Somos levados ao coração da tumultuosa história do Afeganistão por ‘A Thousand Splendid Suns’. A motivação para ler este livro surgiu da promessa de uma visão íntima da vida das mulheres afegãs, uma perspectiva muitas vezes abafada pelos conflitos geopolíticos que definiram o país. O livro aborda temas como a desigualdade de género, a violência doméstica e o papel das mulheres numa sociedade marcada pelo patriarcado e pela guerra, pintando um retrato ao mesmo tempo trágico e inspirador.
Khaled Hosseini, um médico e escritor afegão-americano, alcançou reconhecimento internacional com ‘The Kite Runner’, seguindo-se depois esta segunda obra em 2007. ‘Mil Sóis Resplandecentes’ (tradução em português) é profundamente enraizado na história recente do Afeganistão, cobrindo períodos como a invasão soviética, o regime dos Mujahideen, o domínio do Talibã e a intervenção americana. Hosseini utiliza sua escrita para amplificar as vozes das mulheres, revelando as dificuldades e as esperanças que emergem mesmo nas condições mais adversas.
A narrativa acompanha Mariam e Laila, duas mulheres de origens diferentes cujas vidas se cruzam de forma inesperada. Mariam, filha ilegítima de um comerciante abastado, enfrenta desde cedo o estigma de ser uma harami. Após a morte da mãe, é forçada a casar-se com Rasheed, um sapateiro de Kabul, cuja violência e opressão dominam sua vida. Laila, em contraste, cresce numa família mais liberal, mas vê sua vida devastada pela guerra. A relação das duas mulheres evolui de desconfiança mútua para uma amizade profunda e solidária, unindo-as contra a opressão do marido. O enredo é repleto de cenas impactantes, como a obrigatoriedade do uso da burqa, a violência doméstica e atrocidades públicas como apedrejamentos. Contudo, após um bom desenvolvimento inicial e a formação da amizade entre Mariam e Laila, a narrativa perde fôlego. A dicotomia simplista entre as heroínas e Rasheed como o vilão absoluto perde a oportunidade explorar a complexidade do patriarcado que molda todos os personagens, incluindo os homens e, naturalmente, a personagem Rasheed.
Entre os prós, destacam-se a fluidez da escrita, a relevância cultural e histórica, e a construção das protagonistas femininas. Como contras, a narrativa por vezes simplifica as dinâmicas de poder e falha em aprofundar as motivações de Rasheed, o que poderia ter enriquecido o enredo.
Temas: O livro aborda temas universais como a desigualdade de género, a resiliência feminina, e a opressão social e política. A amizade entre Mariam e Laila destaca a força das conexões humanas como resistência à adversidade.
Símbolos: A burqa surge como um símbolo poderoso da opressão feminina, enquanto a kolba de Mariam representa o confinamento, tanto físico quanto emocional. O título do livro, retirado de um poema de Saib-e-Tabrizi, reflete a esperança e a força das mulheres, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.
Moral e Metafísica: A obra provoca reflexões sobre o impacto das estruturas patriarcais e sobre como a opressão molda não apenas as mulheres, mas também os homens que as perpetuam. Apesar de ser uma narrativa sobre sofrimento, a resiliência das protagonistas oferece uma mensagem de esperança.
No geral, a experiência de leitura de ‘Mil Sóis Resplandecentes’ marca, especialmente no início, com a construção detalhada das personagens e o retrato vívido do Afeganistão. No entanto, o enredo perde força na segunda metade, com algumas escolhas narrativas previsíveis e um sentimentalismo que não era necessário dada a intensidade dos temas abordados. Com os seus solavancos, este é um testemunho valioso da coragem feminina em sociedades profundamente desiguais. Assinala-se a brutalidade do real: a construção social, a cobardia, o poder, o orgulho, o afecto, a esperança. Ler este conto após a mais recente ocupação Taliban atribui outro sentido, enaltece ainda mais relevância. É possível aprender com a história, real ou ficcional.
