Neste segundo episódio #geraçãodeleitores, convidámos o nosso caro amigo Afonso, vencedor consagrado de inúmeros Movembers, data scientist fã de esmiuçar as margens dos retalhistas em busca do melhor desconto, sportinguista incurável e deslumbrado pela poesia de Daniel Faria e Pessoa.
Apresenta-nos Afonso Cruz, um one-man band, que toca literalmente em quase todos os ofícios artísticos durante a sua carreira: escritor, ilustrador, realizador, músico. Conhecido pelas suas alegorias e memoráveis aforismos, é sem dúvida um autor a ter debaixo de olho e na senda de prestigiados prémios em nome da literatura portuguesa e lusófona.
Quando começam as nossas histórias? Esta é mais uma das perguntas inquietantes que Afonso Cruz nos coloca na comovente carta que um pai escreve à sua filha, onde lhe conta as suas origens e o que foi aprendendo ao longo da vida, entre lições e arrependimentos.
Narrado na primeira pessoa e carregado de intimidade, este livro fala-nos da importância de valorizarmos o que nos rodeia, desde a família aos amigos, de nos mostramos disponíveis e abertos para o mundo, para o amor ao próximo (física ou emocionalmente) e para o abstrato conceito da felicidade.
À semelhança de outras obras do escritor, Princípio de Karenina surge também como uma espécie de exame de consciência que, caso o permitamos, nos dá material suficiente para colocarmos a nossa própria vida em perspetiva.
Ao longo do seu trabalho literário, o autor defende que, mesmo que o não consigamos identificar, acontecimentos que possamos reconhecer como independentes uns dos outros se encontram unidos por fios. Numa escala menor, mas como forma de reforçar o seu argumento, Afonso cria ligações brilhantes entre os seus livros de modo a tornar as suas próprias narrativas mais realistas, característica que reforça este convite do escritor à introspecção.
Ao tentar responder à questão que inicia este comentário, este pai afirma que “Tudo começa a todo o instante (…) todos os lugares são centros e todos os instantes são começos”.
Da minha parte, apenas me resta dizer que nenhum instante é tarde para começar a ler Afonso Cruz.
A cortar a fita vermelha da nossa viçosa rubrica #geraçãodeleitores, que abre a porta a outras perspectivas literárias de convidados das gerações mais jovens, está Catarina, designer visual de 28 anos vivendo actualmente em Bruxelas, na Bélgica.
Portuense de gema, amante de ilustração, cinema e literatura, sempre sonhou vir a ser devoradora de queijo profissional. Desde cedo, impulsionada pelo seu pai, descobriu as intrigantes narrativas de autores do além-mar, entre eles de entusiasmantes autores como Albert Camus: o escritor franco-argelino que tem formado gerações de leitores atentos e pensantes.
Deixemos o brilhante laureado Nobel que cimentou o absurdismo na filosofia e na literatura ser o nosso maître de cérémonie da rúbrica #geraçãodeleitores!
Será Mersault julgado por matar um árabe ou será ele julgado e condenado por não ter chorado no funeral da sua mãe?
O que parece ao leitor um capítulo de frívola desimportância narrativa, vem a revelar-se a chave para a compreensão do desfecho trágico da personagem. Apresentado ao tribunal como um Monstro que demonstra sinais nítidos de insensibilidade, Mersault – assim apresentado por Camus – vive o episódio da morte da mãe com aparente displicência. Apresenta-se em frente ao caixão sem emoção e bebe tranquilamente um café com leite. Apresenta-se atrasado no desfile fúnebre sendo a sua única inquietação o calor insuportável que se faz sentir durante esse mês.
A frase emblemática do livro “A culpa deve ser do Sol” – dita por Mersault em tribunal durante o seu julgamento – não se perde nunca da memória de quem o lê.
Em O Estrangeiro, o leitor experimenta a metáfora do absurdo e o misantropismo, um magnum opus do aclamado escritor prémio Nobel de Literatura, Albert Camus, que morre tragicamente em 1960 num acidente de automóvel com o sobrinho do editor Gallimard.
Talvez todos sejamos um pouco ‘Estrangeiros’ neste mundo cada vez mais impessoal e cruel.
Após o aniquilador primeiro conflito à escala planetária ter deixado os seus efeitos de razia e destruição, que precedeu uma crise sem precedentes e um fenómeno meteorológico e geológico adverso, as sociedades mundiais e particularmente a americana nunca mais voltaram ao modo de vida a que se habituaram.
