Cem anos de perdão — João Tordo

crítica

Thriller à portuguesa

Tendo conhecido a obra de João Tordo a partir de outro registo, fundacional, evocando o estilo film noir, mais intimista e com retrato de perfis psicológicos de escritores, presente nas primeiras publicações que lhe valeram o reconhecimento nas Letras nacionais: Hotel Memória e As Três Vidas (livro com o qual venceu o Prémio José Saramago em 2009), esta foi uma estreia no seu estilo thriller. Quasi-estreia também para o género literário que não tendo a explorar habitualmente, no qual se incluem policiais e histórias de crime. Tordo revela ser um leitor assíduo de thrillers, seguindo com a dosagem certa a receita comprovada e testada pelos mestres do ofício, Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, composta pela arquetipagem de personagens, diálogos relampejantes e cliffhangers entre secções e capítulos.

“Cem anos de perdão” retoma o desenrolar da dupla de personagens Pilar e Cícero, construídos no anterior Águas Passadas, algo que o autor faz questão de recordar ao leitor, num convite dissimulado para visitar a livraria mais próxima. Embora referenciando repetitivamente o primeiro caso Drexler, que deixou uma marca indelével nos protagonistas, Tordo dissocia as histórias, permitindo que os livros sejam desfrutados individualmente.

Destacam-se os episódios no estabelecimento prisional de Brixton onde Cícero se encontra encarcerado e que se assemelha, tal como assumido no livro, à novela de Stephen King, rei internacional do thriller, sobre a fuga entaipada pelo poster de Rita Hayworth que serviu de base ao famoso filme Shawshank Redemption. A dinâmica de poder e influência entre guardas prisionais, recém chegados e older offenders é credível e consegue agarrar o leitor. Por seu lado, as cenas de Pilar em Helsínquia parecem despropositadas e a narração decorrida na fictícia ilha de S. Dismas peca pela falta de profundidade nas cenas passadas na esquadra, nas vilas insulares inglesas e, sobretudo, na igreja e na comunidade religiosa segregacionista, tema central deste livro.

O final ficou aquém das expectativas, seguramente passando bem sem o desfecho forçado e melodramático a que um clímax parece obrigar para satisfazer o formato. Considerando o género em questão, é um livro que cumpre com o que promete: descrição psicológica dos criminosos e seus justiceiros, diálogos rápidos e ziguezagueantes e pesquisa histórica e temática.

Uma leitura prazerosa, ainda que evanescente, Cem anos de perdão explora com sucesso a ambiguidade moral, a influência do passado nas nossas ações e a concepção do “mal”.

Destaques

+ Cenas na prisão de Brixton verossímeis e intrigantes; perfil psicológico de Pilar Benamor; livro convive autonomamente com o precursor “Águas Passadas”, o que permite que seja lido em separado; pesquisa histórica sobre seitas religiosas, S. Dismas (o bom ladrão) e os dismáticos; desenho cénico da ilha britânica de St. Dismas; exploração do funcionamento de grupos religiosos que vivem em marginalização.

– Linguagem deveras coloquial em discurso directo recorrente; demasiados anglicismos, talvez numa tentativa de aproximação a público-alvo mais alargado e leitores mais jovens; desenvolvimento incipiente dos personagens ao longo da trama; remissões repetitivas para o primeiro tomo da trilogia.


3.6 / 5

Rating: 3.5 out of 5.