“The Future We Choose” (O futuro que escolhermos) apresenta-se como um livro essencial para a tomada de ação face à crise climática, que imprime logo nas primeiras páginas o sentido de urgência, contrabalanceado pelo optimismo que caracteriza os autores. Figueres foi secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas e Rivett-Carnac consultor em políticas de alterações climáticas, tendo ambos fundado a organização Global Optimism e participado no leme das negociações do Acordo de Paris na conhecida COP 21 em 2015, decisivas para a democracia ambiental e descritas ao longo da obra.
A princípio, o livro assemelha-se a “Uma vida no nosso planeta” de Sir David Attenborough, fornecendo cenários alternativos para a vida na Terra até ao final do século XXI. A primeira parte, denominada deveras “Dois Mundos”, introduz hipóteses para o aumento da temperatura global a 1.5ºC, 2ºC e 3ºC, sustentadas em ciência climática, contudo apocalípticas. A leitura do segundo capítulo, “O mundo que estamos a criar”, revela-se particularmente marcante pela transposição desta realidade apavorante e não tão utópica em diversos sistemas da vida no planeta.
Na apresentação do estado da arte climático, são abordados conceitos como holoceno e antropoceno, pergelissolo, roadmap exponencial, ponto de viragem (tipping point), desflorestação, rewilding, ou perda de biodiversidade. Após esta tomada de consciência que desperta no leitor um estado de alarme e, paralelamente, de letargia pela aparente impotência das nossas ações, Figueres e Rivett-Carnac listam uma série de hábitos e mudanças, a saber: libertar-se do velho mundo; enfrentar o desgosto com visão de futuro; defender a verdade; ser cidadão, não consumidor; abandonar os combustíveis fósseis; reflorestar a Terra; investir numa economia limpa; usar a tecnologia de forma responsável; construir a igualdade de género e envolver-se na política.
Este conjunto de propostas relevantes que tornam este livro primeiramente teórico numa ferramenta acionável, são sem embargo repetidas em circuito fechado na conclusão: participar politicamente, plantar árvores e reduzir emissões variadas vezes, carecendo de aprofundamento e aglutinação com a demais narrativa.
Para lidar com o estado alarmante em que irrefutavelmente nos encontramos, os autores sugerem posicionamentos a adoptar quotidianamente ou “quadros mentais”: optimismo teimoso, abundância infindável e regeneração radical. Através de casos concretos, como Siddharta Gautama, políticas públicas na Califórnia de aquisição de energia proveniente de fontes “limpas” ou na Costa Rica de preservação da natureza, as rondas de negociações na COP 21 ou exemplos de modelos de coabitação regenerativa na Escócia ou no Japão, somos desafiados a olhar o problema quase incomensurável por estes prismas ou quadros, conducentes ao mundo que precisamos ou pretendemos edificar. No final do dia, o futuro que nós, individual e colectivamente por agregação, escolhermos.
⭐⭐⭐
Rating: 3 out of 5.
3.9
O Futuro que Escolhermos (2020) [The future we choose]. Temas e Debates. 236 pág.
Desde “O Ano da Morte de Ricardo Reis” que não desbravava uma obra de Saramago. Após o primeiro contacto fortuito com “Memorial do Convento”, que apesar de carregar capítulos pesados e extensos sobre a construção do convento de Mafra, como as pedras que sustentam o imponente edifício, tem um poder de fascínio e de mágica inolvidáveis protagonizados pelos Sete Sóis e Sete Luas e a passarola do padre voador. A incursão seguinte, o ensaio ambicioso de complementar a ilustre arca de Pessoa, teve altos e baixos pela Lisboa dos anos 30, tendo terminado por desesperançar um pouco face ao Memorial. Neste título, mantém-se a presença e ubiquidade da morte, porém com um cunho e um ritmo bem mais despreocupado e desenvolto, por estranho que possa parecer ao abordar um assunto tão temido.
