*4.7
A permanência indelével da infância
‘História de Quem Vai e de Quem Fica’ representa o terceiro volume da série napolitana de Elena Ferrante, uma epopeia literária que cativou leitores em todo o mundo. Desde o seu início, esta série tem sido acompanhada de perto, especialmente após sua adaptação televisiva pela HBO/Rai, que se revelou, surpreendentemente, superior ao material original. Adicionalmente, a aura de mistério em torno da autora napolitana, cuja identidade permanece desconhecida, acrescenta um fascínio adicional à experiência de leitura deste livro, que se sustenta por seus próprios méritos.
Elena Ferrante é nossa cicerone pela Itália do século XX, explorando as intricadas relações humanas entre mudanças políticas e sociais da época. A ambientação histórica é rica em detalhes, com as tensões entre fascistas e comunistas, a influência da Camorra e os cenários idílicos de Ischia contrastando com a imponência do Vesúvio, fornecendo um pano de fundo dinâmico e envolvente para a narrativa.
A narrativa se desenrola em dualidade, refletindo não apenas as contradições da sociedade italiana da época, mas também as complexidades das relações humanas. A marca indelével da infância é um tema recorrente, adicionando uma camada de profundidade emocional à obra. Ferrante captura magistralmente a nostalgia do tempo passado e dos momentos perdidos, bem como as inquietações e desejos que moldam a personalidade de seus personagens.
O livro é construído sobre um discurso direto livre distintivo e irrepreensível, revelando-se como um fluxo de consciência à la Woolf que Ferrante domina com maestria. Os diálogos curtos e cortantes estão repletos de silêncios, transmitindo não apenas o que é dito, mas também o que não é dito. As personagens, especialmente Lenù e Lila, são construídas com uma complexidade cativante, refletindo os contrastes e as dualidades que permeiam suas vidas.
‘História de quem vai e de quem fica’ transcende os limites da narrativa literária, oferecendo uma experiência de leitura imersiva e emocionante. Embora a série televisiva tenha seus méritos, o livro destaca-se por sua escrita habilidosa e pela capacidade de Ferrante de capturar a essência da vida e das relações humanas com uma honestidade e profundidade impressionantes. Esta é uma leitura indispensável para os fãs da série napolitana e para qualquer leitor que aprecie uma narrativa complexa e introspectiva.
