Macbeth – William Shakespeare

crítica

Ação humana à boleia da premonição

Passados precisamente quatrocentos anos da sua publicação, esta peça reproduz tintim por tintim os nossos defeitos, virtudes, ambições, desejos, inquietações, sonhos, anseios, alegrias. A conduta humana, aqui retratada em período medieval, trespassa as páginas deste breve e acutilante livro, que é testemunho da imaginação fértil do seu autor e do seu domínio impecável da língua inglesa. Trespassa ainda para os inúmeros palcos, telas e ecrãs onde a peça esteve representada nos últimos séculos.

William Shakespeare, o mestre eterno do teatro, do texto dramático e, acima de tudo, da tragédia (tendo a sua pena esgrimado também comédias memoráveis) deixou-nos este notável e brutal vaticínio da condição humana.

Macbeth, prenunciado por um trio de bruxas galhofeiras, conduz-se a si mesmo à loucura, com a sua parceira Lady Macbeth como co-piloto, tendo deixado uma marca indelével na ténue linha da moralidade e da honra. A premonição das malvadas bruxas (mais malvadas que certos humanos e suas ações?) é o rastilho que deflagra esta peça que avança a um ritmo estonteante, fast-paced, sem perder a oportunidade para relexões e solilóquios tão naturais a Shakespeare.

Tragédia de texto dramático absolutamente necessária no portfólio do leitor de hoje e de sempre.

Rating: 4.5 out of 5.

4.5 / 5

Excerto antológico de Macbeth e, até, da obra Shakespereana:

MACBETH
There would have been a time for such a word.
Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle.
Life’s but a walking shadow, a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

– Act V, Scene V

Excertos

BANQUO

É possível que essa crença vos instigue até ao trono,

muito para além do baronato de Cawdor.

É estranho, no entanto; amiúde com verdades

nos enganam os espíritos das trevas,

provocando a nossa ruína: seduzem-nos

primeiro com honestas bagatelas,

pra depois nois despojarem duramente.”

– acto I, cena III, p. 26″

MACBETH

E se falharmos?

LADY MACBETH

Se falharmos, paciência. Mas se retesares o arco

da coragem, impossível é falharmos.

– acto I, cena VII, pag. 38

MACBETH

Que se passa? Porque tremo ante todos os ruídos?

Minhas mãos ferem-me a vista! Não as reconheço.

Pode o vasto coração de Neptuno lavar delas

este sangue? Não o creio. Mais depressa tingirão

toda a imensidão dos mares, transformando

em vermelho o seu azul.”

– acto II, cena II, pag. 50″

LADY MACBETH

Oh, desgraça!

O quê? Em nossa casa?

BANQUO

Uma grande crueldade,

em qualquer que fosse o sítio. Diz-me, caro Duff,

que é mentira o que contaste.

MACBETH

Tivesse eu perecido antes desta circunstância,

e seria abençoada a minha vida. Nada existe

já de sério neste mundo, apenas ninharias;

a graça e o renome foram mortos, entornado

foi o vinho da existência, e nas cubas

já não restam senão borras.

– p. 55″

LADY MACDUFF

O medo é bem mais forte

que o amor; e fraco é o juízo de quem foge

tão fora de razão.

ROSS

Acalmai-vos, querida prima.

Vosso marido é honrado, precavido, ponderado,

e conhece como poucos os escolhos do momento. (…)

Quando as coisas batem no fundo, detêm-se

e começam a subir, regressando, com o tempo,

ao ponto onde antes se encontravam.

– Acto IV, cena II”

MACDUFF

Mais fortes e daninhas que as raízes da luxúria, que só cresce

no estio, são as da avareza; esta foi a espada

por que muitos reis morreram. No entanto,

não temais, pois a Escócia tem que chegue

pra que vós vos sacieis no que é vosso.

Tudo isso é suportável, sendo equilibrado

pelas virtudes.

MALCOLM

As virtudes que a um monarca correspondem,

a firmeza, a temperança e a coragem

estão de todo em mim ausentes.”

  • Acto IV, cena III, p. 105

ROSS

Quem me dera ser portador de igual consolo.

