Harry Potter and the Half-Blood Prince — J.K. Rowling

crítica

*4.3

Fragmentos da alma


O sexto volume da saga Harry Potter mergulha os leitores ainda mais profundamente no universo mágico criado por J.K. Rowling. Com uma mistura de humor, tragédia e revelações sobre o passado das personagens, Harry Potter and the Half-Blood Prince é um dos livros mais densos e cativantes da série, enquanto mais sombrio e introspectivo. A trama, repleta de episódios inesquecíveis e uma exploração emocional mais palvável, prepara habilmente o palco para o grandioso desfecho de ‘Deathly Hallows’.

J.K. Rowling escreveu a saga Harry Potter durante os anos 1990 e início dos 2000, inspirando-se em parte na sua experiência de vida em Portugal. Este contexto reflete-se nas nuances culturais e filosóficas presentes na série. Harry Potter explora ao longo dos sete volumes temas como a saudade, o amor, a amizade e as dinâmicas de poder. 

A narrativa começa com uma sensação de ameaça iminente, com o regresso definitivo de Voldemort e a crescente influência dos Death Eaters. Enquanto Harry lida com a perda de Sirius Black, Dumbledore torna-se uma figura mais central na história, guiando-o através de memórias que revelam o passado de Tom Riddle. A introdução dos horcruxes (objetos que contêm fragmentos da alma de Voldemort) é um ponto-chave do enredo, explorando a fragilidade da alma humana e as consequências de ações desprovidas de amor e empatia. O professor Slughorn traz um lado cómico a este livro, ao mesmo tempo que desempenha um papel crucial na trama, enquanto Severus Snape, sem dúvida o personagem melhor desenvolvido em todo o Harry Potter, tem o seu perfil caracterizado com toda a ambiguidade que o define. 

Harry Potter and the Half-Blood Prince explora temas como a natureza do mal, amor, sacrifício e complexidades da alma humana. A figura de Tom Riddle, marcada por uma infância desprovida de carinho sugere um abismo interno causado pela ausência de amor e revela um retrato profundo do impacto das circunstâncias na formação do caráter. A metáfora dos horcruxes, que fragmentam a alma, ressoa com a tese de Fernando Pessoa sobre a fragmentação do eu.O ritmo um pouco mais lento em certos momentos é compensado pelas revelações cruciais e pelo desenvolvimento dos personagens. O sexto volume reafirma a maestria de Rowling no género de literatura juvenil e combina fantasia com questões humanas universais, preparando o terreno para o clímax épico de Deathly Hallows.

História de Quem Vai e de Quem Fica — Elena Ferrante

crítica

*4.7

A permanência indelével da infância

‘História de Quem Vai e de Quem Fica’ representa o terceiro volume da série napolitana de Elena Ferrante, uma epopeia literária que cativou leitores em todo o mundo. Desde o seu início, esta série tem sido acompanhada de perto, especialmente após sua adaptação televisiva pela HBO/Rai, que se revelou, surpreendentemente, superior ao material original. Adicionalmente, a aura de mistério em torno da autora napolitana, cuja identidade permanece desconhecida, acrescenta um fascínio adicional à experiência de leitura deste livro, que se sustenta por seus próprios méritos.

Elena Ferrante é nossa cicerone pela Itália do século XX, explorando as intricadas relações humanas entre mudanças políticas e sociais da época. A ambientação histórica é rica em detalhes, com as tensões entre fascistas e comunistas, a influência da Camorra e os cenários idílicos de Ischia contrastando com a imponência do Vesúvio, fornecendo um pano de fundo dinâmico e envolvente para a narrativa.

A narrativa se desenrola em dualidade, refletindo não apenas as contradições da sociedade italiana da época, mas também as complexidades das relações humanas. A marca indelével da infância é um tema recorrente, adicionando uma camada de profundidade emocional à obra. Ferrante captura magistralmente a nostalgia do tempo passado e dos momentos perdidos, bem como as inquietações e desejos que moldam a personalidade de seus personagens.