“No dia seguinte ninguém morreu” é a provocação em absoluto que instaura a obra. Numa dada sociedade, num dado tempo, num dado país, o caos está instalado. A imprecisão espaço-temporal, cronológica e nominativa no que ao nome e identificação dos personagens diz respeito é habitual na obra de Saramago, fazendo parte do seu desígnio de generalizar e tornar universais os temas que aborda. Temas esses que vão ser alvo de profundas perturbações e reflexão pelo simples facto de ninguém morrer, como o valor da vida e dos memórias que vivemos, as relações humanas, as esferas de poder, da monarquia, aos governos, ao clero e à maphia (com ph), até à própria sustentabilidade das finanças públicas, do sistema nacional de saúde e das indústrias que convivem de perto com a morte, como a funerária. Afinal de contas, a imortalidade tão cobiçada não parece ser assim tão sublime. Continua a haver sofrimento, agora sem fim, e um vazio niilista assombra os cidadãos deste país, nos idos de dois mil e cinco, com numerais por extenso, como tanto apraz a Saramago.
Um livro mais acessível do autor, com o seu estilo vincado indelevelmente ao longo de toda a prosa, revela que é possível satirizar e rir com a morte. A mesma que vem a ser protagonista para o final da trama e cujos desejos, inquietações e conversas com a inseparável gadanha são imperdíveis. Destaco como episódios marcantes o diálogo do primeiro-ministro com o rei, a notícia no telejornal em torno dos ocultos sobrescritos violeta e o concerto do violoncelista. Como habitual, a sua leitura faz-nos indagar e raciocinar sobre falhas num sistema que tomamos por certo, sobre cenários que nos incitam ao “e se?”.
Curto mas recheado de significado, metafísica e polissemântica, “As Intermitências” pode ser uma boa introdução à obra do autor. Observações perspicazes e satíricas sobre valores da sociedade são narradas no decurso da história, que conta com um final estonteante. O tom oralizante, repleto de expressões idiomáticas e populares enriquecem a prosa, que despretensiosamente aborda o ciclo e o valor da vida.
Abrindo alas para uma estante menos habitual no blog, deixamo-nos alavancar pelas referências e adágios em produtividade e comportamento humano, num livro sucinto e despretencioso catalogado como não-ficção. Esperemos que as máximas e leis que enuncia para a construção e desenvolvimento de hábitos vos ajude como aqui o fez a desenferrujar a escrita para revisitar mais calhamaços.
Insiste, resiste, persiste
Pese embora pareça ouvirmos esta frase ao longe nos corredores do ginásio, esta máxima pronunciada tão frequentemente por treinadores, coaches e personal trainers constitui a tese central deste livro. A consistência é o que nos leva ao resultado. Tornarmo-nos cada dia 1% melhor. Pequenas mudanças, grandes resultados.
Com uma escrita limpa e pragmática, James Clear estrutura o processo de construção dos hábitos empilhado em quatro passos para o comportamento humano: i) deixa, ii) anseio, iii) resposta e iv) recompensa e alicerçado em quatro leis fundamentais: tornar o hábito i) evidente, ii) atractivo, iii) fácil e iv) gratificante. As três primeiras fazem com que o hábito emerja e aconteça, o última com que este continue e não desapareça. Para isto são nos enunciadas ‘leis’ e tácticas, i.e. a regra dos dois minutos, os caracóis de ouro e o empilhamento de hábitos.
sem enveredar pelo caminho e pedante dos livros do género em busca incessante pela produtividade porque sim ou de auto-ajuda, que prometem oferecer uma kriptonite para a procrastinação e uma panaceia para a eficácia.
Escrito num modelo usual nos livros não-ficção: exemplo/parábola > problema > solução > enquadramento teórico, Atomic Habits: An Easy & Proven Way to Build Good Habits & Break Bad Ones retém o leitor com espécimes de outros humanos como nós, mais ou menos bem sucedidos, que confiam nos hábitos para chegar ao sucesso com consistência, estremando-se assim amadores de profissionais.
