apaixonada por húngaros de chocolate e criadora de uma página no Instagram que almeja trazer esta mensagem de igualdade: @kisokelela. A sua recomendação de leitura do autor de Prisioneiros da Geografia (analisado no Calhamaço) dá-nos uma visão global sob as fronteiras que mais nos dividem, para que possamos aprender com essas cisões e, no seu lugar, construir pontes.


Entender o que nos divide, no passado e no presente, é essencial para compreender tudo o que se está a passar no mundo.

Esta é a principal premissa do livro “A Era dos Muros” de Tim Marshall, ao longo do qual são descritas de forma audaciosa e pragmática não só as principais barreiras físicas que dividem o nosso planeta, mas também as barreiras imaginárias que existem no seio das várias sociedades, descritas pelo autor como sendo “mentalidades de fortaleza”.


“A divisão molda a política a todos os níveis – pessoal, local, nacional e internacional. Cada história tem dois lados, e o mesmo se passa com cada muro. É essencial estarmos conscientes daquilo que nos dividiu, e que continua a fazê-lo, de forma a compreendermos o que se está a passar no mundo de hoje.”

p. 12

Marshall reforça a ideia de que pelo menos um terço (1/3) de todos os países do mundo contam com algum tipo de muro ou separação física entre si, devido aos mais diversos factores: guerras, alterações climáticas, religião, perseguições étnicas ou, até mesmo, controlo por regimes totalitários.

O livro perscruta a questão fronteiriça entre o México e os EUA, Israel e Palestina, Arábia Saudita e Irão, Bangladesh e Myanmar, entre outros. Explora também questões tais como a exclusão com base na etnia ou religião, como é o caso dos muçulmanos uigures ou budistas tibetanos em relação aos chineses han.

Acima de tudo, “A Era dos Muros” permite ao leitor abrir os horizontes em relação a algumas das mais ignóbeis atitudes humanas, que determinam o cada vez mais evidente distanciamento entre sociedades e culturas e o oblívio da nossa humanidade em comum.

Considero ser uma leitura impreterível para todos os que se interessem por geopolítica e que procurem saber mais sobre o que motivou muitas das segregações que se vivem nos dias de hoje.



A Era dos Muros [Divided: Why We’re Living in an Age of Walls]. 288 pág. 2018

Editado em Portugal pela editora Desassossego e nos Estados Unidos pela Elliott & Thompson.

*Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.

Prisioneiros da Geografia — Tim Marshall

crítica

Manobrar a desconfiança do “outro”

Olhar para um mapa-mundi (frequentemente representado de forma desproporcional à escala de Mercator que tende a sobreavaliar o mundo Ocidental), sempre me suscitou o maior fascínio. Naturalmente, após percorrer demoradamente as mais variadas linhas que constituem um mapa, surgiam a dada altura questões sobre as suas fronteiras ou divisões administrativas. Porque é que algumas seguem o curso natural dos rios e cordilheiras enquanto outras traçam verdadeiras rectas? Porque é que algumas regiões têm maior concentração de países de pequena escala enquanto outras têm nações que se estendem a larga escala por todo o território?

Prisioneiros da Geografia é indicado para quem partilha estas interrogações e aprecia aventurar-se no vasto e intrincado mundo da ciência que procura explicar como se governa o mundo, – a geopolítica – e, paralelamente, como este se relaciona – a diplomacia. Um livro com o desígnio de explicar a compartimentação do planeta Terra será sempre sujeito a crítica, por tocar apenas ao de leve em assuntos deveras complexos e multifacetados, por privilegiar determinadas áreas, ou ainda por adoptar um olhar mais ocidentalizado. Contudo, Marshall cumpre o desafio de forma muito competente e ultrapassa estes obstáculos epistemológicos. O facto de o conseguir de forma sintética é também bastante abonatório. Embora considerados o cânone da disciplina diplomática, confesso ter sempre evitado os grandes tomos de Henry Kissinger. 