O livro é construído sobre um discurso direto livre distintivo e irrepreensível, revelando-se como um fluxo de consciência à la Woolf que Ferrante domina com maestria. Os diálogos curtos e cortantes estão repletos de silêncios, transmitindo não apenas o que é dito, mas também o que não é dito. As personagens, especialmente Lenù e Lila, são construídas com uma complexidade cativante, refletindo os contrastes e as dualidades que permeiam suas vidas.

‘História de quem vai e de quem fica’ transcende os limites da narrativa literária, oferecendo uma experiência de leitura imersiva e emocionante. Embora a série televisiva tenha seus méritos, o livro destaca-se por sua escrita habilidosa e pela capacidade de Ferrante de capturar a essência da vida e das relações humanas com uma honestidade e profundidade impressionantes. Esta é uma leitura indispensável para os fãs da série napolitana e para qualquer leitor que aprecie uma narrativa complexa e introspectiva.

The Armour of Light — Ken Follett

crítica

* 2.4

Indústria e guerra numa armadura frágil

A promessa de um épico histórico que explora a Revolução Industrial e os seus efeitos sociais e políticos era a premissa de The Armour of Light. Como parte da famosa série Kingsbridge, o livro tinha potencial para expandir o célebre universo situado na fictícia vila de Kingsbridge e criado por Ken Follett em Pillars of the Earth. Contudo, o entusiasmo inicial deu lugar à frustração com uma narrativa que se arrasta, personagens mal desenvolvidos e uma abordagem que simplifica em demasia os acontecimentos históricos.

Ken Follett é um autor britânico amplamente conhecido pelos seus thrillers e épicos históricos, tendo atingido o auge do sucesso com Pillars of the Earth. Com The Armour of Light, Follett tenta transportar o leitor para o período da Revolução Industrial, retratando as mudanças sociais e económicas que marcaram esta época, bem como os efeitos da guerra entre a Grã-Bretanha e a França napoleónica. Pese embora, o que poderia ter sido uma rica tapeçaria histórica acaba por se emaranhar numa tentativa falhada de recriar a grandiosidade de obras como Guerra e Paz.

O enredo é vasto e entrelaça a vida de uma miríade de personagens, desde industriais gananciosos até trabalhadores nas linhas de produção, passando por soldados e líderes religiosos, enquanto todos enfrentam os desafios e perigos da revolução tecnológica. A introdução da spinning jenny, a ascensão da indústria têxtil e os efeitos da Revolução Francesa são retratados. O início, que foca os antagonistas capitalistas e as tensões iniciais da Revolução Industrial, é o ponto alto do livro. Infelizmente, à medida que a narrativa avança, perde-se em clichés e frases feitas, diluindo qualquer impacto emocional ou intelectual. Os episódios de guerra, que tentam capturar o drama e a intensidade dos conflitos napoleónicos, falham em cativar. A ligação entre os personagens e os eventos históricos carece de coesão, e as figuras centrais, que deveriam carregar o peso da narrativa, são esquecíveis e bidimensionais, de tal modo que não me ocorre na redação desta análise o exemplo de nenhuma.

The Armour of Light aborda uma série de temas complexos, incluindo as mudanças sociais e econômicas decorrentes da Revolução Industrial, os conflitos de classe, o papel da religião e as consequências das guerras napoleônicas. Follett utiliza símbolos e metáforas de forma eficaz para explorar esses temas, oferecendo ao leitor uma experiência rica e multifacetada. No entanto, a profundidade de alguns personagens pode deixar a desejar, tornando-os menos cativantes do que em outras obras do autor.

Temas:
O livro aborda a transição da economia rural para a industrial, as desigualdades sociais exacerbadas por este processo, e os efeitos devastadores da guerra. 

Símbolos:
Embora o título sugira a “armadura” como um símbolo de resistência ou força, esta metáfora nunca é realmente desenvolvida no texto.

Moral e Metafísica:
Ao contrário de outros épicos históricos que exploram as nuances da condição humana, The Armour of Light limita-se a uma abordagem simplista de “bem contra o mal”. O capitalismo é representado como ganancioso e vilão, enquanto os trabalhadores e soldados são vítimas passivas, sem espaço para complexidade ou ambiguidade moral.