Revelando um sólido conhecimento da psicologia e do comportamento humano e o que nos faz dar o ‘click’, o autor entrega um resultado com um forte pendor prático, transmissível, sem enveredar pelo caminho e pedante dos livros do género em busca incessante pela produtividade porque sim ou de auto-ajuda, que prometem oferecer uma kriptonite para a procrastinação e uma panaceia para a eficácia.
“É frequente cairmos num ciclo de tudo ou nada com os nossos hábitos. O problema não é escorregar uma vez, o problema é pensar que, se não somos capazes de fazer uma coisa de uma forma perfeita, então não devemos fazê-la de todo.”
– cap. 4ª lei: tornar o hábito gratificante, p. 197
Logo após fazer com que capa e contracapa se encontrassem pelo término do livro, o ímpeto imediato foi fazer deslizar para trás a tampa do portátil e dar ao dedo para finalizar esta análise. Afinal, o propósito e resultado do livro foi atingido. Se esta pequena mudança levará a maiores resultados, cabe ao tempo o veredicto.
Transpondo muros da desinformação e do preconceito, a convidada da #geraçãodeleitores não baixa os braços na sua missão de fazer chegar a mensagem das maiores questões humanitárias que assolam o nosso mundo. Um desafio majorado num mundo que, apesar da aparente enxurrada de informação e comunicação através dos meios digitais, se arrisca a ser mais indiferente pelo próximo e desconhecedor dos factos que jamais.
A dar este salto está Mafalda, estudante de medicina, apaixonada por húngaros de chocolate e criadora de uma página no Instagram que almeja trazer esta mensagem de igualdade: @kisokelela. A sua recomendação de leitura do autor de Prisioneiros da Geografia (analisado no Calhamaço) dá-nos uma visão global sob as fronteiras que mais nos dividem, para que possamos aprender com essas cisões e, no seu lugar, construir pontes.
Entender o que nos divide, no passado e no presente, é essencial para compreender tudo o que se está a passar no mundo.
Esta é a principal premissa do livro “A Era dos Muros” de Tim Marshall, ao longo do qual são descritas de forma audaciosa e pragmática não só as principais barreiras físicas que dividem o nosso planeta, mas também as barreiras imaginárias que existem no seio das várias sociedades, descritas pelo autor como sendo “mentalidades de fortaleza”.
“A divisão molda a política a todos os níveis – pessoal, local, nacional e internacional. Cada história tem dois lados, e o mesmo se passa com cada muro. É essencial estarmos conscientes daquilo que nos dividiu, e que continua a fazê-lo, de forma a compreendermos o que se está a passar no mundo de hoje.”
p. 12
Marshall reforça a ideia de que pelo menos um terço (1/3) de todos os países do mundo contam com algum tipo de muro ou separação física entre si, devido aos mais diversos factores: guerras, alterações climáticas, religião, perseguições étnicas ou, até mesmo, controlo por regimes totalitários.
O livro perscruta a questão fronteiriça entre o México e os EUA, Israel e Palestina, Arábia Saudita e Irão, Bangladesh e Myanmar, entre outros. Explora também questões tais como a exclusão com base na etnia ou religião, como é o caso dos muçulmanos uigures ou budistas tibetanos em relação aos chineses han.
Acima de tudo, “A Era dos Muros” permite ao leitor abrir os horizontes em relação a algumas das mais ignóbeis atitudes humanas, que determinam o cada vez mais evidente distanciamento entre sociedades e culturas e o oblívio da nossa humanidade em comum.
Considero ser uma leitura impreterível para todos os que se interessem por geopolítica e que procurem saber mais sobre o que motivou muitas das segregações que se vivem nos dias de hoje.