O livro escrito no período interbellum, entre as duas grandes guerras, olha para os efeitos de todos esses fenómenos que marcaram a atribulada primeira metade do século XX. Colocando a lupa sob o território norte-americano com um tom realista e ríspido, o laureado Nobel John Steinbeck deixa como legado um testemunho histórico com estes acontecimentos ainda frescos, sem necessitar de olhar demasiado em retrospectiva.
Antes da destruição que teria lugar no Velho Continente daí a poucos meses depois da sua publicação, o autor mostrou a realidade do seu país, pujante e esperançoso Estados Unidos da América. Nos anos 1930, dezenas de milhares de famílias americanas viram-se forçadas a deixar quase todo o património e arrancar rumo ao desconhecido: a prometida terra fértil da Califórnia.
Neste livro, Steinbeck consegue com a sua escrita simples e incisiva esboçar um relato simultaneamente lírico e cru dos efeitos devastadores da Grande Depressão agravada pelo fenómeno ímpar do Dust Bowl, levado pela seca extrema, ventos fortes, empobrecimento do solo e agricultura intensiva. Com a idealização dos Joad, uma família famigerada na literatura mundial que irá sofrer todas as privações e mais algumas na sua deslocação do Oklahoma rural para a Califórnia pulsante, o autor sabe como não deixar o leitor indiferente. Como a comunidade e a sociedade em redor, todo e cada um sairá da vivência de crise simultaneamente dilacerado e mais forte.
Concluindo, é estupendo como a prosa poética de Steinbeck com uma dose de vernáculo e slang do Southwest americano à mistura enriquece enormemente a crónica do êxodo familiar dos Joad, tornando-a familiar e autêntica. ‘As Vinhas da Ira’ [The Grapes of Wrath] (também adaptado ao cinema logo no ano seguinte à publicação pelo oscarizado John Ford, com Henry Fonda como Tom Joad) é um testemunho realista desses “calos” que ficam para a vida. Um livro que toca na ferida e deixa-a cicatrizar.
Um certo dia, o diligente trabalhador e exemplar cidadão Gregor Samsa acorda subitamente de um estranho sonho para uma realidade mais estranha ainda. Deixemo-nos ambientar pela escrita do próprio autor, que nos presenteia com uma das citações iniciais mais célebres da literatura universal:
“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto”
O ambiente absurdo e aterrador está montado: este inocente jovem adulto vê-se, de um dia para o outro, encapsulado numa medonha carapaça de insecto sem ter tido no incidente qualquer influência ou responsabilidade imputável. O sentimento de impotência e alienação na sociedade moderna, de base individualista e capitalista, é um tema caro a Franz Kafka, criado no Império Austro-Húngaro do virar do século XX. A título de curiosidade, Kafka, inseguro das suas criações, pedira a um amigo próximo para queimar todos os seus escritos após o seu óbito, ordem que foi felizmente ignorada pelo receptor que permitiu assim aos leitores desde há um século descobrir a obra do autor germânico. O conceito “kafkaesco” – ele mesmo -, não teria sido criado, ilustrando tão marcadamente o labirinto da burocracia (‘O Castelo’), a impotência do homem singular perante o sistema (‘O Processo’) e a alienação social.
Colocando a novela em contexto, escrita em 1912 e publicada volvidos três anos, é possível traçar uma causalidade com os efeitos da Revolução Industrial que pulsou a toda a força no século anterior. As condições de vida e laborais precárias nas fábricas e comércio, a conquista da ciência sobre os dogmas religiosos, o sentimento nacionalista, as conquistas coloniais e imperiais das nações europeias, a desconfiança pelo outro e pelas nações estrangeiras, vistas como rivais e que culminariam aliás na primeira grande guerra à escala global, são factores que ajudam a compreender a concepção deste curto livro (lido de um trago, num só dia).
