A Conquista da Felicidade — Bertrand Russell

crítica

Auto-avaliação do homem feliz

Uma lição de humildade e acima de tudo de humanidade. Um guia que põe em prática a máxima cogito ergo sum. Confere um olhar curioso ao advento do século XX, expondo relações com uma maior proximidade temporal e por isso relevância de conteúdo para a época, tecendo comparações e análises de processos, técnicas e mudanças tecnológicas que por serem tão obsoletas nos dias de hoje e no ritmo avassalador com que as inovações nos são apresentadas, perderam a sua novidade mas nunca a importância.

Levar uma vida com ausência de problemas e perturbação é virtualmente impossível, porém o segredo parece residir em gerir a infelicidade e levar uma vida tranquila. Que o diga Bertrand Russell que parece ter encontrado o elixir para a longevidade, tendo vivido até ao pico dos seus 97 anos mantendo a sua sagacidade e lucidez. Um pensador da alta aristocracia britânica do virar do século XIX, seria de crer que todos os seus problemas estariam à partida mitigados. Mas tal não poderia estar mais distante da verdade. Russell lidou ele mesmo com problemas como todos os humanos, incluindo a vulgar infelicidade do dia-a-dia que teima em assombrar a civilização moderna.

Pessoalmente, não deveria ter estendido a leitura por um quase trimestre, este escrito deve ser lido no decurso de algumas semanas. A parte concernente às causas da infelicidade está, a meu ver, melhor exposta e construída e revela-se no fim de contas a principal distinção desta tese de Bertrand Russell. A estrutura da obra é dual: o autor divide a obra numa dicotomia (in)-felicidade, procurando encontrar as causas e factores que potenciam a permanência para ambas.

Esta dissertação toca sentimentos e estados de espírito tão ubíquos como a competição, o aborrecimento, a fadiga, a inveja, o sentimento de culpa, a sensação de perseguição e o medo da opinião alheia ou pública, assim como bases para a felicidade generalizadamente aceites como a estrutura da família e a afeição, o realização pessoal no trabalho, os interesses impessoais vulgo hobbies, o esforço e a resignação e sem esquecer o trivial gosto de viver.

Ler um escrito tão lúcido e vigente como ‘A Conquista da Felicidade‘ vem corroborar a ideia de que só uma análise distanciada nos permite estudar de onde vimos e perspectivar para onde vamos. A história repete-se e o homem é intrinsecamente… humano. O mais impressionante e até alarmante é o facto de estas inquietações transparecerem quase um centenário mais tarde. Este livro curto e relevante é essencialmente um guia para reflectir e, munidos da razão, hábitos sadios, interesses pessoais e afeições, conquistarmos a felicidade.


4.2

Rating: 4 out of 5.

A Conquista da Felicidade (1930)

184 pág., Relógio d’Água