A Era dos Muros [Divided: Why We’re Living in an Age of Walls]. 288 pág. 2018
Olhar para um mapa-mundi (frequentemente representado de forma desproporcional à escala de Mercator que tende a sobreavaliar o mundo Ocidental), sempre me suscitou o maior fascínio. Naturalmente, após percorrer demoradamente as mais variadas linhas que constituem um mapa, surgiam a dada altura questões sobre as suas fronteiras ou divisões administrativas. Porque é que algumas seguem o curso natural dos rios e cordilheiras enquanto outras traçam verdadeiras rectas? Porque é que algumas regiões têm maior concentração de países de pequena escala enquanto outras têm nações que se estendem a larga escala por todo o território?
Prisioneiros da Geografia é indicado para quem partilha estas interrogações e aprecia aventurar-se no vasto e intrincado mundo da ciência que procura explicar como se governa o mundo, – a geopolítica – e, paralelamente, como este se relaciona – a diplomacia. Um livro com o desígnio de explicar a compartimentação do planeta Terra será sempre sujeito a crítica, por tocar apenas ao de leve em assuntos deveras complexos e multifacetados, por privilegiar determinadas áreas, ou ainda por adoptar um olhar mais ocidentalizado. Contudo, Marshall cumpre o desafio de forma muito competente e ultrapassa estes obstáculos epistemológicos. O facto de o conseguir de forma sintética é também bastante abonatório. Embora considerados o cânone da disciplina diplomática, confesso ter sempre evitado os grandes tomos de Henry Kissinger.
Produto final de viagens pessoais e profissionais de Tim Marshall enquanto jornalista a vários pontos do globo (cobrindo os conflitos na Jugoslávia, Kosovo, Afeganistão, Iraque, Líbano, Síria e Israel com a BBC e Sky News), este livro está ‘arrumado’ e convenientemente organizado em dez grandes mapas que procuram explicar o porquê da organização do nosso planeta – Rússia, China, EUA, Europa Ocidental, África, Médio Oriente, Índia e Paquistão, Coreia e Japão, América Latina, Ártico. Marshall apresenta em cada capítulo, que versa sobre um dos mapas, um estudo estratégico semelhante aos elaborados por consultores de gestão a determinados mercados, oferecendo uma análise meticulosa dos dois lados da barricada que explora as fragilidades e forças das principais potências mundiais. Ao efectuar esse exercício, não se esquece igualmente de oferecer um olhar curioso à interligação dos referidos mapas no sistema internacional. Como indicado pelo título, o autor segue a teoria determinista da geografia e recorda que dela somos prisioneiros. O determinismo geográfico contemporâneo foi sobejamente desenvolvido por Jared Diamond no seu consagrado Guns, Germs and Steel, que aponta o dedo a factores naturais, climáticos e meteorológicos como determinantes para a distribuição geográfica das sociedades e a própria evolução humana.
“Desde o grande principado de Moscovo, pasando por Pedro, o Grande, Stalin e agora Putin, cada líder russo tem sido confrontado com os mesmos problemas. Não importa se a ideologia de quem detém o poder é czarista, comunista ou aproximada do capitalismo – os portos continuam a gelar e a planície do norte Europeu continua plana.”
— capítulo Rússia, p. 40
Neste livro conciso, aprendi especialmente sobre a Rússia e o que tira o sono a Putin – existirem montanhas somente nos Cárpatos -, a rivalidade entre a Índia e o Paquistão sem resolução à vista, as ambições do dragão chinês nos vários continentes, a criação arbitrária dos estados-nação no Médio Oriente, desenhados a régua e esquadro pelas potências ocidentais sem conhecimento geográfico da região e, por fim, a série de características naturais favoráveis com que foram brindados os norte americanos, o que ajudou em larga escala a garantir o seu papel como hegemon mundial.