Sem qualquer preâmbulo ou demora, o nosso protagonista é inocentemente encarcerado no corpo de ‘uma besta’, um “monstruoso insecto”. É levantada então a milenar questão que remonta à antiguidade clássica da dualidade do corpo-alma, ser que sente-ser pensante. Gregor, apesar da sua incapacidade de comunicar e inadaptado ao seu novo corpo, mantém a mesma acuidade mental, raciocínio, desejos e sentimentos. Perplexa com a trágica metamorfose física e morfológica, espelhada na transformação em insecto, a família, constituída pelos pais ociosos e a irmã carinhosa, dá lugar à metamorfose da sua própria estrutura familiar, espelhada pelo seu distanciamento e até repugnância. Após ter sustentado a título exclusivo a sua família com um emprego como vendedor ambulante que lhe era desmotivador, Gregor é imediatamente sacudido como uma mosca parasitária (shoo, shoo!), apartado e trancado no seu quarto. Os três familiares saem finalmente da dependência financeira e voltam a ser produtivos, ignorando todos os esforços do comerciante nos últimos anos. *Spoiler que não é decerto uma novidade: Gregor acaba por definhar no seu quarto após lesões que sofre ao ser enxotado pelo seu pai e morre solitário. Claramente, o título não é escolhido ao acaso. Incita à questão sobre qual será a verdadeira metamorfose. A biologicamente descrita e acidental transformação zoófila de humano para insecto? Ou por outro lado, a alteração dos comportamentos sociais, personalizados pela família de Gregor? Na sua análise à obra, o autor russo Vladimir Nabokov (‘Lolita’) notou que:
“Gregor é um ser humano disfarçado de insecto; a sua família insectos disfarçados de pessoas”.
— Vladimir Nabokov
Toda a trama é outrossim uma crítica à organização da sociedade moderna, dando clara primazia à produtividade e à optimização: produzir mais por menos, sem ser dada importância ao desenvolvimento pessoal. O papel do trabalho é também questionado a par com a compaixão. Gregor, consistentemente cumpridor sem nunca na sua vida profissional ter deixado o alarme tocar sem se levantar para ir trabalhar, vê-se impossibilitado de o fazer pela primeira vez. Mais do que a sua condição desumana, importa cumprir com as responsabilidades. Esta inquietação é, de maneira irónica, expressada nos seus pensamentos como fulcral. Bem presente quando Gregor, na profética manhã da metamorfose, testa as águas para ver se consegue apressar-se para o comboio, apresentar-se ao trabalho para cumprir com as suas obrigações, minimizar os constrangimentos que certamente causara aos seus superiores:
“Se eles se assustassem, Gregor não teria mais responsabilidades e poderia descansar em paz. Mas se eles levassem tudo com calma, ele também não tinha motivos para se empolgar e, se ele se apressasse, poderia estar às oito horas na estação.”
Dependendo da reacção alheia, Gregor iria definir o seu curso de acção. Esta curta novela tem ainda espaço para explorar a projecção do eu, pelos outros e consequentemente pelo próprio, sendo que essa receptividade tem o poder de influenciar os nossos actos. Kafka reflecte sobre a importância dada à percepção do outro, ao que os outros pensam. Uma reflexão que nunca teve tanta relevância como agora, na era das redes sociais e da iminente necessidade de aprovação e aceitação social.
Assim, o sentimento de alienação é brilhantemente transmitido através desta parábola de transformação animalesca. A mutação para um insecto acaba por ser uma alegoria aos acontecimentos imprevistos e aos infortúnios que podemos ver ocorrer nas nossas vidas e como cada um e a sociedade em volta recebe tal acontecimento. Mais profundamente ainda, é possível comparar com incapacidade, com as doenças mentais e demências ou o envelhecimento do qual nenhum de nós poderá escapar. Kafka alerta-nos para a ameaça da falta de empatia e a falta de humanização, desumanizando.
A diversidade étnica e racial norte-americana vista pelo olhar de uma criança, que naturalmente aceita essa diversidade. Um debate e processo criminal arcaicos, porém surpreendentemente ainda actual. Deixemo-nos guiar por este olhar respeitador da curiosa Scout (POV do romance) enquanto segue os passos do seu pai Atticus Finch, talvez o advogado mais célebre da literatura mundial.
“I think there is just one kind of folks. Folks.”
— Jean Louise “Scout” Finch
Seguramente, este é um dos livros no mundo mais dissecados para reflexão crítica, análise de temas e da moral e leitura semiótica. Tal deve-se ao facto de constituir parte da leitura obrigatória no currículo dos Estados Unidos da América, com infindos recursos interessantes disponíveis online. Que a sua disseminação em massa não seja um factor desencorajador da leitura. Pelo contrário, ao ser narrado sem preconceito permite-nos apreender as divisões sociais que precederam a Guerra Civil Americana e que moldaram a “Star-Spangled Banner”.