Excertos

8.33% ““A superstição, na sua raiz, é um medo excessivo dos deuses. O receio de uma profecia. Em latim, superstitio é algo que sobrou, que ficou de fora. Fora de quê? Da limitadíssima capacidade humana de compreender; como se os deuses tivessem deixado, aqui e ali, zonas de sombra que atemorizam o humano, propositadamente zombando da nossa finita razão.” – cap. Prisão de Brixton”

10.94% ““A manifestação mais óbvia do diabo é a sua capacidade de se esconder (…) fez-nos crer em si próprio disfarçado de outro, do seu contrário.” – cap. Prisão de Brixton”

21.01% ““A Inglaterra era um pedaço de terra isolado do continente europeu, onde os locais tinham hábitos diferentes, arraigados, sobranceiros – conduziam do lado errado da estrada, gostavam de cerveja insípida, salsichas com puré de batata e atiravam queijos do cimo de uma colina íngreme, para depois quase se matarem no seu encalço.” – cap. Brixton, p. 121”

25.87% “”Se não tivermos cuidado com esta gente, ainda vamos acabar a comer os nossos próprios testículos” – cap. Ilha de St. Dismas, p. 149″

60.07% “”Exerço com consciência e dignidade, é o que diz o juramento (de Hipócrates). E bom senso, claro.”

“E se tudo isto for o contrário do bom senso?”, perguntou Pilar. – cap. 17 de abril, ilha de St. Dismas, p. 345″

68.06% “”Essa história do Papillon é a melhor de todas, e eu sou como o Degas, a outra personagem principal. Não tenho interesse nenhum em fugir da prisão, gosto mais da vida aqui dentro do que lá fora”. – cap. ’19 de abril, prisão de Brixton’, p. 376″

As Intermitências da Morte — José Saramago

crítica

Morte, em minúscula

Desde “O Ano da Morte de Ricardo Reis” que não desbravava uma obra de Saramago. Após o primeiro contacto fortuito com “Memorial do Convento”, que apesar de carregar capítulos pesados e extensos sobre a construção do convento de Mafra, como as pedras que sustentam o imponente edifício, tem um poder de fascínio e de mágica inolvidáveis protagonizados pelos Sete Sóis e Sete Luas e a passarola do padre voador. A incursão seguinte, o ensaio ambicioso de complementar a ilustre arca de Pessoa, teve altos e baixos pela Lisboa dos anos 30, tendo terminado por desesperançar um pouco face ao Memorial. Neste título, mantém-se a presença e ubiquidade da morte, porém com um cunho e um ritmo bem mais despreocupado e desenvolto, por estranho que possa parecer ao abordar um assunto tão temido.

“No dia seguinte ninguém morreu” é a provocação em absoluto que instaura a obra. Numa dada sociedade, num dado tempo, num dado país, o caos está instalado. A imprecisão espaço-temporal, cronológica e nominativa no que ao nome e identificação dos personagens diz respeito é habitual na obra de Saramago, fazendo parte do seu desígnio de generalizar e tornar universais os temas que aborda. Temas esses que vão ser alvo de profundas perturbações e reflexão pelo simples facto de ninguém morrer, como o valor da vida e dos memórias que vivemos, as relações humanas, as esferas de poder, da monarquia, aos governos, ao clero e à maphia (com ph), até à própria sustentabilidade das finanças públicas, do sistema nacional de saúde e das indústrias que convivem de perto com a morte, como a funerária. Afinal de contas, a imortalidade tão cobiçada não parece ser assim tão sublime. Continua a haver sofrimento, agora sem fim, e um vazio niilista assombra os cidadãos deste país, nos idos de dois mil e cinco, com numerais por extenso, como tanto apraz a Saramago.

Um livro mais acessível do autor, com o seu estilo vincado indelevelmente ao longo de toda a prosa, revela que é possível satirizar e rir com a morte. A mesma que vem a ser protagonista para o final da trama e cujos desejos, inquietações e conversas com a inseparável gadanha são imperdíveis. Destaco como episódios marcantes o diálogo do primeiro-ministro com o rei,  a notícia no telejornal em torno dos ocultos sobrescritos violeta e o concerto do violoncelista. Como habitual, a sua leitura faz-nos indagar e raciocinar sobre falhas num sistema que tomamos por certo, sobre cenários que nos incitam ao “e se?”. 