Os endowments geográficos determinaram na história a prosperidade das nações. A desconfiança do “outro” propiciou conflitos, guerras e a luta pela supremacia e pelo acesso a determinados recursos. Apesar do encurtamento de distâncias e o acesso a regiões outrora inóspitas pelo meio do progresso tecnológico, a geopolítica foi e será sempre moldada pela geografia: os montes e vales, os recursos hídricos, rios navegáveis, portos naturais e climas propícios ao desenvolvimento humano. Somos e seremos subservientes à geografia. Já é tempo de a sabermos usar a nosso favor e de compartilharmos o inestimável território terrestre com os demais.
A diversidade étnica e racial norte-americana vista pelo olhar de uma criança, que naturalmente aceita essa diversidade. Um debate e processo criminal arcaicos, porém surpreendentemente ainda actual. Deixemo-nos guiar por este olhar respeitador da curiosa Scout (POV do romance) enquanto segue os passos do seu pai Atticus Finch, talvez o advogado mais célebre da literatura mundial.
“I think there is just one kind of folks. Folks.”
— Jean Louise “Scout” Finch
Seguramente, este é um dos livros no mundo mais dissecados para reflexão crítica, análise de temas e da moral e leitura semiótica. Tal deve-se ao facto de constituir parte da leitura obrigatória no currículo dos Estados Unidos da América, com infindos recursos interessantes disponíveis online. Que a sua disseminação em massa não seja um factor desencorajador da leitura. Pelo contrário, ao ser narrado sem preconceito permite-nos apreender as divisões sociais que precederam a Guerra Civil Americana e que moldaram a “Star-Spangled Banner”.
Aprecio um romance, peça ou filme no qual podemos vivenciar o crescimento de um personagem. Tenho esse particular agrado por reproduzir na arte o que acontece realmente. Não somos criaturas estanques e unidimensionais; somos organismos de tentativa-erro, aperfeiçoando-nos à medida que amadurecemos.
Na corrente realista, que procura espelhar o real tal qual ele é, o desenvolvimento dos personagens é, a meu entender, um requisito fundamental que Eça cumpre com exímia maestria. Este amadurecimento alicerçado em valores está particularmente patente no esboçar do protagonista Gonçalo Mendes Ramires. A sua personalidade bondosa, encantadora, cândida, porém também temerosa e procrastinadora está bem apurada e talvez seja o herói melhor construída do universo queirosiano. O ‘Fidalgo da Torre’ cresce ao longo da narrativa através do seu carácter, aspirações, inteligência emocional e bolina com natural ondulação pela vida aristocrática do virar do século XIX.
José Maria Eça de Queirós dispensa apresentações no mundo lusófono e além fronteiras. Pessoalmente, os seus livros sempre proporcionam um prazer de leitura incomparável pela ironia cómica e pelo domínio da língua portuguesa. À escala literária mundial, encabeça a lista dos mais proeminentes escritores realistas do século XIX. Nesse índice, é acompanhado pelo também lusófono Machado de Assis e os universais Fiódor Dostóievski, Leo Tolstói, Anton Chekhov, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert, e Mark Twain, por exemplo. Curiosamente, uma grande parte constitui também a minha lista de autores predilectos. Tal poderá ser indicador do meu fascínio por esta corrente literária e artística que, erigida sobre o romantismo, quebrou com preceitos tradicionais na arte, bem como na sociedade.
Este ‘A Ilustre Casa de Ramires’, póstumo e não integralmente revisto pelo autor, insere-se na sua terceira e última fase literária, descrita pelos especialistas queirosianos como uma fase mais conciliadora. A terceira fase mantém a crítica social que está patente em toda a sua obra, contudo relaxa um pouco o carácter pessimista, envergando até por um tom panglossiano e optimista, de regeneração. Assim, Eça cria a vetusta família Ramires e a sua ilustre casa vigilada pela antiquíssima Torre, cujas pedras testemunharam até os confrontos Afonsinos, para mostrar que a honra e glória da Nação pode sempre perseverar, ainda que com outros contornos.