Produto final de viagens pessoais e profissionais de Tim Marshall enquanto jornalista a vários pontos do globo (cobrindo os conflitos na Jugoslávia, Kosovo, Afeganistão, Iraque, Líbano, Síria e Israel com a BBC e Sky News), este livro está ‘arrumado’ e convenientemente organizado em dez grandes mapas que procuram explicar o porquê da organização do nosso planeta – Rússia, China, EUA, Europa Ocidental, África, Médio Oriente, Índia e Paquistão, Coreia e Japão, América Latina, Ártico. Marshall apresenta em cada capítulo, que versa sobre um dos mapas, um estudo estratégico semelhante aos elaborados por consultores de gestão a determinados mercados, oferecendo uma análise meticulosa dos dois lados da barricada que explora as fragilidades e forças das principais potências mundiais. Ao efectuar esse exercício, não se esquece igualmente de oferecer um olhar curioso à interligação dos referidos mapas no sistema internacional. Como indicado pelo título, o autor segue a teoria determinista da geografia e recorda que dela somos prisioneiros. O determinismo geográfico contemporâneo foi sobejamente desenvolvido por Jared Diamond no seu consagrado Guns, Germs and Steel, que aponta o dedo a factores naturais, climáticos e meteorológicos como determinantes para a distribuição geográfica das sociedades e a própria evolução humana.


“Desde o grande principado de Moscovo, pasando por Pedro, o Grande, Stalin e agora Putin, cada líder russo tem sido confrontado com os mesmos problemas. Não importa se a ideologia de quem detém o poder é czarista, comunista ou aproximada do capitalismo – os portos continuam a gelar e a planície do norte Europeu continua plana.”

— capítulo Rússia, p. 40

Neste livro conciso, aprendi especialmente sobre a Rússia e o que tira o sono a Putin – existirem montanhas somente nos Cárpatos -, a rivalidade entre a Índia e o Paquistão sem resolução à vista, as ambições do dragão chinês nos vários continentes, a criação arbitrária dos estados-nação no Médio Oriente, desenhados a régua e esquadro pelas potências ocidentais sem conhecimento geográfico da região e, por fim, a série de características naturais favoráveis com que foram brindados os norte americanos, o que ajudou em larga escala a garantir o seu papel como hegemon mundial.

Os endowments geográficos determinaram na história a prosperidade das nações. A desconfiança do “outro” propiciou conflitos, guerras e a luta pela supremacia e pelo acesso a determinados recursos. Apesar do encurtamento de distâncias e o acesso a regiões outrora inóspitas pelo meio do progresso tecnológico, a geopolítica foi e será sempre moldada pela geografia: os montes e vales, os recursos hídricos, rios navegáveis, portos naturais e climas propícios ao desenvolvimento humano. Somos e seremos subservientes à geografia. Já é tempo de a sabermos usar a nosso favor e de compartilharmos o inestimável território terrestre com os demais. 


4.2

Rating: 4 out of 5.


Prisioneiros da Geografia (2016)

[Prisoners of Geography], 255 pág., Editora Desassossego

Manifesto Anti-Dantas e por Extenso — José de Almada Negreiros

crítica

Bofetada ao marasmo

A liberdade criativa da Arte simbolizada num Manifesto que não poupa em nenhuma injúria ou salutar bofetada para despertar um País do seu marasmo político, social, literário e cultural.

Almada Negreiros, com um tom mordaz, pilhérico, burlesco, alveja Júlio Dantas e toda a sua geração acomodada e “de descendência linfática”, alertando para a hipocrisia de uma geração de intelectuais desperdiçada em pleno clima europeu futurista e de regeneração artística.

O seu desígnio não poderia ter melhor clarificação que o exposto na própria publicação:

“Almada é a trombeta do cortejo. Salta à frente, com este estridente manifesto literário, em que o escândalo rebenta por todas as linhas, salta à frente com teatralidade dos seus gestos, dos seus gritos e dos seus atentados ao gosto e aos hábitos do senhor-toda-a-gente, hábitos de trajar, de pensar, de fazer versos, de ser funcionário público e de ter descendência linfática.”