Este quinto livro da série Kingsbridge decerto não atinge as alturas dos predecessores, tendo desperdiçado a oportunidade de explorar um período tão cativante como a Revolução Industrial, a doutrina metodista, a Revolução Francesa e os conflitos napoleónicos. Embora o início ofereça alguma esperança, o livro rapidamente se perde numa narrativa arrastada, com personagens pouco desenvolvidos. A tentativa de criar um épico histórico digno de nota fracassa devido a clichés, previsibilidade e uma abordagem que até subestima a inteligência do leitor.

O Mundo de Sofia — Jostein Gaarder

crítica

*3.7

Descobrir a sabedoria de três milénios


O Mundo de Sofia foi uma escolha natural para mim, dado o meu interesse pela filosofia e pela maneira como esta obra é elogiada por tornar conceitos filosóficos complexos acessíveis a um público mais amplo. A leitura acessível e envolvente torna este livro uma porta de entrada valiosa para o vasto mundo da filosofia.


Jostein Gaarder, um escritor norueguês, transporta-nos para a jornada de Sofia Amundsen, uma adolescente que se depara com uma série de enigmas filosóficos quando começa a receber cartas misteriosas de um filósofo. Publicado em 1995, este livro emerge numa época em que a filosofia começava a ganhar mais destaque na cultura popular. Vale a pena destacar que o mistério que permeia a narrativa mantém-se ao longo do livro, mantendo o interesse do leitor.


Sofia, a protagonista, é conduzida numa viagem pela história da filosofia, encontrando-se com grandes pensadores como Sócrates, Platão, Aristóteles e Kant, entre outros. Os diálogos, por vezes infantilizados, podem resultar em uma perda de sentido na tradução, mas ainda assim, a narrativa mantém-se envolvente. No entanto, é importante notar que algumas situações parecem implausíveis, como o caso do cão Hermes, o que pode afetar a imersão do leitor.


Gaarder habilmente tece temas como a natureza da realidade, a liberdade humana, a moralidade e a busca do conhecimento através de símbolos e metáforas, oferecendo ao leitor uma experiência enriquecedora e profundamente reflexiva. Aborda questões humanas prementes, tornando-o um livro adequado para a infância e juventude.


O Mundo de Sofia é uma obra que encanta pela sua capacidade de educar e entreter simultaneamente. No entanto, sua extensão pode ser intimidante para alguns leitores mais casuais. Apesar disso, vale pelo curso de filosofia que oferece e pela descoberta da sabedoria acumulada ao longo de três milénios. No entanto, a personagem de Sofia poderia ser mais aprofundada, e certas situações poderiam ser mais verossímeis. Ainda assim, é uma leitura essencial para qualquer um interessado em explorar as complexidades do pensamento humano.

A Thousand Splendid Suns — Khaled Housseini

crítica

* 3.8

Véus que esvoaçam

Somos levados ao coração da tumultuosa história do Afeganistão por ‘A Thousand Splendid Suns’. A motivação para ler este livro surgiu da promessa de uma visão íntima da vida das mulheres afegãs, uma perspectiva muitas vezes abafada pelos conflitos geopolíticos que definiram o país. O livro aborda temas como a desigualdade de género, a violência doméstica e o papel das mulheres numa sociedade marcada pelo patriarcado e pela guerra, pintando um retrato ao mesmo tempo trágico e inspirador.

Khaled Hosseini, um médico e escritor afegão-americano, alcançou reconhecimento internacional com ‘The Kite Runner’, seguindo-se depois esta segunda obra em 2007. ‘Mil Sóis Resplandecentes’ (tradução em português) é profundamente enraizado na história recente do Afeganistão, cobrindo períodos como a invasão soviética, o regime dos Mujahideen, o domínio do Talibã e a intervenção americana. Hosseini utiliza sua escrita para amplificar as vozes das mulheres, revelando as dificuldades e as esperanças que emergem mesmo nas condições mais adversas.