Este é um romance tripartido, notavelmente composto num paralelismo entre três diferentes planos: i) a narração da passagem da vida adulta de Gonçalo desde a vinda de Coimbra até à ida para África; ii) o plano histórico, onde é traçada a efígie de Portugal nos últimos anos da monarquia e do seu declínio; e iii) o conto sobre as bravuras da família Ramires escrito por Gonçalo como aproveitamento político e baseado num poemeto de um tio. Apesar de nos entreter e deleitar com a sua escrita requintada por horas, o plano narrativo da composição da novela histórica “A Torre de D. Ramires” relatando as aventuras do antepassado Tructesindo é uma parte um tanto enfadonha da obra. O narrador omnisciente evidencia técnicas modernas de ponto de vista (POV). Este instrumento literário inovador para o seu tempo é notadamente marcado quando o narrador passa de seguir o protagonista quando tem a sua reunião privada com o governador civil André Cavaleiro. É nos dada a percepção dos voyeurs, os restantes habitantes da vila que estacadamente assistem ao reencontro improvável dos dois amigos outrora de costas voltadas, observando como de gelosia através de janelas e reposteiros apenas os gestos, os bafos dos charutos e as salutares palmadas nas costas.
O livro está recheado de momentos hilariantes de paródia com os costumes portugueses, a escrita mordaz e as interações sociais retratadas. Exemplos que decerto irei recordar são: o episódio bastante chistoso da comparação de Gonçalo com a parábola do Bom Samaritano quando caminha a lado de um lavrador montado na sua égua; toda a descrição da ascensão de Gonçalo a distinto deputado nas Cortes, as “ensebadas cadeiras de S. Bento”, ainda que lhe custe a honra e abra uma fenda na Palavra dos vetustos Ramires; o episódio hilário que versa sobre o romance proibido da sua irmã com o simultâneo amigo e arqui-inimigo Cavaleiro; assim como o episódio climáxico das chicotadas com o esplêndido e ‘antiqüissimo’ chicote achado pelo leal Bento, um dos aios que mantém o requinte da quinta de Santa Ireneia.
Assinalo também o enlevo de Eça por um bom ‘escandalozinho’ de alcova e por paixões escondidas, quer no caso mirado no mirante da sua irmã Gracinha, quer na tentativa de conquistar a recém viúva nova-rica D. Ana, uma Vénus sem etiqueta, porém com duzentos contos de renda, apenas para descobrir pelo seu primo Titó acerca das suas infidelidades ainda quando o cadáver do seu marido Sanches Lucena arrefecia. Será este tema recorrente na literatura romântica e realista uma prova do carácter adúltero dos portugueses ou da sociedade de então?
“Não compreendem… Vocês não conhecem a organização de Portugal. Perguntem aí ao Gouveia… Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria.”
Em destaque, o pormenor da classe social de cada interveniente indicada pelo meio de locomoção, seja montado numa égua ou a cavalo, (destaque para os cavalos impecavelmente tratados do cunhado Barrolo que “nem uma gota transpiram”), numa tipóia ou caleche, ou então as longas caminhadas a pé para as classes mais desfavorecidas. Vemos o exemplo da esposa do Casco, um humilde lavrador que vê o seu contrato verbal com Gonçalo desonrado, que carrega estrada fora o filho enfermo pela mão e a bebé que amamenta ao colo. A atitude abnegada de Gonçalo, aconchegando o pequeno nos melhores tecidos do casarão e velado pelos austeros retratos dos antepassados Mendes Ramires, embora sincera e desinteressada, é percebida pelo mesmo como falsa aquando da sua eleição como deputado. É também um símbolo da mudança de paradigmas na sociedade, mais igualitária nos direitos e nos costumes e expressando a aproximação a um sistema político republicano e representativo. O protagonista é comparado com Portugal, quiçá numa das suas épocas mais frágeis política e socialmente, após o sentimento de derrota nacional e quase traição com o Ultimato inglês e a ameaça de rasgar o Tratado de Windsor, o mais antigo acordo entre dois estados soberanos. Em baixo, o excerto antológico do romance que evidencia a metáfora:
“– Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o senhor Padre Soeiro quem ele me lembra?