Curto mas recheado de significado, metafísica e polissemântica, “As Intermitências” pode ser uma boa introdução à obra do autor. Observações perspicazes e satíricas sobre valores da sociedade são narradas no decurso da história, que conta com um final estonteante. O tom oralizante, repleto de expressões idiomáticas e populares enriquecem a prosa, que despretensiosamente aborda o ciclo e o valor da vida.

Rating: 4.5 out of 5.

4.3

Mensagem — Fernando Pessoa

crítica

Falta cumprir-se Portugal!

Poema à lingua portuguesa, à portugalidade, à nação e ao povo.

Magistralmente escrito por Pessoa, que segue a formalidade clássica e em simultâneo rompe com os cânones literários. Recheado de episódios de um Portugal glorioso, símbolos, sinédoques, figuras históricas, avisos, premonições e esperança. Mensagem afigura-se como a obra máxima do Modernismo luso e de além-fronteiras.

Obrigatório na estante e no consciente de todos os portugueses.

*Celebração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas de 2021.



Rating: 5 out of 5.

5.0

Mensagem (1934). Tinta da China. 288 pág.

Reedição em edição suberba de livro de bolso, sob a coordenação do pessoano Jerónimo Pizarro, incluindo ao cânone textual, imagens e vários elementos que iluminam esta obra.

#geraçãodeleitores O Alquimista — Paulo Coelho

geraçãodeleitores

Neste episódio, o recém aniversariante Rodrigo traz-nos um volume sobejamente conhecido dentro e além fronteiras, ou não estaríamos a falar do livro lusófono mais traduzido de sempre, bem como o maior bestseller. Como tudo o que esse atributo descreve, reúne consenso como livro favorito por uns e, simultaneamente, dissonâncias por ser considerado uma mera amálgama de aforismos por outros.

Rodrigo, especialista em converter cliques em clientes e em avivar invariavelmente um sorriso na cara dos seus amigos, sempre procurou respostas para questões da sociedade, não se conformando com refutações que a polarizam.

Apresentando um registo menos convencional no Calhamaço, abrimos os horizontes para compreender o que faz esta obra figurar nas listas do livros que mais marcaram os seus leitores, ao fim e ao cabo a intenção precisa da rubrica Geração de Leitores. Só assim ouvimos outras vozes e partilhamos literatura.



A alquimia refere-se à ciência oculta medieval que se dedica a descobrir o elixir da vida e a pedra filosofal, permitindo transformar qualquer metal em Ouro. Paulo Coelho não poderia ter escolhido melhor nome para este conto, detentor do recorde do Guinness para o livro mais traduzido de um autor vivo.

Para fazer jus à sua escrita, deixo de fora deste comentário palavras francesas e construções frásicas complexas, pois o próprio conto parece ser redigido para crianças, pela sua escrita informal e infantil. Desta forma, somos convidados a recuar no tempo e a recuperar os nossos sonhos de infância, e, completamente desarmados, compreender os princípios básicos da busca da felicidade – ou da pedra filosofal.

Viajando com Santiago, um pastor andaluz que larga a sua casa em busca de um destino que lhe foi apresentado num sonho, desejamos entender de que maneira este conseguirá ultrapassar todas as peripécias que lhe vão surgindo para chegar ao tão aguardado final – pois é esta a nossa expectativa adulta: há uma Viagem, terá por certo que haver um destino concreto. Existem ao longo do conto infortúnios, mas será preciso vencê-los para chegar ao destino final. Santiago fará amizades, mas será preciso deixá-las para chegar ao destino final.

Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro.

No final da leitura, um coração que se foi tornando infantil saberá um pouco melhor de que destino se fala. Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro. Entendemos que, como Santiago, estamos também nós num processo de alquimia, e que também nós nos encontramos nesta Viagem, e que assim será até ao último dia. O Alquimista confere-nos a tranquilidade de saber que a Viagem está longe de estar concluída, e que deve ser assumida de acordo com a nossa “Lenda Pessoal”. Se assim for, estaremos um passo mais perto de nos transformarmos em Ouro. 