Aprecio um romance, peça ou filme no qual podemos vivenciar o crescimento de um personagem. Tenho esse particular agrado por reproduzir na arte o que acontece realmente. Não somos criaturas estanques e unidimensionais; somos organismos de tentativa-erro, aperfeiçoando-nos à medida que amadurecemos.
Na corrente realista, que procura espelhar o real tal qual ele é, o desenvolvimento dos personagens é, a meu entender, um requisito fundamental que Eça cumpre com exímia maestria. Este amadurecimento alicerçado em valores está particularmente patente no esboçar do protagonista Gonçalo Mendes Ramires. A sua personalidade bondosa, encantadora, cândida, porém também temerosa e procrastinadora está bem apurada e talvez seja o herói melhor construída do universo queirosiano. O ‘Fidalgo da Torre’ cresce ao longo da narrativa através do seu carácter, aspirações, inteligência emocional e bolina com natural ondulação pela vida aristocrática do virar do século XIX.
José Maria Eça de Queirós dispensa apresentações no mundo lusófono e além fronteiras. Pessoalmente, os seus livros sempre proporcionam um prazer de leitura incomparável pela ironia cómica e pelo domínio da língua portuguesa. À escala literária mundial, encabeça a lista dos mais proeminentes escritores realistas do século XIX. Nesse índice, é acompanhado pelo também lusófono Machado de Assis e os universais Fiódor Dostóievski, Leo Tolstói, Anton Chekhov, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert, e Mark Twain, por exemplo. Curiosamente, uma grande parte constitui também a minha lista de autores predilectos. Tal poderá ser indicador do meu fascínio por esta corrente literária e artística que, erigida sobre o romantismo, quebrou com preceitos tradicionais na arte, bem como na sociedade.
Este ‘A Ilustre Casa de Ramires’, póstumo e não integralmente revisto pelo autor, insere-se na sua terceira e última fase literária, descrita pelos especialistas queirosianos como uma fase mais conciliadora. A terceira fase mantém a crítica social que está patente em toda a sua obra, contudo relaxa um pouco o carácter pessimista, envergando até por um tom panglossiano e optimista, de regeneração. Assim, Eça cria a vetusta família Ramires e a sua ilustre casa vigilada pela antiquíssima Torre, cujas pedras testemunharam até os confrontos Afonsinos, para mostrar que a honra e glória da Nação pode sempre perseverar, ainda que com outros contornos.
Este é um romance tripartido, notavelmente composto num paralelismo entre três diferentes planos: i) a narração da passagem da vida adulta de Gonçalo desde a vinda de Coimbra até à ida para África; ii) o plano histórico, onde é traçada a efígie de Portugal nos últimos anos da monarquia e do seu declínio; e iii) o conto sobre as bravuras da família Ramires escrito por Gonçalo como aproveitamento político e baseado num poemeto de um tio. Apesar de nos entreter e deleitar com a sua escrita requintada por horas, o plano narrativo da composição da novela histórica “A Torre de D. Ramires” relatando as aventuras do antepassado Tructesindo é uma parte um tanto enfadonha da obra. O narrador omnisciente evidencia técnicas modernas de ponto de vista (POV). Este instrumento literário inovador para o seu tempo é notadamente marcado quando o narrador passa de seguir o protagonista quando tem a sua reunião privada com o governador civil André Cavaleiro. É nos dada a percepção dos voyeurs, os restantes habitantes da vila que estacadamente assistem ao reencontro improvável dos dois amigos outrora de costas voltadas, observando como de gelosia através de janelas e reposteiros apenas os gestos, os bafos dos charutos e as salutares palmadas nas costas.
O livro está recheado de momentos hilariantes de paródia com os costumes portugueses, a escrita mordaz e as interações sociais retratadas. Exemplos que decerto irei recordar são: o episódio bastante chistoso da comparação de Gonçalo com a parábola do Bom Samaritano quando caminha a lado de um lavrador montado na sua égua; toda a descrição da ascensão de Gonçalo a distinto deputado nas Cortes, as “ensebadas cadeiras de S. Bento”, ainda que lhe custe a honra e abra uma fenda na Palavra dos vetustos Ramires; o episódio hilário que versa sobre o romance proibido da sua irmã com o simultâneo amigo e arqui-inimigo Cavaleiro; assim como o episódio climáxico das chicotadas com o esplêndido e ‘antiqüissimo’ chicote achado pelo leal Bento, um dos aios que mantém o requinte da quinta de Santa Ireneia.
