O Futuro que Escolhermos — Christiana Figueres, Tom Rivett-Carnac

crítica

Regeneração, com optimismo e teimosia

“The Future We Choose” (O futuro que escolhermos) apresenta-se como um livro essencial para a tomada de ação face à crise climática, que imprime logo nas primeiras páginas o sentido de urgência, contrabalanceado pelo optimismo que caracteriza os autores. Figueres foi secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas e Rivett-Carnac consultor em políticas de alterações climáticas, tendo ambos fundado a organização Global Optimism e participado no leme das negociações do Acordo de Paris na conhecida COP 21 em 2015, decisivas para a democracia ambiental e descritas ao longo da obra.

A princípio, o livro assemelha-se a “Uma vida no nosso planeta” de Sir David Attenborough, fornecendo cenários alternativos para a vida na Terra até ao final do século XXI. A primeira parte, denominada deveras “Dois Mundos”, introduz hipóteses para o aumento da temperatura global a 1.5ºC, 2ºC e 3ºC, sustentadas em ciência climática, contudo apocalípticas. A leitura do segundo capítulo, “O mundo que estamos a criar”, revela-se particularmente marcante pela transposição desta realidade apavorante e não tão utópica em diversos sistemas da vida no planeta.

Na apresentação do estado da arte climático, são abordados conceitos como holoceno e antropoceno, pergelissolo, roadmap exponencial, ponto de viragem (tipping point), desflorestação, rewilding, ou perda de biodiversidade. Após esta tomada de consciência que desperta no leitor um estado de alarme e, paralelamente, de letargia pela aparente impotência das nossas ações, Figueres e Rivett-Carnac listam uma série de hábitos e mudanças, a saber: libertar-se do velho mundo; enfrentar o desgosto com visão de futuro; defender a verdade; ser cidadão, não consumidor; abandonar os combustíveis fósseis; reflorestar a Terra; investir numa economia limpa; usar a tecnologia de forma responsável; construir a igualdade de género e envolver-se na política. 

Este conjunto de propostas relevantes que tornam este livro primeiramente teórico numa ferramenta acionável, são sem embargo repetidas em circuito fechado na conclusão: participar politicamente, plantar árvores e reduzir emissões variadas vezes, carecendo de aprofundamento e aglutinação com a demais narrativa.

Para lidar com o estado alarmante em que irrefutavelmente nos encontramos, os autores sugerem posicionamentos a adoptar quotidianamente ou “quadros mentais”: optimismo teimoso, abundância infindável e regeneração radical. Através de casos concretos, como Siddharta Gautama, políticas públicas na Califórnia de aquisição de energia proveniente de fontes “limpas” ou na Costa Rica de preservação da natureza, as rondas de negociações na COP 21 ou exemplos de modelos de coabitação regenerativa na Escócia ou no Japão, somos desafiados a olhar o problema quase incomensurável por estes prismas ou quadros, conducentes ao mundo que precisamos ou pretendemos edificar. No final do dia, o futuro que nós, individual e colectivamente por agregação, escolhermos.



Rating: 3 out of 5.

3.9

O Futuro que Escolhermos (2020) [The future we choose]. Temas e Debates. 236 pág.