“Eles não sabem, nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança”. 

“Pedra Filosofal”, António Gedeão



O Alquimista. 192 pág. 1988

Editado em Portugal pela Pergaminho e 11×17.

* Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores Princípio de Karenina — Afonso Cruz

geraçãodeleitores

Neste segundo episódio #geraçãodeleitores, convidámos o nosso caro amigo Afonso, vencedor consagrado de inúmeros Movembers, data scientist fã de esmiuçar as margens dos retalhistas em busca do melhor desconto, sportinguista incurável e deslumbrado pela poesia de Daniel Faria e Pessoa.

Apresenta-nos Afonso Cruz, um one-man band, que toca literalmente em quase todos os ofícios artísticos durante a sua carreira: escritor, ilustrador, realizador, músico. Conhecido pelas suas alegorias e memoráveis aforismos, é sem dúvida um autor a ter debaixo de olho e na senda de prestigiados prémios em nome da literatura portuguesa e lusófona.



Quando começam as nossas histórias? Esta é mais uma das perguntas inquietantes que Afonso Cruz nos coloca na comovente carta que um pai escreve à sua filha, onde lhe conta as suas origens e o que foi aprendendo ao longo da vida, entre lições e arrependimentos.

Narrado na primeira pessoa e carregado de intimidade, este livro fala-nos da importância de valorizarmos o que nos rodeia, desde a família aos amigos, de nos mostramos disponíveis e abertos para o mundo, para o amor ao próximo (física ou emocionalmente) e para o abstrato conceito da felicidade.

À semelhança de outras obras do escritor, Princípio de Karenina surge também como uma espécie de exame de consciência que, caso o permitamos, nos dá material suficiente para colocarmos a nossa própria vida em perspetiva.

Ao longo do seu trabalho literário, o autor defende que, mesmo que o não consigamos identificar, acontecimentos que possamos reconhecer como independentes uns dos outros se encontram unidos por fios. Numa escala menor, mas como forma de reforçar o seu argumento, Afonso cria ligações brilhantes entre os seus livros de modo a tornar as suas próprias narrativas mais realistas, característica que reforça este convite do escritor à introspecção.

Ao tentar responder à questão que inicia este comentário, este pai afirma que “Tudo começa a todo o instante (…) todos os lugares são centros e todos os instantes são começos”.

Da minha parte, apenas me resta dizer que nenhum instante é tarde para começar a ler Afonso Cruz.



Princípio de Karenina. 168 pág. 2018

Livro editado em Portugal pela Companhia das Letras, uma chancela da Penguin Random House.

*Esta opinião faz parte da rubrica Geração de Leitores.

Manifesto Anti-Dantas e por Extenso — José de Almada Negreiros

crítica

Bofetada ao marasmo

A liberdade criativa da Arte simbolizada num Manifesto que não poupa em nenhuma injúria ou salutar bofetada para despertar um País do seu marasmo político, social, literário e cultural.

Almada Negreiros, com um tom mordaz, pilhérico, burlesco, alveja Júlio Dantas e toda a sua geração acomodada e “de descendência linfática”, alertando para a hipocrisia de uma geração de intelectuais desperdiçada em pleno clima europeu futurista e de regeneração artística.

O seu desígnio não poderia ter melhor clarificação que o exposto na própria publicação:

“Almada é a trombeta do cortejo. Salta à frente, com este estridente manifesto literário, em que o escândalo rebenta por todas as linhas, salta à frente com teatralidade dos seus gestos, dos seus gritos e dos seus atentados ao gosto e aos hábitos do senhor-toda-a-gente, hábitos de trajar, de pensar, de fazer versos, de ser funcionário público e de ter descendência linfática.”