Assinalo também o enlevo de Eça por um bom ‘escandalozinho’ de alcova e por paixões escondidas, quer no caso mirado no mirante da sua irmã Gracinha, quer na tentativa de conquistar a recém viúva nova-rica D. Ana, uma Vénus sem etiqueta, porém com duzentos contos de renda, apenas para descobrir pelo seu primo Titó acerca das suas infidelidades ainda quando o cadáver do seu marido Sanches Lucena arrefecia. Será este tema recorrente na literatura romântica e realista uma prova do carácter adúltero dos portugueses ou da sociedade de então?
“Não compreendem… Vocês não conhecem a organização de Portugal. Perguntem aí ao Gouveia… Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria.”
Em destaque, o pormenor da classe social de cada interveniente indicada pelo meio de locomoção, seja montado numa égua ou a cavalo, (destaque para os cavalos impecavelmente tratados do cunhado Barrolo que “nem uma gota transpiram”), numa tipóia ou caleche, ou então as longas caminhadas a pé para as classes mais desfavorecidas. Vemos o exemplo da esposa do Casco, um humilde lavrador que vê o seu contrato verbal com Gonçalo desonrado, que carrega estrada fora o filho enfermo pela mão e a bebé que amamenta ao colo. A atitude abnegada de Gonçalo, aconchegando o pequeno nos melhores tecidos do casarão e velado pelos austeros retratos dos antepassados Mendes Ramires, embora sincera e desinteressada, é percebida pelo mesmo como falsa aquando da sua eleição como deputado. É também um símbolo da mudança de paradigmas na sociedade, mais igualitária nos direitos e nos costumes e expressando a aproximação a um sistema político republicano e representativo. O protagonista é comparado com Portugal, quiçá numa das suas épocas mais frágeis política e socialmente, após o sentimento de derrota nacional e quase traição com o Ultimato inglês e a ameaça de rasgar o Tratado de Windsor, o mais antigo acordo entre dois estados soberanos. Em baixo, o excerto antológico do romance que evidencia a metáfora:
“– Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o senhor Padre Soeiro quem ele me lembra?
– Quem?
– Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor Padre Soeiro… Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia. A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, sentimentos de multa honra, uns escrúpulos quase pueris, não verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar até mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre alento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão pairador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha torre, há mil anos… Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
– Quem?…
– Portugal. ”
Gonçalo Mendes Ramires – mais do que uma mera representação estereotipada e delimitada nas linhas do convencionalismo – descende da aristocracia cuja antiguidade precede a própria nacionalidade e forjou o milenário brasão de armas do reino de Portugal. Todavia, o Fidalgo não esconde as suas hesitações, os seus desejos, as suas preguiças, defeitos e virtudes, expressados quer pelos seus actos, como pelas suas inércias. O casting do aristocrata fora certeiro, visto representar em si mesmo Portugal no final do século das revoluções.
Concluindo, ao longo do romance, o tom irónico e de paródia valoriza muito a leitura que trota pela paisagem bucólica do Norte de Portugal, envolta em natureza empedernida e história. A Ilustre Casa de Ramires talvez seja o romance queirosiano mais maduro e uma das obras realistas que mais me deleitou: pela construção dos personagens e pela tomada das suas atitudes, de acordo com a consciência moral de cada um.
Nunca uma obra me tinha transmitido com tanto realismo a sensação de miséria e negligência social. De igual modo, a ética e a moral não haviam antes sido questionadas de forma tão acutilante. Saberemos nós distinguir o certo do errado? A quem cabe julgar os nossos pensamentos? E os nosso actos?
Dostóievski propõe esta reflexão como ninguém, constantemente suscitando a dúvida e empurrando o leitor para um inefável encurralamento ao lado do inesquecível protagonista. ‘Crime e Castigo’, impecavelmente edificado sob o triângulo da retórica (ethos, pathos e logos) é sobretudo um ensaio à ‘vontade humana‘ e perscruta o que nos motiva, o que nos causa repulsa, igualmente o que nos assusta e o que nos fascina.