A narrativa acompanha Mariam e Laila, duas mulheres de origens diferentes cujas vidas se cruzam de forma inesperada. Mariam, filha ilegítima de um comerciante abastado, enfrenta desde cedo o estigma de ser uma harami. Após a morte da mãe, é forçada a casar-se com Rasheed, um sapateiro de Kabul, cuja violência e opressão dominam sua vida. Laila, em contraste, cresce numa família mais liberal, mas vê sua vida devastada pela guerra. A relação das duas mulheres evolui de desconfiança mútua para uma amizade profunda e solidária, unindo-as contra a opressão do marido. O enredo é repleto de cenas impactantes, como a obrigatoriedade do uso da burqa, a violência doméstica e atrocidades públicas como apedrejamentos. Contudo, após um bom desenvolvimento inicial e a formação da amizade entre Mariam e Laila, a narrativa perde fôlego. A dicotomia simplista entre as heroínas e Rasheed como o vilão absoluto perde a oportunidade explorar a complexidade do patriarcado que molda todos os personagens, incluindo os homens e, naturalmente, a personagem Rasheed.

Entre os prós, destacam-se a fluidez da escrita, a relevância cultural e histórica, e a construção das protagonistas femininas. Como contras, a narrativa por vezes simplifica as dinâmicas de poder e falha em aprofundar as motivações de Rasheed, o que poderia ter enriquecido o enredo.

Temas:
O livro aborda temas universais como a desigualdade de género, a resiliência feminina, e a opressão social e política. A amizade entre Mariam e Laila destaca a força das conexões humanas como resistência à adversidade.

Símbolos:
A burqa surge como um símbolo poderoso da opressão feminina, enquanto a kolba de Mariam representa o confinamento, tanto físico quanto emocional. O título do livro, retirado de um poema de Saib-e-Tabrizi, reflete a esperança e a força das mulheres, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.

Moral e Metafísica:
A obra provoca reflexões sobre o impacto das estruturas patriarcais e sobre como a opressão molda não apenas as mulheres, mas também os homens que as perpetuam. Apesar de ser uma narrativa sobre sofrimento, a resiliência das protagonistas oferece uma mensagem de esperança.

No geral, a experiência de leitura de ‘Mil Sóis Resplandecentes’ marca, especialmente no início, com a construção detalhada das personagens e o retrato vívido do Afeganistão. No entanto, o enredo perde força na segunda metade, com algumas escolhas narrativas previsíveis e um sentimentalismo que não era necessário dada a intensidade dos temas abordados. Com os seus solavancos, este é um testemunho valioso da coragem feminina em sociedades profundamente desiguais. Assinala-se a brutalidade do real: a construção social, a cobardia, o poder, o orgulho, o afecto, a esperança. Ler este conto após a mais recente ocupação Taliban atribui outro sentido, enaltece ainda mais relevância. É possível aprender com a história, real ou ficcional.

Macbeth – William Shakespeare

crítica

Ação humana à boleia da premonição

Passados precisamente quatrocentos anos da sua publicação, esta peça reproduz tintim por tintim os nossos defeitos, virtudes, ambições, desejos, inquietações, sonhos, anseios, alegrias. A conduta humana, aqui retratada em período medieval, trespassa as páginas deste breve e acutilante livro, que é testemunho da imaginação fértil do seu autor e do seu domínio impecável da língua inglesa. Trespassa ainda para os inúmeros palcos, telas e ecrãs onde a peça esteve representada nos últimos séculos.

William Shakespeare, o mestre eterno do teatro, do texto dramático e, acima de tudo, da tragédia (tendo a sua pena esgrimado também comédias memoráveis) deixou-nos este notável e brutal vaticínio da condição humana.

Macbeth, prenunciado por um trio de bruxas galhofeiras, conduz-se a si mesmo à loucura, com a sua parceira Lady Macbeth como co-piloto, tendo deixado uma marca indelével na ténue linha da moralidade e da honra. A premonição das malvadas bruxas (mais malvadas que certos humanos e suas ações?) é o rastilho que deflagra esta peça que avança a um ritmo estonteante, fast-paced, sem perder a oportunidade para relexões e solilóquios tão naturais a Shakespeare.

Tragédia de texto dramático absolutamente necessária no portfólio do leitor de hoje e de sempre.

Rating: 4.5 out of 5.

4.5 / 5

Excerto antológico de Macbeth e, até, da obra Shakespereana:

MACBETH
There would have been a time for such a word.
Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle.
Life’s but a walking shadow, a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

– Act V, Scene V

Excertos

BANQUO

É possível que essa crença vos instigue até ao trono,

muito para além do baronato de Cawdor.