– Quem?
– Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor Padre Soeiro… Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia. A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, sentimentos de multa honra, uns escrúpulos quase pueris, não verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar até mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre alento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão pairador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha torre, há mil anos… Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
– Quem?…
– Portugal. ”
Gonçalo Mendes Ramires – mais do que uma mera representação estereotipada e delimitada nas linhas do convencionalismo – descende da aristocracia cuja antiguidade precede a própria nacionalidade e forjou o milenário brasão de armas do reino de Portugal. Todavia, o Fidalgo não esconde as suas hesitações, os seus desejos, as suas preguiças, defeitos e virtudes, expressados quer pelos seus actos, como pelas suas inércias. O casting do aristocrata fora certeiro, visto representar em si mesmo Portugal no final do século das revoluções.
Concluindo, ao longo do romance, o tom irónico e de paródia valoriza muito a leitura que trota pela paisagem bucólica do Norte de Portugal, envolta em natureza empedernida e história. A Ilustre Casa de Ramires talvez seja o romance queirosiano mais maduro e uma das obras realistas que mais me deleitou: pela construção dos personagens e pela tomada das suas atitudes, de acordo com a consciência moral de cada um.
O livro que me introduziu a Vargas Llosa e que revelou ser uma escolha na mouche.
‘A Tia Júlia e o Escrevedor‘ é uma homenagem à cultura latinoamericana, às novelas e em particular radionovelas, contando histórias fantásticas e que exacerbam o quotidiano peruano. Foi recompensador explorar as ruas de Lima, o bairro de Miraflores, o Perú mais rural e de herança inca e toda a sua cultura e costumes.
É também autobiográfico, onde o autor não resvala para o sentimentalismo, mas retrata com idónea representação a relação entre tia e sobrinho, comicamente entrelaçando-a com o enredo das sucessivas novelas que Pedro Camacho digitava apressadamente na sua máquina de escrever. Esta inesquecível personagem leva o romance mais alto e resulta como fio que ata e une todo o enredo.
Uma leitura leve, cómica e culturalmente rica que oferece uma antevisão à restante “emissão” criativa de Vargas Llosa. Decerto não perderei os próximos episódios na sua escrita sublime e “perspicaz cartografia do poder” (Academia Nobel).
Inovador, irreverente, vanguardista. Uma lufada de ar fresco na literatura mundial.
‘Se numa noite de inverno um viajante‘, de título inusitado, celebra a arte da leitura, os hábitos e costumes de ser leitor, tecendo também críticas aos “ilustres” académicos e autoproclamados intelectuais que estragam o simples e natural acto de ler, bem como os editores que o tornam num negócio fortuito que valoriza a quantidade sobre a qualidade literária.
Italo Calvino configura-se um mestre contador de histórias, uma vez que a maioria dos contos inacabados suscitaram em mim, leitor, bastante interesse de as continuar, assim como ao Leitor. Fomos assim manipulados, tal como o Autor previra.
” Não que estejas à espera de alguma coisa de especial deste livro em especial. És um daqueles que por princípio não espera mais nada de nada. Há tanta gente, mais jovem do que tu ou menos jovem, que vive na expectativa de experiências extraordinárias; daquilo que o dia de amanhã lhes reserva. Tu não. Tu sabes que o melhor que se pode esperar é evitar o pior.
” Vamos ver. Talvez a princípio te sintas um pouco desorientado (…) Mas depois prossegues e dás-te conta de que o livro se deixa ler apesar de tudo, independentemente daquilo que esperavas do autor. Pensando bem até preferes que seja assim, encontrares-te perante qualquer coisa que ainda não sabes bem o que é.