Lido por Mário Viegas

Assim, ‘Pim!’ talvez Portugal se desperte da sua longa modorra e deixe de valorizar “caducos literatos de graves ademanes senis e de frases brunidas, medidas pelo diapasão dos clássicos que o tempo ressequiu, foram considerados os templos da Literatura e da Arte consagrada e definitiva”.

Manifesto por extenso – e por MAIÚSCULAS-, de uma ousadia sem precedente, entreposto no movimento modernista e reformador de Orpheu, que indubitavelmente deixou a sua marca indelével na cultura portuguesa.

— Recensão composta por ocasião da celebração dos cinquenta anos da morte de José de Almada Negreiros (1970-2020) —

“UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D’INDIGENTES, D’INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PÓDE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!”


4

Rating: 4 out of 5.


Manifesto Anti-Dantas e por Extenso

128 pág., Assírio e Alvim

A Ilustre Casa de Ramires — Eça de Queirós

crítica

Fidalguia que edificou o brasão português

Aprecio um romance, peça ou filme no qual podemos vivenciar o crescimento de um personagem. Tenho esse particular agrado por reproduzir na arte o que acontece realmente. Não somos criaturas estanques e unidimensionais; somos organismos de tentativa-erro, aperfeiçoando-nos à medida que amadurecemos.

Na corrente realista, que procura espelhar o real tal qual ele é, o desenvolvimento dos personagens é, a meu entender, um requisito fundamental que Eça cumpre com exímia maestria. Este amadurecimento alicerçado em valores está particularmente patente no esboçar do protagonista Gonçalo Mendes Ramires. A sua personalidade bondosa, encantadora, cândida, porém também temerosa e procrastinadora está bem apurada e talvez seja o herói melhor construída do universo queirosiano. O ‘Fidalgo da Torre’ cresce ao longo da narrativa através do seu carácter, aspirações, inteligência emocional e bolina com natural ondulação pela vida aristocrática do virar do século XIX.  

José Maria Eça de Queirós dispensa apresentações no mundo lusófono e além fronteiras. Pessoalmente, os seus livros sempre proporcionam um prazer de leitura incomparável pela ironia cómica e pelo domínio da língua portuguesa. À escala literária mundial, encabeça a lista dos mais proeminentes escritores realistas do século XIX. Nesse índice, é acompanhado pelo também lusófono Machado de Assis e os universais Fiódor Dostóievski, Leo Tolstói, Anton Chekhov, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert, e Mark Twain, por exemplo. Curiosamente, uma grande parte constitui também a minha lista de autores predilectos. Tal poderá ser indicador do meu fascínio por esta corrente literária e artística que, erigida sobre o romantismo, quebrou com preceitos tradicionais na arte, bem como na sociedade.

Este ‘A Ilustre Casa de Ramires’, póstumo e não integralmente revisto pelo autor, insere-se na sua terceira e última fase literária, descrita pelos especialistas queirosianos como uma fase mais conciliadora. A terceira fase mantém a crítica social que está patente em toda a sua obra, contudo relaxa um pouco o carácter pessimista, envergando até por um tom panglossiano e optimista, de regeneração. Assim, Eça cria a vetusta família Ramires e a sua ilustre casa vigilada pela antiquíssima Torre, cujas pedras testemunharam até os confrontos Afonsinos, para mostrar que a honra e glória da Nação pode sempre perseverar, ainda que com outros contornos.

Este é um romance tripartido, notavelmente composto num paralelismo entre três diferentes planos: i) a narração da passagem da vida adulta de Gonçalo desde a vinda de Coimbra até à ida para África; ii) o plano histórico, onde é traçada a efígie de Portugal nos últimos anos da monarquia e do seu declínio; e iii) o conto sobre as bravuras da família Ramires escrito por Gonçalo como aproveitamento político e baseado num poemeto de um tio. Apesar de nos entreter e deleitar com a sua escrita requintada por horas, o plano narrativo da composição da novela histórica “A Torre de D. Ramires” relatando as aventuras do antepassado Tructesindo é uma parte um tanto enfadonha da obra. O narrador omnisciente evidencia técnicas modernas de ponto de vista (POV). Este instrumento literário inovador para o seu tempo é notadamente marcado quando o narrador passa de seguir o protagonista quando tem a sua reunião privada com o governador civil André Cavaleiro. É nos dada a percepção dos voyeurs, os restantes habitantes da vila que estacadamente assistem ao reencontro improvável dos dois amigos outrora de costas voltadas, observando como de gelosia através de janelas e reposteiros apenas os gestos, os bafos dos charutos e as salutares palmadas nas costas.