Mas as novas que ora trago deveriam ser gritadas

no deserto, onde ninguém as escutasse.

MACDUFF

Quais são elas? E referem-se ao geral,

ou são mágoas que a um só dizem respeito?

ROSS

Não há homem que, honrado, as não partilhe,

mas é a vós que cabe a maior parte.

MACDUFF

Se a mim dizem respeito, dizei logo;

não mas escondais.

– Acto IV, cena III

MACBETH

Nem a mente que me rege nem o coração no peito

hão-de vacilar na dúvida ou estremecer de medo.

Que o Diabo te esturrique, pálido vilão!

Onde foste arranjar essa cara de ganso?

CRIADO

Senhor, há dez mil…

MACBETH

Dez mil gansos?

CRIADO

Não, soldados.”

– Acto V, cena III”

MACBETH

Esta guerra,

ou me alegra para sempre, ou me destrona

desde logo. Já vivi bastante. Agora a minha vida

está já seca como as folhas do Outono. E as coisas

que haveriam de a velhice acompanhar

– a honra e o afecto, a obediência, os amigos –

já não as posso ter. Em vez disso sofro anátemas

profundos e lisonjas sussurradas, que meu pobre

coração recusaria de bom grado, mas não ousa.

– Acto V, cena III”

MACBETH

Então, cura-a.

Não podes tratar de um espírito doente,

arrancar uma aflição enraizada na memória,

apagar qualquer angústia na mente registada,

e com doce poção, que tudo faça esquecer,

aliviar o peito da matéria que o oprime

e que oprime o coração?

MÉDICO

Só o doente,

nesses casos, é que pode medicar-se.

MACBETH

Que se dane, então, a medicina; não me serve.

– Acto V, cena III”

Mensagem — Fernando Pessoa

crítica

Falta cumprir-se Portugal!

Poema à lingua portuguesa, à portugalidade, à nação e ao povo.

Magistralmente escrito por Pessoa, que segue a formalidade clássica e em simultâneo rompe com os cânones literários. Recheado de episódios de um Portugal glorioso, símbolos, sinédoques, figuras históricas, avisos, premonições e esperança. Mensagem afigura-se como a obra máxima do Modernismo luso e de além-fronteiras.

Obrigatório na estante e no consciente de todos os portugueses.

*Celebração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas de 2021.



Rating: 5 out of 5.

5.0

Mensagem (1934). Tinta da China. 288 pág.

Reedição em edição suberba de livro de bolso, sob a coordenação do pessoano Jerónimo Pizarro, incluindo ao cânone textual, imagens e vários elementos que iluminam esta obra.

Animal Farm — George Orwell

crítica

Alegoria humana

“Four legs good, two legs bad”

Aritmética básica na Manor Farm, renomeada Animal Farm segundo os preceitos do Animalismo.

Um paradoxo em si, dado que vários dos animais de “classe mais operária” como as aves, tais como galinhas, patos, gansos, encaixam no dogma de duas patas. O reflexo do draconianismo dos regimes comunistas totalitários.

Uma fábula política, descomplicada porém excepcional.



Uma crítica ao Homem, à sua (des)organização política e um grito de alerta para a demagogia e os crimes que esta motivou em vários regimes do século XX.


Inovador para a sua época, Animal Farm mantém-se surpreendentemente actual por muito tempo que passe, pois os vícios, defeitos e vicissitudes humanos são para sempre.

É essa crítica de costumes e de ideologias vazias e contraditórias que Orwell elabora com mestria e com excelente eloquência (como aliás fez também magistralmente em 1984 com os respectivos totalitarismo e doublethink).

Um clássico curto, obrigatório, que se lê de rajada e com a promessa de repetição. Pelo menos para aprendermos com os erros da História e para que os porcos não sejam confundidos com homens.


Rating: 4.5 out of 5.

4.4

Quinta dos Animais [Animal Farm] (1945). Cavalo de Ferro. 176 pág.

Após entrar para o domínio público e “libertar” os direitos de autor, várias editoras (re)lançaram em 2021 as obras imperdíveis de George Orwell. Sugestão das melhores edições: Antígona, Cavalo de Ferro (link Wook), Livros do Brasil, Relógio de Água (versão novela gráfica, link Bertrand).