É estranho, no entanto; amiúde com verdades

nos enganam os espíritos das trevas,

provocando a nossa ruína: seduzem-nos

primeiro com honestas bagatelas,

pra depois nois despojarem duramente.”

– acto I, cena III, p. 26″

MACBETH

E se falharmos?

LADY MACBETH

Se falharmos, paciência. Mas se retesares o arco

da coragem, impossível é falharmos.

– acto I, cena VII, pag. 38

MACBETH

Que se passa? Porque tremo ante todos os ruídos?

Minhas mãos ferem-me a vista! Não as reconheço.

Pode o vasto coração de Neptuno lavar delas

este sangue? Não o creio. Mais depressa tingirão

toda a imensidão dos mares, transformando

em vermelho o seu azul.”

– acto II, cena II, pag. 50″

LADY MACBETH

Oh, desgraça!

O quê? Em nossa casa?

BANQUO

Uma grande crueldade,

em qualquer que fosse o sítio. Diz-me, caro Duff,

que é mentira o que contaste.

MACBETH

Tivesse eu perecido antes desta circunstância,

e seria abençoada a minha vida. Nada existe

já de sério neste mundo, apenas ninharias;

a graça e o renome foram mortos, entornado

foi o vinho da existência, e nas cubas

já não restam senão borras.

– p. 55″

LADY MACDUFF

O medo é bem mais forte

que o amor; e fraco é o juízo de quem foge

tão fora de razão.

ROSS

Acalmai-vos, querida prima.

Vosso marido é honrado, precavido, ponderado,

e conhece como poucos os escolhos do momento. (…)

Quando as coisas batem no fundo, detêm-se

e começam a subir, regressando, com o tempo,

ao ponto onde antes se encontravam.

– Acto IV, cena II”

MACDUFF

Mais fortes e daninhas que as raízes da luxúria, que só cresce

no estio, são as da avareza; esta foi a espada

por que muitos reis morreram. No entanto,

não temais, pois a Escócia tem que chegue

pra que vós vos sacieis no que é vosso.

Tudo isso é suportável, sendo equilibrado

pelas virtudes.

MALCOLM

As virtudes que a um monarca correspondem,

a firmeza, a temperança e a coragem

estão de todo em mim ausentes.”

  • Acto IV, cena III, p. 105

ROSS

Quem me dera ser portador de igual consolo.

Mas as novas que ora trago deveriam ser gritadas

no deserto, onde ninguém as escutasse.

MACDUFF

Quais são elas? E referem-se ao geral,

ou são mágoas que a um só dizem respeito?

ROSS

Não há homem que, honrado, as não partilhe,

mas é a vós que cabe a maior parte.

MACDUFF

Se a mim dizem respeito, dizei logo;

não mas escondais.

– Acto IV, cena III

MACBETH

Nem a mente que me rege nem o coração no peito

hão-de vacilar na dúvida ou estremecer de medo.

Que o Diabo te esturrique, pálido vilão!

Onde foste arranjar essa cara de ganso?

CRIADO

Senhor, há dez mil…

MACBETH

Dez mil gansos?

CRIADO

Não, soldados.”

– Acto V, cena III”

MACBETH

Esta guerra,

ou me alegra para sempre, ou me destrona

desde logo. Já vivi bastante. Agora a minha vida

está já seca como as folhas do Outono. E as coisas

que haveriam de a velhice acompanhar

– a honra e o afecto, a obediência, os amigos –

já não as posso ter. Em vez disso sofro anátemas

profundos e lisonjas sussurradas, que meu pobre

coração recusaria de bom grado, mas não ousa.

– Acto V, cena III”

MACBETH

Então, cura-a.

Não podes tratar de um espírito doente,

arrancar uma aflição enraizada na memória,

apagar qualquer angústia na mente registada,

e com doce poção, que tudo faça esquecer,

aliviar o peito da matéria que o oprime

e que oprime o coração?

MÉDICO

Só o doente,

nesses casos, é que pode medicar-se.

MACBETH

Que se dane, então, a medicina; não me serve.