Rodion Raskolnikov (Ródia para os mais íntimos) é um amigo que queremos ver vingar na vida. O seu nome de família significa cisma em russo, que é patente nas suas crenças, principalmente no que toca à distanciação religiosa, a falta de fé e a busca por equidade social a qualquer custo. O cisma é em última instância explorado na teoria que Rodion cria acerca da existência de homens superiores na sociedade, cujos possíveis crimes para construir uma causa maior deveriam ser compreendidos e absolvidos. Através do exímio desenvolvimento da personagem, o recém criminoso torna-se nosso aliado. Torcemos por ele, entendemos a sua vontade e sentimos a sua dor. Dostoievski desperta um dos sentimentos mais complexos de transmitir em literatura por um personagem: a empatia.
Assim, Ródia é o nosso ethos, na medida em que constrói a sua credibilidade e nos inspira confiança devido ao seu intelecto e sensibilidade admiráveis. A par do corolário da tese de “selecção natural” humana, Dostóievski tem a mestria de nos levar a questionar a própria moral humana. Talvez “eliminar um parasita” como a velha agiota não seja assim tão imoral e até recomendável. Porém numa sociedade de direito, nenhum homem sozinho deve vestir a toga e julgar ter o poder de fazer justiça pelas próprias mãos. Os personagens secundários não são menos relevantes.
Compondo o pathos está o grupo desuniforme composto pela família de Ródia – o núcleo nevrálgico feminino da mãe e irmã – o cândido Razumikhin, o dipsomaníaco Marmaledov e a sua obstinada esposa Katerina Ivanovna, e o determinado Svidrigáilov compõem um bando que concomitantemente constrói o pathos. Estes despertam no nosso herói o seu lado emocional e os valores da família, amizade, camaradagem que não pode nunca ser dissociado da carapaça que fez crescer para lidar com a sociedade hostil que o rodeia. Por fim, o logos é nos apresentado pela afeição da devota Sónia e a sua compaixão através de palavras e gestos meigos, assim como a redenção possível na sua conversa com Porfíri.
Sob um olhar de vívido realismo, Dostoiévski percorre a Rússia dos czares como uma aguarela triste de Turner, atravessando pontes de um S. Petersburgo decadente e paradoxalmente sumptuoso cujo Ródia observa dolorosamente. Para além da questão fundamental na moralidade de um crime, ‘Crime e Castigo‘ questiona o sistema social por classes do Império corrompido e as motivações do povo que vive entorpecido na sua miséria.
Acima de tudo, através desta obra-prima incontornável do final do século XIX, temos acesso privilegiado e sem precedentes à psique humana.
O livro que me introduziu a Vargas Llosa e que revelou ser uma escolha na mouche.
‘A Tia Júlia e o Escrevedor‘ é uma homenagem à cultura latinoamericana, às novelas e em particular radionovelas, contando histórias fantásticas e que exacerbam o quotidiano peruano. Foi recompensador explorar as ruas de Lima, o bairro de Miraflores, o Perú mais rural e de herança inca e toda a sua cultura e costumes.
É também autobiográfico, onde o autor não resvala para o sentimentalismo, mas retrata com idónea representação a relação entre tia e sobrinho, comicamente entrelaçando-a com o enredo das sucessivas novelas que Pedro Camacho digitava apressadamente na sua máquina de escrever. Esta inesquecível personagem leva o romance mais alto e resulta como fio que ata e une todo o enredo.
Uma leitura leve, cómica e culturalmente rica que oferece uma antevisão à restante “emissão” criativa de Vargas Llosa. Decerto não perderei os próximos episódios na sua escrita sublime e “perspicaz cartografia do poder” (Academia Nobel).
Inovador, irreverente, vanguardista. Uma lufada de ar fresco na literatura mundial.
‘Se numa noite de inverno um viajante‘, de título inusitado, celebra a arte da leitura, os hábitos e costumes de ser leitor, tecendo também críticas aos “ilustres” académicos e autoproclamados intelectuais que estragam o simples e natural acto de ler, bem como os editores que o tornam num negócio fortuito que valoriza a quantidade sobre a qualidade literária.
Italo Calvino configura-se um mestre contador de histórias, uma vez que a maioria dos contos inacabados suscitaram em mim, leitor, bastante interesse de as continuar, assim como ao Leitor. Fomos assim manipulados, tal como o Autor previra.