#geraçãodeleitores O Alquimista — Paulo Coelho

geraçãodeleitores

Neste episódio, o recém aniversariante Rodrigo traz-nos um volume sobejamente conhecido dentro e além fronteiras, ou não estaríamos a falar do livro lusófono mais traduzido de sempre, bem como o maior bestseller. Como tudo o que esse atributo descreve, reúne consenso como livro favorito por uns e, simultaneamente, dissonâncias por ser considerado uma mera amálgama de aforismos por outros.

Rodrigo, especialista em converter cliques em clientes e em avivar invariavelmente um sorriso na cara dos seus amigos, sempre procurou respostas para questões da sociedade, não se conformando com refutações que a polarizam.

Apresentando um registo menos convencional no Calhamaço, abrimos os horizontes para compreender o que faz esta obra figurar nas listas do livros que mais marcaram os seus leitores, ao fim e ao cabo a intenção precisa da rubrica Geração de Leitores. Só assim ouvimos outras vozes e partilhamos literatura.



A alquimia refere-se à ciência oculta medieval que se dedica a descobrir o elixir da vida e a pedra filosofal, permitindo transformar qualquer metal em Ouro. Paulo Coelho não poderia ter escolhido melhor nome para este conto, detentor do recorde do Guinness para o livro mais traduzido de um autor vivo.

Para fazer jus à sua escrita, deixo de fora deste comentário palavras francesas e construções frásicas complexas, pois o próprio conto parece ser redigido para crianças, pela sua escrita informal e infantil. Desta forma, somos convidados a recuar no tempo e a recuperar os nossos sonhos de infância, e, completamente desarmados, compreender os princípios básicos da busca da felicidade – ou da pedra filosofal.

Viajando com Santiago, um pastor andaluz que larga a sua casa em busca de um destino que lhe foi apresentado num sonho, desejamos entender de que maneira este conseguirá ultrapassar todas as peripécias que lhe vão surgindo para chegar ao tão aguardado final – pois é esta a nossa expectativa adulta: há uma Viagem, terá por certo que haver um destino concreto. Existem ao longo do conto infortúnios, mas será preciso vencê-los para chegar ao destino final. Santiago fará amizades, mas será preciso deixá-las para chegar ao destino final.

Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro.

No final da leitura, um coração que se foi tornando infantil saberá um pouco melhor de que destino se fala. Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro. Entendemos que, como Santiago, estamos também nós num processo de alquimia, e que também nós nos encontramos nesta Viagem, e que assim será até ao último dia. O Alquimista confere-nos a tranquilidade de saber que a Viagem está longe de estar concluída, e que deve ser assumida de acordo com a nossa “Lenda Pessoal”. Se assim for, estaremos um passo mais perto de nos transformarmos em Ouro. 

“Eles não sabem, nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança”. 

“Pedra Filosofal”, António Gedeão



O Alquimista. 192 pág. 1988

Editado em Portugal pela Pergaminho e 11×17.

* Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores Fratelli Tutti — Papa Francisco

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Para abrir o ano num tom de esperança, após um mês de quietude e tempo para reflectir nos projectos para dois mil e vinte e um, trazemos a nova encíclica do Papa Francisco, que por seu turno traz no bico uma mensagem com um forte pendor de tolerância, compaixão fraternidade entre os povos.

Escrita no rescaldo do longo distanciamento social, bem como da série de confinamentos vivenciados por todo o mundo para fazer face à mais recente pandemia, Fratelli Tutti alerta para a nova realidade, que exacerbou fissuras no tecido social e pôs à prova a paciência da nossa sociedade contemporânea, habituada a uma cultura instantânea, de soluções quasi-imediatas e prêt-à-porter.

Margarida sugere-nos a leitura atenta desta boa nova como resposta aos tempos incomuns e sem precedentes para a nossa geração. De olhar vigilante, um coração que parece não ter fronteiras e uma preocupação muito premente por inclusão social, ouvimos esta amiga que é também exemplo de esperança, superação e perseverança.