– Acto V, cena III”

Cem anos de perdão — João Tordo

crítica

Thriller à portuguesa

Tendo conhecido a obra de João Tordo a partir de outro registo, fundacional, evocando o estilo film noir, mais intimista e com retrato de perfis psicológicos de escritores, presente nas primeiras publicações que lhe valeram o reconhecimento nas Letras nacionais: Hotel Memória e As Três Vidas (livro com o qual venceu o Prémio José Saramago em 2009), esta foi uma estreia no seu estilo thriller. Quasi-estreia também para o género literário que não tendo a explorar habitualmente, no qual se incluem policiais e histórias de crime. Tordo revela ser um leitor assíduo de thrillers, seguindo com a dosagem certa a receita comprovada e testada pelos mestres do ofício, Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, composta pela arquetipagem de personagens, diálogos relampejantes e cliffhangers entre secções e capítulos.

“Cem anos de perdão” retoma o desenrolar da dupla de personagens Pilar e Cícero, construídos no anterior Águas Passadas, algo que o autor faz questão de recordar ao leitor, num convite dissimulado para visitar a livraria mais próxima. Embora referenciando repetitivamente o primeiro caso Drexler, que deixou uma marca indelével nos protagonistas, Tordo dissocia as histórias, permitindo que os livros sejam desfrutados individualmente.

Destacam-se os episódios no estabelecimento prisional de Brixton onde Cícero se encontra encarcerado e que se assemelha, tal como assumido no livro, à novela de Stephen King, rei internacional do thriller, sobre a fuga entaipada pelo poster de Rita Hayworth que serviu de base ao famoso filme Shawshank Redemption. A dinâmica de poder e influência entre guardas prisionais, recém chegados e older offenders é credível e consegue agarrar o leitor. Por seu lado, as cenas de Pilar em Helsínquia parecem despropositadas e a narração decorrida na fictícia ilha de S. Dismas peca pela falta de profundidade nas cenas passadas na esquadra, nas vilas insulares inglesas e, sobretudo, na igreja e na comunidade religiosa segregacionista, tema central deste livro.

O final ficou aquém das expectativas, seguramente passando bem sem o desfecho forçado e melodramático a que um clímax parece obrigar para satisfazer o formato. Considerando o género em questão, é um livro que cumpre com o que promete: descrição psicológica dos criminosos e seus justiceiros, diálogos rápidos e ziguezagueantes e pesquisa histórica e temática.

Uma leitura prazerosa, ainda que evanescente, Cem anos de perdão explora com sucesso a ambiguidade moral, a influência do passado nas nossas ações e a concepção do “mal”.

Destaques

+ Cenas na prisão de Brixton verossímeis e intrigantes; perfil psicológico de Pilar Benamor; livro convive autonomamente com o precursor “Águas Passadas”, o que permite que seja lido em separado; pesquisa histórica sobre seitas religiosas, S. Dismas (o bom ladrão) e os dismáticos; desenho cénico da ilha britânica de St. Dismas; exploração do funcionamento de grupos religiosos que vivem em marginalização.

– Linguagem deveras coloquial em discurso directo recorrente; demasiados anglicismos, talvez numa tentativa de aproximação a público-alvo mais alargado e leitores mais jovens; desenvolvimento incipiente dos personagens ao longo da trama; remissões repetitivas para o primeiro tomo da trilogia.


3.6 / 5

Rating: 3.5 out of 5.

Excertos

8.33% ““A superstição, na sua raiz, é um medo excessivo dos deuses. O receio de uma profecia. Em latim, superstitio é algo que sobrou, que ficou de fora. Fora de quê? Da limitadíssima capacidade humana de compreender; como se os deuses tivessem deixado, aqui e ali, zonas de sombra que atemorizam o humano, propositadamente zombando da nossa finita razão.” – cap. Prisão de Brixton”

10.94% ““A manifestação mais óbvia do diabo é a sua capacidade de se esconder (…) fez-nos crer em si próprio disfarçado de outro, do seu contrário.” – cap. Prisão de Brixton”

21.01% ““A Inglaterra era um pedaço de terra isolado do continente europeu, onde os locais tinham hábitos diferentes, arraigados, sobranceiros – conduziam do lado errado da estrada, gostavam de cerveja insípida, salsichas com puré de batata e atiravam queijos do cimo de uma colina íngreme, para depois quase se matarem no seu encalço.” – cap. Brixton, p. 121”

25.87% “”Se não tivermos cuidado com esta gente, ainda vamos acabar a comer os nossos próprios testículos” – cap. Ilha de St. Dismas, p. 149″

60.07% “”Exerço com consciência e dignidade, é o que diz o juramento (de Hipócrates). E bom senso, claro.”