” Não que estejas à espera de alguma coisa de especial deste livro em especial. És um daqueles que por princípio não espera mais nada de nada. Há tanta gente, mais jovem do que tu ou menos jovem, que vive na expectativa de experiências extraordinárias; daquilo que o dia de amanhã lhes reserva. Tu não. Tu sabes que o melhor que se pode esperar é evitar o pior.
” Vamos ver. Talvez a princípio te sintas um pouco desorientado (…) Mas depois prossegues e dás-te conta de que o livro se deixa ler apesar de tudo, independentemente daquilo que esperavas do autor. Pensando bem até preferes que seja assim, encontrares-te perante qualquer coisa que ainda não sabes bem o que é.
Mais uma excelente obra de um dos maiores realistas da literatura mundial. Eça surpreende perpetuamente engendrando episódios, criando personagens de imenso humor representativos da sociedade, recheando as páginas de ironia inteligentíssima, deleitando-nos com os seus inúmeros e eruditos vocábulos, pormenores que não poupam adjectivo e que adornam a sua prosa com figuras de estilo: metáforas, aliterações, perífrases, hipérboles, personificações.
A trama é dividida em três partes.
A primeira introduz-nos a Teodorico Raposo, aos seus antepassados, ao seu destino de menino órfão entregue a uma abastada e hedionda tia a quem é ensinado a tratar como “titi” desde que começa a falar, passando pela sua educação e desenvolvimento pessoal. Os traços de carácter embusteiro e ganancioso são nos evidenciados nesta fase de juventude de “Raposão”, como aliás era conhecido o protagonista em Coimbra. Certa noite, Teodorico é iluminado por uma brilhante ideia: há que teatralizar toda a sua devoção católica e religiosidade para enganar a “titi” e deitar a mão à incomensurável fortuna herdada de G. Godinho, competindo assim com os párocos que se rodeavam da tia a fim de se constituírem herdeiros. Para finalizar o acto, Teodorico propõe uma peregrinação religiosa a Jerusalém de onde resultará uma relíquia para a sua venerável tia que havia de ser falada por toda a Lisboa.
Em seguida, somos guiados pela quase epopeia de Teodorico ao Oriente e à Terra Santa, acompanhado do douto alemão Topsius e o prestável Potte. Com uma descrição tão viva e detalhada, Eça espelha nesta parte as novas correntes literárias do Realismo e Naturalismo que rompem com o Romantismo que até então vigorava em Portugal e na Europa. A crueza das coisas e dos lugares é nos exposta com pormenor, onde não cabem embelezamentos nem eufemismos românticos. No entanto, com bastantes referências históricas, bíblicas e geográficas, esta parte é um tanto maçadora para quem não está familiarizado com as mesmas, todavia interessante e um reflexo da vasta intelectualidade de Eça de Queiroz.
Por fim, a terceira e última parte diz respeito ao regresso de Teodorico da Palestina, o reencontro com a detestável Srª Dª Patrocínio das Neves (note-se o apelido da senhora não elegido ao acaso) e com a sua comitiva interesseira, o momento clímax de desvendar a relíquia e o destino que se lhe segue, com reflexões de Teodorico sobre o seu passado errante e uma conversa sublime com a sua consciência.
No que toca à narração, esta é nos contada na primeira pessoa pelo protagonista que acompanhamos desde o nascimento e por quem torcemos, embora seja transparente a sua má indole e falta de moral. Torcemos pelo “Raposão” pois é-nos evidente a decrepitude de quem o rodeia e o ainda maior oportunismo com que untam os seus actos. Pelo menos, o “nosso” Raposo tem um rasgo de consciência que o assalta enquanto se encontra na penúria, que o leva a reflectir na inútil hipocrasia que o cerca e da qual fazia parte.
Um livro verdadeiramente vanguardista para a sua época, quer na escrita, quer no conteúdo.
Pertence segundo aos queirosianos a uma segunda fase do autor, do pessimismo. Uma crítica social do final do século XIX que denuncia uma sociedade estagnada e entorpecida, o diletantismo (explorado a fundo na magnum opus queirosiana Os Maias), o clero corrupto, a beatice exagerada, a falsa caridade, e a ironia de tudo isto. Expõe vícios, luxúria, ganância, abusos de poder e hipocrisias, permanecendo por isso assustadoramente actual.
Um clássico como ‘A Relíquia‘ é-o porque “nunca deixou de dizer o que tem para dizer” (citando Italo Calvino).