Fratelli Tutti, em português [Todos irmãos], é uma proposta de São Francisco de Assis que o Papa Francisco vem reforçar e aprofundar na sua nova carta encíclica sobre a fraternidade universal e a amizade social que desafia todos, crentes e não crentes cristãos.

Tal como na sua última carta encíclica Laudato Si, o Santo Padre reflete com uma enorme clareza sobre os sinais dos tempos, sem medos de tocar nas feridas que são as guerras, os conflitos, o individualismo, a indiferença e o descarte universal. Todas estas feridas são consequência de um modo de viver que não confere a devida dignidade humana ao próximo.

A carta encíclica Fratelli Tutti é outra prova do envolvimento do chefe da Igreja nas mais variadas áreas para o desenvolvimento da Humanidade, afirmando-se, com conhecimento, na política e na economia e apontando o diálogo como chave do progresso em qualquer uma das frentes. A sua reflexão sobre a política é de uma enorme riqueza, abordando e desmistificando alguns termos como o populismo e o liberalismo e clarificando ainda que a grandeza política reside na capacidade de “assumir este dever num projeto de nação, e, mais ainda, num projeto comum para a Humanidade presente e futura”.

A Fratelli Tutti é uma leitura densa pela importância de cada parágrafo. É um livro que requer disponibilidade para a reflexão e posterior transformação dos seus leitores. O convite do Papa Francisco é o de recomeçarmos e trabalharmos por ser construtores de sociedades mais abertas que integram todos, ungindo todos e qualquer um com a mesma dignidade humana.

“É um livro que requer disponibilidade para a reflexão e posterior transformação dos seus leitores.”

Se com a leitura desta carta encíclica não nos sentimos interpelados a comprometermo-nos com a fraternidade universal e com o bem comum, ou pelo menos com o desejo profundo de nos tornarmos comprometidos, apesar da nossa limitação, então a leitura não cumpriu o seu propósito.




Fratelli Tutti. 184 pág. 2020

Editado em Portugal pela Paulinas Editora e Apostolado da Oração.

*Esta recomendação faz parte da iniciativa Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores Princípio de Karenina — Afonso Cruz

geraçãodeleitores

Neste segundo episódio #geraçãodeleitores, convidámos o nosso caro amigo Afonso, vencedor consagrado de inúmeros Movembers, data scientist fã de esmiuçar as margens dos retalhistas em busca do melhor desconto, sportinguista incurável e deslumbrado pela poesia de Daniel Faria e Pessoa.

Apresenta-nos Afonso Cruz, um one-man band, que toca literalmente em quase todos os ofícios artísticos durante a sua carreira: escritor, ilustrador, realizador, músico. Conhecido pelas suas alegorias e memoráveis aforismos, é sem dúvida um autor a ter debaixo de olho e na senda de prestigiados prémios em nome da literatura portuguesa e lusófona.



Quando começam as nossas histórias? Esta é mais uma das perguntas inquietantes que Afonso Cruz nos coloca na comovente carta que um pai escreve à sua filha, onde lhe conta as suas origens e o que foi aprendendo ao longo da vida, entre lições e arrependimentos.

Narrado na primeira pessoa e carregado de intimidade, este livro fala-nos da importância de valorizarmos o que nos rodeia, desde a família aos amigos, de nos mostramos disponíveis e abertos para o mundo, para o amor ao próximo (física ou emocionalmente) e para o abstrato conceito da felicidade.

À semelhança de outras obras do escritor, Princípio de Karenina surge também como uma espécie de exame de consciência que, caso o permitamos, nos dá material suficiente para colocarmos a nossa própria vida em perspetiva.

Ao longo do seu trabalho literário, o autor defende que, mesmo que o não consigamos identificar, acontecimentos que possamos reconhecer como independentes uns dos outros se encontram unidos por fios. Numa escala menor, mas como forma de reforçar o seu argumento, Afonso cria ligações brilhantes entre os seus livros de modo a tornar as suas próprias narrativas mais realistas, característica que reforça este convite do escritor à introspecção.