O livro está recheado de momentos hilariantes de paródia com os costumes portugueses, a escrita mordaz e as interações sociais retratadas. Exemplos que decerto irei recordar são: o episódio bastante chistoso da comparação de Gonçalo com a parábola do Bom Samaritano quando caminha a lado de um lavrador montado na sua égua; toda a descrição da ascensão de Gonçalo a distinto deputado nas Cortes, as “ensebadas cadeiras de S. Bento”, ainda que lhe custe a honra e abra uma fenda na Palavra dos vetustos Ramires; o episódio hilário que versa sobre o romance proibido da sua irmã com o simultâneo amigo e arqui-inimigo Cavaleiro; assim como o episódio climáxico das chicotadas com o esplêndido e ‘antiqüissimo’ chicote achado pelo leal Bento, um dos aios que mantém o requinte da quinta de Santa Ireneia.

Assinalo também o enlevo de Eça por um bom ‘escandalozinho’ de alcova e por paixões escondidas, quer no caso mirado no mirante da sua irmã Gracinha, quer na tentativa de conquistar a recém viúva nova-rica D. Ana, uma Vénus sem etiqueta, porém com duzentos contos de renda, apenas para descobrir pelo seu primo Titó acerca das suas infidelidades ainda quando o cadáver do seu marido Sanches Lucena arrefecia. Será este tema recorrente na literatura romântica e realista uma prova do carácter adúltero dos portugueses ou da sociedade de então?

“Não compreendem… Vocês não conhecem a organização de Portugal. Perguntem aí ao Gouveia… Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria.”

Em destaque, o pormenor da classe social de cada interveniente indicada pelo meio de locomoção, seja montado numa égua ou a cavalo, (destaque para os cavalos impecavelmente tratados do cunhado Barrolo que “nem uma gota transpiram”), numa tipóia ou caleche, ou então as longas caminhadas a pé para as classes mais desfavorecidas. Vemos o exemplo da esposa do Casco, um humilde lavrador que vê o seu contrato verbal com Gonçalo desonrado, que carrega estrada fora o filho enfermo pela mão e a bebé que amamenta ao colo. A atitude abnegada de Gonçalo, aconchegando o pequeno nos melhores tecidos do casarão e velado pelos austeros retratos dos antepassados Mendes Ramires, embora sincera e desinteressada, é percebida pelo mesmo como falsa aquando da sua eleição como deputado. É também um símbolo da mudança de paradigmas na sociedade, mais igualitária nos direitos e nos costumes e expressando a aproximação a um sistema político republicano e representativo. O protagonista é comparado com Portugal, quiçá numa das suas épocas mais frágeis política e socialmente, após o sentimento de derrota nacional e quase traição com o Ultimato inglês e a ameaça de rasgar o Tratado de Windsor, o mais antigo acordo entre dois estados soberanos. Em baixo, o excerto antológico do romance que evidencia a metáfora:


– Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o senhor Padre Soeiro quem ele me lembra?

– Quem?

– Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor Padre Soeiro… Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia. A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, sentimentos de multa honra, uns escrúpulos quase pueris, não verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar até mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre alento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão pairador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha torre, há mil anos… Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

    –  Quem?…

    –  Portugal. ”


Gonçalo Mendes Ramires – mais do que uma mera representação estereotipada e delimitada nas linhas do convencionalismo – descende da aristocracia cuja antiguidade precede a própria nacionalidade e forjou o milenário brasão de armas do reino de Portugal. Todavia, o Fidalgo não esconde as suas hesitações, os seus desejos, as suas preguiças, defeitos e virtudes, expressados quer pelos seus actos, como pelas suas inércias. O casting do aristocrata fora certeiro, visto representar em si mesmo Portugal no final do século das revoluções.

Concluindo, ao longo do romance, o tom irónico e de paródia valoriza muito a leitura que trota pela paisagem bucólica do Norte de Portugal, envolta em natureza empedernida e história. A Ilustre Casa de Ramires talvez seja o romance queirosiano mais maduro e uma das obras realistas que mais me deleitou: pela construção dos personagens e pela tomada das suas atitudes, de acordo com a consciência moral de cada um.  


4.4

Rating: 4.5 out of 5.

A Ilustre Casa de Ramires (1900)

312 pág.,
Editora Guerra & Paz


A Relíquia — Eça de Queirós

crítica

A “inutilidade da hipocrisia”

Mais uma excelente obra de um dos maiores realistas da literatura mundial.
Eça surpreende perpetuamente engendrando episódios, criando personagens de imenso humor representativos da sociedade, recheando as páginas de ironia inteligentíssima, deleitando-nos com os seus inúmeros e eruditos vocábulos, pormenores que não poupam adjectivo e que adornam a sua prosa com figuras de estilo: metáforas, aliterações, perífrases, hipérboles, personificações.

A trama é dividida em três partes.


A primeira introduz-nos a Teodorico Raposo, aos seus antepassados, ao seu destino de menino órfão entregue a uma abastada e hedionda tia a quem é ensinado a tratar como “titi” desde que começa a falar, passando pela sua educação e desenvolvimento pessoal. Os traços de carácter embusteiro e ganancioso são nos evidenciados nesta fase de juventude de “Raposão”, como aliás era conhecido o protagonista em Coimbra. Certa noite, Teodorico é iluminado por uma brilhante ideia: há que teatralizar toda a sua devoção católica e religiosidade para enganar a “titi” e deitar a mão à incomensurável fortuna herdada de G. Godinho, competindo assim com os párocos que se rodeavam da tia a fim de se constituírem herdeiros. Para finalizar o acto, Teodorico propõe uma peregrinação religiosa a Jerusalém de onde resultará uma relíquia para a sua venerável tia que havia de ser falada por toda a Lisboa.

Em seguida, somos guiados pela quase epopeia de Teodorico ao Oriente e à Terra Santa, acompanhado do douto alemão Topsius e o prestável Potte. Com uma descrição tão viva e detalhada, Eça espelha nesta parte as novas correntes literárias do Realismo e Naturalismo que rompem com o Romantismo que até então vigorava em Portugal e na Europa. A crueza das coisas e dos lugares é nos exposta com pormenor, onde não cabem embelezamentos nem eufemismos românticos. No entanto, com bastantes referências históricas, bíblicas e geográficas, esta parte é um tanto maçadora para quem não está familiarizado com as mesmas, todavia interessante e um reflexo da vasta intelectualidade de Eça de Queiroz.

Por fim, a terceira e última parte diz respeito ao regresso de Teodorico da Palestina, o reencontro com a detestável Srª Dª Patrocínio das Neves (note-se o apelido da senhora não elegido ao acaso) e com a sua comitiva interesseira, o momento clímax de desvendar a relíquia e o destino que se lhe segue, com reflexões de Teodorico sobre o seu passado errante e uma conversa sublime com a sua consciência.

No que toca à narração, esta é nos contada na primeira pessoa pelo protagonista que acompanhamos desde o nascimento e por quem torcemos, embora seja transparente a sua má indole e falta de moral. Torcemos pelo “Raposão” pois é-nos evidente a decrepitude de quem o rodeia e o ainda maior oportunismo com que untam os seus actos. Pelo menos, o “nosso” Raposo tem um rasgo de consciência que o assalta enquanto se encontra na penúria, que o leva a reflectir na inútil hipocrasia que o cerca e da qual fazia parte.