Lido por Mário Viegas

Assim, ‘Pim!’ talvez Portugal se desperte da sua longa modorra e deixe de valorizar “caducos literatos de graves ademanes senis e de frases brunidas, medidas pelo diapasão dos clássicos que o tempo ressequiu, foram considerados os templos da Literatura e da Arte consagrada e definitiva”.

Manifesto por extenso – e por MAIÚSCULAS-, de uma ousadia sem precedente, entreposto no movimento modernista e reformador de Orpheu, que indubitavelmente deixou a sua marca indelével na cultura portuguesa.

— Recensão composta por ocasião da celebração dos cinquenta anos da morte de José de Almada Negreiros (1970-2020) —

“UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D’INDIGENTES, D’INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PÓDE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!”


4

Rating: 4 out of 5.


Manifesto Anti-Dantas e por Extenso

128 pág., Assírio e Alvim

A Conquista da Felicidade — Bertrand Russell

crítica

Auto-avaliação do homem feliz

Uma lição de humildade e acima de tudo de humanidade. Um guia que põe em prática a máxima cogito ergo sum. Confere um olhar curioso ao advento do século XX, expondo relações com uma maior proximidade temporal e por isso relevância de conteúdo para a época, tecendo comparações e análises de processos, técnicas e mudanças tecnológicas que por serem tão obsoletas nos dias de hoje e no ritmo avassalador com que as inovações nos são apresentadas, perderam a sua novidade mas nunca a importância.

Levar uma vida com ausência de problemas e perturbação é virtualmente impossível, porém o segredo parece residir em gerir a infelicidade e levar uma vida tranquila. Que o diga Bertrand Russell que parece ter encontrado o elixir para a longevidade, tendo vivido até ao pico dos seus 97 anos mantendo a sua sagacidade e lucidez. Um pensador da alta aristocracia britânica do virar do século XIX, seria de crer que todos os seus problemas estariam à partida mitigados. Mas tal não poderia estar mais distante da verdade. Russell lidou ele mesmo com problemas como todos os humanos, incluindo a vulgar infelicidade do dia-a-dia que teima em assombrar a civilização moderna.

Pessoalmente, não deveria ter estendido a leitura por um quase trimestre, este escrito deve ser lido no decurso de algumas semanas. A parte concernente às causas da infelicidade está, a meu ver, melhor exposta e construída e revela-se no fim de contas a principal distinção desta tese de Bertrand Russell. A estrutura da obra é dual: o autor divide a obra numa dicotomia (in)-felicidade, procurando encontrar as causas e factores que potenciam a permanência para ambas.

Esta dissertação toca sentimentos e estados de espírito tão ubíquos como a competição, o aborrecimento, a fadiga, a inveja, o sentimento de culpa, a sensação de perseguição e o medo da opinião alheia ou pública, assim como bases para a felicidade generalizadamente aceites como a estrutura da família e a afeição, o realização pessoal no trabalho, os interesses impessoais vulgo hobbies, o esforço e a resignação e sem esquecer o trivial gosto de viver.

Ler um escrito tão lúcido e vigente como ‘A Conquista da Felicidade‘ vem corroborar a ideia de que só uma análise distanciada nos permite estudar de onde vimos e perspectivar para onde vamos. A história repete-se e o homem é intrinsecamente… humano. O mais impressionante e até alarmante é o facto de estas inquietações transparecerem quase um centenário mais tarde. Este livro curto e relevante é essencialmente um guia para reflectir e, munidos da razão, hábitos sadios, interesses pessoais e afeições, conquistarmos a felicidade.


4.2

Rating: 4 out of 5.

A Conquista da Felicidade (1930)

184 pág., Relógio d’Água