#geraçãodeleitores O Estrangeiro — Albert Camus

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A cortar a fita vermelha da nossa viçosa rubrica #geraçãodeleitores, que abre a porta a outras perspectivas literárias de convidados das gerações mais jovens, está Catarina, designer visual de 28 anos vivendo actualmente em Bruxelas, na Bélgica.

Portuense de gema, amante de ilustração, cinema e literatura, sempre sonhou vir a ser devoradora de queijo profissional. Desde cedo, impulsionada pelo seu pai, descobriu as intrigantes narrativas de autores do além-mar, entre eles de entusiasmantes autores como Albert Camus: o escritor franco-argelino que tem formado gerações de leitores atentos e pensantes.

Deixemos o brilhante laureado Nobel que cimentou o absurdismo na filosofia e na literatura ser o nosso maître de cérémonie da rúbrica #geraçãodeleitores!



Será Mersault julgado por matar um árabe ou será ele julgado e condenado por não ter chorado no funeral da sua mãe?

O que parece ao leitor um capítulo de frívola desimportância narrativa, vem a revelar-se a chave para a compreensão do desfecho trágico da personagem. Apresentado ao tribunal como um Monstro que demonstra sinais nítidos de insensibilidade, Mersault – assim apresentado por Camus – vive o episódio da morte da mãe com aparente displicência. Apresenta-se em frente ao caixão sem emoção e bebe tranquilamente um café com leite. Apresenta-se atrasado no desfile fúnebre sendo a sua única inquietação o calor insuportável que se faz sentir durante esse mês.

A frase emblemática do livro “A culpa deve ser do Sol” – dita por Mersault em tribunal durante o seu julgamento – não se perde nunca da memória de quem o lê.

Em O Estrangeiro, o leitor experimenta a metáfora do absurdo e o misantropismo, um magnum opus do aclamado escritor prémio Nobel de Literatura, Albert Camus, que morre tragicamente em 1960 num acidente de automóvel com o sobrinho do editor Gallimard. 

Talvez todos sejamos um pouco ‘Estrangeiros’ neste mundo cada vez mais impessoal e cruel.



O Estrangeiro [L’étranger]. 88 pág. 1942

Livro editado pelas Éditions Gallimard em França e pela Livros do Brasil em Portugal.

* Esta opinião faz parte da rubrica #geraçãodeleitores.

Metamorfose — Franz Kafka

crítica

Carapaças Sociais

Um certo dia, o diligente trabalhador e exemplar cidadão Gregor Samsa acorda subitamente de um estranho sonho para uma realidade mais estranha ainda. Deixemo-nos ambientar pela escrita do próprio autor, que nos presenteia com uma das citações iniciais mais célebres da literatura universal:

“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto”


O ambiente absurdo e aterrador está montado: este inocente jovem adulto vê-se, de um dia para o outro, encapsulado numa medonha carapaça de insecto sem ter tido no incidente qualquer influência ou responsabilidade imputável. O sentimento de impotência e alienação na sociedade moderna, de base individualista e capitalista, é um tema caro a Franz Kafka, criado no Império Austro-Húngaro do virar do século XX. A título de curiosidade, Kafka, inseguro das suas criações, pedira a um amigo próximo para queimar todos os seus escritos após o seu óbito, ordem que foi felizmente ignorada pelo receptor que permitiu assim aos leitores desde há um século descobrir a obra do autor germânico. O conceito “kafkaesco” – ele mesmo -, não teria sido criado, ilustrando tão marcadamente o labirinto da burocracia (‘O Castelo’), a impotência do homem singular perante o sistema (‘O Processo’) e a alienação social. 

Colocando a novela em contexto, escrita em 1912 e publicada volvidos três anos, é possível traçar uma causalidade com os efeitos da Revolução Industrial que pulsou a toda a força no século anterior. As condições de vida e laborais precárias nas fábricas e comércio, a conquista da ciência sobre os dogmas religiosos, o sentimento nacionalista, as conquistas coloniais e imperiais das nações europeias, a desconfiança pelo outro e pelas nações estrangeiras, vistas como rivais e que culminariam aliás na primeira grande guerra à escala global, são factores que ajudam a compreender a concepção deste curto livro (lido de um trago, num só dia).

Sem qualquer preâmbulo ou demora, o nosso protagonista é inocentemente encarcerado no corpo de ‘uma besta’, um “monstruoso insecto”. É levantada então a milenar questão que remonta à antiguidade clássica da dualidade do corpo-alma, ser que sente-ser pensante. Gregor, apesar da sua incapacidade de comunicar e inadaptado ao seu novo corpo, mantém a mesma acuidade mental, raciocínio, desejos e sentimentos. Perplexa com a trágica metamorfose física e morfológica, espelhada na transformação em insecto, a família, constituída pelos pais ociosos e a irmã carinhosa, dá lugar à metamorfose da sua própria estrutura familiar, espelhada pelo seu distanciamento e até repugnância. Após ter sustentado a título exclusivo a sua família com um emprego como vendedor ambulante que lhe era desmotivador, Gregor é imediatamente sacudido como uma mosca parasitária (shoo, shoo!), apartado e trancado no seu quarto. Os três familiares saem finalmente da dependência financeira e voltam a ser produtivos, ignorando todos os esforços do comerciante nos últimos anos. *Spoiler que não é decerto uma novidade: Gregor acaba por definhar no seu quarto após lesões que sofre ao ser enxotado pelo seu pai e morre solitário. Claramente, o título não é escolhido ao acaso. Incita à questão sobre qual será a verdadeira metamorfose. A biologicamente descrita e acidental transformação zoófila de humano para insecto? Ou por outro lado, a alteração dos comportamentos sociais, personalizados pela família de Gregor? Na sua análise à obra, o autor russo Vladimir Nabokov (‘Lolita’) notou que:

“Gregor é um ser humano disfarçado de insecto; a sua família insectos disfarçados de pessoas”.

— Vladimir Nabokov

Toda a trama é outrossim uma crítica à organização da sociedade moderna, dando clara primazia à produtividade e à optimização: produzir mais por menos, sem ser dada importância ao desenvolvimento pessoal. O papel do trabalho é também questionado a par com a compaixão. Gregor, consistentemente cumpridor sem nunca na sua vida profissional ter deixado o alarme tocar sem se levantar para ir trabalhar, vê-se impossibilitado de o fazer pela primeira vez. Mais do que a sua condição desumana, importa cumprir com as responsabilidades. Esta inquietação é, de maneira irónica, expressada nos seus pensamentos como fulcral. Bem presente quando Gregor, na profética manhã da metamorfose, testa as águas para ver se consegue apressar-se para o comboio, apresentar-se ao trabalho para cumprir com as suas obrigações, minimizar os constrangimentos que certamente causara aos seus superiores:

“Se eles se assustassem, Gregor não teria mais responsabilidades e poderia descansar em paz. Mas se eles levassem tudo com calma, ele também não tinha motivos para se empolgar e, se ele se apressasse, poderia estar às oito horas na estação.”


Dependendo da reacção alheia, Gregor iria definir o seu curso de acção. Esta curta novela tem ainda espaço para explorar a projecção do eu, pelos outros e consequentemente pelo próprio, sendo que essa receptividade tem o poder de influenciar os nossos actos. Kafka reflecte sobre a importância dada à percepção do outro, ao que os outros pensam. Uma reflexão que nunca teve tanta relevância como agora, na era das redes sociais e da iminente necessidade de aprovação e aceitação social.

Assim, o sentimento de alienação é brilhantemente transmitido através desta parábola de transformação animalesca. A mutação para um insecto acaba por ser uma alegoria aos acontecimentos imprevistos e aos infortúnios que podemos ver ocorrer nas nossas vidas e como cada um e a sociedade em volta recebe tal acontecimento. Mais profundamente ainda, é possível comparar com incapacidade, com as doenças mentais e demências ou o envelhecimento do qual nenhum de nós poderá escapar. Kafka alerta-nos para a ameaça da falta de empatia e a falta de humanização, desumanizando.


4.3

Rating: 4.5 out of 5.


Metamorfose (1915)

[Die Verwandlung], 80 pág, Editores BIS / 11×17 / Editorial Presença

Manifesto Anti-Dantas e por Extenso — José de Almada Negreiros

crítica

Bofetada ao marasmo

A liberdade criativa da Arte simbolizada num Manifesto que não poupa em nenhuma injúria ou salutar bofetada para despertar um País do seu marasmo político, social, literário e cultural.

Almada Negreiros, com um tom mordaz, pilhérico, burlesco, alveja Júlio Dantas e toda a sua geração acomodada e “de descendência linfática”, alertando para a hipocrisia de uma geração de intelectuais desperdiçada em pleno clima europeu futurista e de regeneração artística.

O seu desígnio não poderia ter melhor clarificação que o exposto na própria publicação:

“Almada é a trombeta do cortejo. Salta à frente, com este estridente manifesto literário, em que o escândalo rebenta por todas as linhas, salta à frente com teatralidade dos seus gestos, dos seus gritos e dos seus atentados ao gosto e aos hábitos do senhor-toda-a-gente, hábitos de trajar, de pensar, de fazer versos, de ser funcionário público e de ter descendência linfática.”


Lido por Mário Viegas

Assim, ‘Pim!’ talvez Portugal se desperte da sua longa modorra e deixe de valorizar “caducos literatos de graves ademanes senis e de frases brunidas, medidas pelo diapasão dos clássicos que o tempo ressequiu, foram considerados os templos da Literatura e da Arte consagrada e definitiva”.

Manifesto por extenso – e por MAIÚSCULAS-, de uma ousadia sem precedente, entreposto no movimento modernista e reformador de Orpheu, que indubitavelmente deixou a sua marca indelével na cultura portuguesa.

— Recensão composta por ocasião da celebração dos cinquenta anos da morte de José de Almada Negreiros (1970-2020) —

“UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D’INDIGENTES, D’INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PÓDE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!”


4

Rating: 4 out of 5.


Manifesto Anti-Dantas e por Extenso

128 pág., Assírio e Alvim