“E se tudo isto for o contrário do bom senso?”, perguntou Pilar. – cap. 17 de abril, ilha de St. Dismas, p. 345″

68.06% “”Essa história do Papillon é a melhor de todas, e eu sou como o Degas, a outra personagem principal. Não tenho interesse nenhum em fugir da prisão, gosto mais da vida aqui dentro do que lá fora”. – cap. ’19 de abril, prisão de Brixton’, p. 376″

As Intermitências da Morte — José Saramago

crítica

Morte, em minúscula

Desde “O Ano da Morte de Ricardo Reis” que não desbravava uma obra de Saramago. Após o primeiro contacto fortuito com “Memorial do Convento”, que apesar de carregar capítulos pesados e extensos sobre a construção do convento de Mafra, como as pedras que sustentam o imponente edifício, tem um poder de fascínio e de mágica inolvidáveis protagonizados pelos Sete Sóis e Sete Luas e a passarola do padre voador. A incursão seguinte, o ensaio ambicioso de complementar a ilustre arca de Pessoa, teve altos e baixos pela Lisboa dos anos 30, tendo terminado por desesperançar um pouco face ao Memorial. Neste título, mantém-se a presença e ubiquidade da morte, porém com um cunho e um ritmo bem mais despreocupado e desenvolto, por estranho que possa parecer ao abordar um assunto tão temido.

“No dia seguinte ninguém morreu” é a provocação em absoluto que instaura a obra. Numa dada sociedade, num dado tempo, num dado país, o caos está instalado. A imprecisão espaço-temporal, cronológica e nominativa no que ao nome e identificação dos personagens diz respeito é habitual na obra de Saramago, fazendo parte do seu desígnio de generalizar e tornar universais os temas que aborda. Temas esses que vão ser alvo de profundas perturbações e reflexão pelo simples facto de ninguém morrer, como o valor da vida e dos memórias que vivemos, as relações humanas, as esferas de poder, da monarquia, aos governos, ao clero e à maphia (com ph), até à própria sustentabilidade das finanças públicas, do sistema nacional de saúde e das indústrias que convivem de perto com a morte, como a funerária. Afinal de contas, a imortalidade tão cobiçada não parece ser assim tão sublime. Continua a haver sofrimento, agora sem fim, e um vazio niilista assombra os cidadãos deste país, nos idos de dois mil e cinco, com numerais por extenso, como tanto apraz a Saramago.

Um livro mais acessível do autor, com o seu estilo vincado indelevelmente ao longo de toda a prosa, revela que é possível satirizar e rir com a morte. A mesma que vem a ser protagonista para o final da trama e cujos desejos, inquietações e conversas com a inseparável gadanha são imperdíveis. Destaco como episódios marcantes o diálogo do primeiro-ministro com o rei,  a notícia no telejornal em torno dos ocultos sobrescritos violeta e o concerto do violoncelista. Como habitual, a sua leitura faz-nos indagar e raciocinar sobre falhas num sistema que tomamos por certo, sobre cenários que nos incitam ao “e se?”. 

Curto mas recheado de significado, metafísica e polissemântica, “As Intermitências” pode ser uma boa introdução à obra do autor. Observações perspicazes e satíricas sobre valores da sociedade são narradas no decurso da história, que conta com um final estonteante. O tom oralizante, repleto de expressões idiomáticas e populares enriquecem a prosa, que despretensiosamente aborda o ciclo e o valor da vida.

Rating: 4.5 out of 5.

4.3

Animal Farm — George Orwell

crítica

Alegoria humana

“Four legs good, two legs bad”

Aritmética básica na Manor Farm, renomeada Animal Farm segundo os preceitos do Animalismo.

Um paradoxo em si, dado que vários dos animais de “classe mais operária” como as aves, tais como galinhas, patos, gansos, encaixam no dogma de duas patas. O reflexo do draconianismo dos regimes comunistas totalitários.