Um livro verdadeiramente vanguardista para a sua época, quer na escrita, quer no conteúdo.


Pertence segundo aos queirosianos a uma segunda fase do autor, do pessimismo. Uma crítica social do final do século XIX que denuncia uma sociedade estagnada e entorpecida, o diletantismo (explorado a fundo na magnum opus queirosiana Os Maias), o clero corrupto, a beatice exagerada, a falsa caridade, e a ironia de tudo isto. Expõe vícios, luxúria, ganância, abusos de poder e hipocrisias, permanecendo por isso assustadoramente actual.


Um clássico como ‘A Relíquia é-o porque “nunca deixou de dizer o que tem para dizer” (citando Italo Calvino).


4.3

Rating: 4.5 out of 5.

A Relíquia (1887)

288 pág., Colecção BIS, LeYa
Reliquia 1887 Livro

Jesusalém — Mia Couto

crítica

No início é nos dada a conhecer a inusitada família Ventura e um não-lugar no interior de África onde coabitam que nem eremitas, mantendo apenas proximidade com o mundo através do tio Aproximado. Desenvolve-se então uma história construída numa narrativa simples sobre o remorso e o esquecimento.

Jesusalém’ é um refúgio para almas perdidas que se encontram em pequenas coisas e assim fingem afastar-se do passado.

Mia Couto é um contador de histórias competente e extremamente criativo. A multiplicidade de jogos de palavras, neologismos e incorporação de um qualquer criolo comprova isso mesmo, espelhado no próprio título da obra: ‘Jesusalém’. Uma justaposição curiosa que resume numa palavra a ideia a transmitir de confinamento e distância.

É um livro que merece ser escrevinhado, sublinhado, realçado. Repleto de frases memoráveis e enquadrado por poemas fantásticos de Sophia de Mello Breyner.


3.6

Rating: 3.5 out of 5.

Jesusalém (2012)

296 pág., Caminho

Livro — José Luís Peixoto

crítica

País emigrante

Livro revela que José Luís Peixoto é um grande escritor do panorama nacional e internacional. O seu estilo é inconfundível com diferentes ritmos narrativos, frases curtas (simples e simultaneamente complexas), múltiplos assíndetos, que acrescentam, através de vírgulas, sensações, inúmeras sensações, um emaranhado de sensações do quotidiano, magistral e unicamente descritas por José Luís Peixoto.

Todo o ‘Livro‘ tem uma estrutura circular com duas partes distintas, a primeira mais aliciante e recheada com as tais inconfundíveis sensações que valorizam muito este livro, a segunda é original e interessante, no entanto, por vezes despropositada e dispersa.

Em realidade, fiquei mais adepto do escritor do que da obra concreta (Livro livro e livro personagem: um trocadilho cíclico), embora as personagens (Ilídio, Adelaide, Josué, velha Lubélia, Cosme, para citar os mais marcantes) se tornaram memoráveis.

Existe o que quero dizer e existe a minha voz. Nem sempre o tom da minha voz corresponde ao que quero dizer e, mesmo assim, molda-o tanto como as palavras, indexadas em dicionários que já estavam impressos antes de eu nascer. (…) A minha voz é como este livro: capa, papel, peso medido em gramas. O que quero dizer também é como este livro: mundo subjectivo, existente e inexistente, sugerido pelo significado das palavras.

— página 235

Em suma, o contexto da imigração portuguesa e da descrição da transição provinciana e rural portuguesa com os seus etnográficos detalhes, costumes e tradições ao ambiente urbano francês conferiu ao livro um carácter de bastante interesse.


4.0

Rating: 4 out of 5.

Livro (2010)

246 pág., Quetzal