Ao tentar responder à questão que inicia este comentário, este pai afirma que “Tudo começa a todo o instante (…) todos os lugares são centros e todos os instantes são começos”.

Da minha parte, apenas me resta dizer que nenhum instante é tarde para começar a ler Afonso Cruz.



Princípio de Karenina. 168 pág. 2018

Livro editado em Portugal pela Companhia das Letras, uma chancela da Penguin Random House.

*Esta opinião faz parte da rubrica Geração de Leitores.

A Conquista da Felicidade — Bertrand Russell

crítica

Auto-avaliação do homem feliz

Uma lição de humildade e acima de tudo de humanidade. Um guia que põe em prática a máxima cogito ergo sum. Confere um olhar curioso ao advento do século XX, expondo relações com uma maior proximidade temporal e por isso relevância de conteúdo para a época, tecendo comparações e análises de processos, técnicas e mudanças tecnológicas que por serem tão obsoletas nos dias de hoje e no ritmo avassalador com que as inovações nos são apresentadas, perderam a sua novidade mas nunca a importância.

Levar uma vida com ausência de problemas e perturbação é virtualmente impossível, porém o segredo parece residir em gerir a infelicidade e levar uma vida tranquila. Que o diga Bertrand Russell que parece ter encontrado o elixir para a longevidade, tendo vivido até ao pico dos seus 97 anos mantendo a sua sagacidade e lucidez. Um pensador da alta aristocracia britânica do virar do século XIX, seria de crer que todos os seus problemas estariam à partida mitigados. Mas tal não poderia estar mais distante da verdade. Russell lidou ele mesmo com problemas como todos os humanos, incluindo a vulgar infelicidade do dia-a-dia que teima em assombrar a civilização moderna.

Pessoalmente, não deveria ter estendido a leitura por um quase trimestre, este escrito deve ser lido no decurso de algumas semanas. A parte concernente às causas da infelicidade está, a meu ver, melhor exposta e construída e revela-se no fim de contas a principal distinção desta tese de Bertrand Russell. A estrutura da obra é dual: o autor divide a obra numa dicotomia (in)-felicidade, procurando encontrar as causas e factores que potenciam a permanência para ambas.

Esta dissertação toca sentimentos e estados de espírito tão ubíquos como a competição, o aborrecimento, a fadiga, a inveja, o sentimento de culpa, a sensação de perseguição e o medo da opinião alheia ou pública, assim como bases para a felicidade generalizadamente aceites como a estrutura da família e a afeição, o realização pessoal no trabalho, os interesses impessoais vulgo hobbies, o esforço e a resignação e sem esquecer o trivial gosto de viver.

Ler um escrito tão lúcido e vigente como ‘A Conquista da Felicidade‘ vem corroborar a ideia de que só uma análise distanciada nos permite estudar de onde vimos e perspectivar para onde vamos. A história repete-se e o homem é intrinsecamente… humano. O mais impressionante e até alarmante é o facto de estas inquietações transparecerem quase um centenário mais tarde. Este livro curto e relevante é essencialmente um guia para reflectir e, munidos da razão, hábitos sadios, interesses pessoais e afeições, conquistarmos a felicidade.


4.2

Rating: 4 out of 5.

A Conquista da Felicidade (1930)

184 pág., Relógio d’Água

Milagrário Pessoal — José Eduardo Agualusa

crítica

Palrar a língua dos pássaros

Agualusa, mais do que um mero romancista, revela-se um natural e excelente contador de historias, inúmeras historias dos vários cantos da lusofonia envoltas umas nas outras, complementando-se umas às outras, encaixadas no enredo principal da relação entre dois linguistas portugueses de idades completamente distintas em busca de misteriosos e intrigantes neologismos roubados à língua dos pássaros.

O ‘Milagrário Pessoal‘ do narrador angolano guarda então vários milagres, incluindo o seu, e, é uma viagem através da história da língua portuguesa e do seu legado, para o qual José Eduardo Agualusa contribuiu bastante com este livro. Uma leitura ligeira e prazerosa que enaltece a nossa língua.


4.0

Rating: 4 out of 5.

Milagrário Pessoal (2010)

184 pág., Dom Quixote