Uma fábula política, descomplicada porém excepcional.



Uma crítica ao Homem, à sua (des)organização política e um grito de alerta para a demagogia e os crimes que esta motivou em vários regimes do século XX.


Inovador para a sua época, Animal Farm mantém-se surpreendentemente actual por muito tempo que passe, pois os vícios, defeitos e vicissitudes humanos são para sempre.

É essa crítica de costumes e de ideologias vazias e contraditórias que Orwell elabora com mestria e com excelente eloquência (como aliás fez também magistralmente em 1984 com os respectivos totalitarismo e doublethink).

Um clássico curto, obrigatório, que se lê de rajada e com a promessa de repetição. Pelo menos para aprendermos com os erros da História e para que os porcos não sejam confundidos com homens.


Rating: 4.5 out of 5.

4.4

Quinta dos Animais [Animal Farm] (1945). Cavalo de Ferro. 176 pág.

Após entrar para o domínio público e “libertar” os direitos de autor, várias editoras (re)lançaram em 2021 as obras imperdíveis de George Orwell. Sugestão das melhores edições: Antígona, Cavalo de Ferro (link Wook), Livros do Brasil, Relógio de Água (versão novela gráfica, link Bertrand).

#geraçãodeleitores O Alquimista — Paulo Coelho

geraçãodeleitores

Neste episódio, o recém aniversariante Rodrigo traz-nos um volume sobejamente conhecido dentro e além fronteiras, ou não estaríamos a falar do livro lusófono mais traduzido de sempre, bem como o maior bestseller. Como tudo o que esse atributo descreve, reúne consenso como livro favorito por uns e, simultaneamente, dissonâncias por ser considerado uma mera amálgama de aforismos por outros.

Rodrigo, especialista em converter cliques em clientes e em avivar invariavelmente um sorriso na cara dos seus amigos, sempre procurou respostas para questões da sociedade, não se conformando com refutações que a polarizam.

Apresentando um registo menos convencional no Calhamaço, abrimos os horizontes para compreender o que faz esta obra figurar nas listas do livros que mais marcaram os seus leitores, ao fim e ao cabo a intenção precisa da rubrica Geração de Leitores. Só assim ouvimos outras vozes e partilhamos literatura.



A alquimia refere-se à ciência oculta medieval que se dedica a descobrir o elixir da vida e a pedra filosofal, permitindo transformar qualquer metal em Ouro. Paulo Coelho não poderia ter escolhido melhor nome para este conto, detentor do recorde do Guinness para o livro mais traduzido de um autor vivo.

Para fazer jus à sua escrita, deixo de fora deste comentário palavras francesas e construções frásicas complexas, pois o próprio conto parece ser redigido para crianças, pela sua escrita informal e infantil. Desta forma, somos convidados a recuar no tempo e a recuperar os nossos sonhos de infância, e, completamente desarmados, compreender os princípios básicos da busca da felicidade – ou da pedra filosofal.

Viajando com Santiago, um pastor andaluz que larga a sua casa em busca de um destino que lhe foi apresentado num sonho, desejamos entender de que maneira este conseguirá ultrapassar todas as peripécias que lhe vão surgindo para chegar ao tão aguardado final – pois é esta a nossa expectativa adulta: há uma Viagem, terá por certo que haver um destino concreto. Existem ao longo do conto infortúnios, mas será preciso vencê-los para chegar ao destino final. Santiago fará amizades, mas será preciso deixá-las para chegar ao destino final.

Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro.

No final da leitura, um coração que se foi tornando infantil saberá um pouco melhor de que destino se fala. Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro. Entendemos que, como Santiago, estamos também nós num processo de alquimia, e que também nós nos encontramos nesta Viagem, e que assim será até ao último dia. O Alquimista confere-nos a tranquilidade de saber que a Viagem está longe de estar concluída, e que deve ser assumida de acordo com a nossa “Lenda Pessoal”. Se assim for, estaremos um passo mais perto de nos transformarmos em Ouro. 

“Eles não sabem, nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança”. 

“Pedra Filosofal”, António Gedeão



O Alquimista. 192 pág. 1988

Editado em Portugal pela Pergaminho e 11×17.

* Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.