Um incontornável clássico, um livro intemporal, paralelamente simples e complexo, leve e pesado, como a própria existência humana que procura retratar.
Marco na literatura existencialista que condensa nas suas páginas as consequências das paixões violentas, os triângulos amorosos, a Primavera de Praga, chapéus, as nossas inseguranças, a companhia que encontramos nos animais de estimação. Um livro que condensa nele a busca pelo sentido da vida, dado que o seu fim é fugaz e inefável, e reflecte sobre quanto pesa a alma.
Estamos perante um grande escritor que cria curtos mas densos capítulos que se lêem com admirável leveza. Como o próprio ser.
Interessante retrato do interbellum e dos loucos anos 1920.
A folia e cosmopolita vida de Paris e a pacata e tradicional Espanha vista sob o olhar de expatriados americanos.
O livro descreve extensivamente sobre temas como a admiração pela pesca e pelos toros e a tauromaquia, o que a dada altura se revela um tanto maçador e entediante. Por outro lado, é curioso verificar através da temática transversal do livro, que nestes loucos anos havia já o conceito de friendzone sentido silenciosamente na pele por Jake face à destemida e icónica Brett.
A cosmopolita Paris e a tradicional Espanha vista sob o olhar de expatriados americanos
Em suma, um romance que desapontou, talvez por uma questão de alta expectativa, e que não se destaca nem se imortaliza particularmente por nenhum episódio, personagem ou artifício de estilo literário (neste domínio, a tradução nesta edição deixou muito a desejar). Contudo, ‘The Sun Also Rises‘ abre o apetite a mais títulos da obra de Hemingway, o escritor soldado.
“Ah! que venturoso eu fora se não tivesse nascido em parte nenhuma e entretanto existisse.”
Antes de tudo, a palavra. Uma escrita soberba.
Sá-Carneiro usa língua portuguesa como ninguém, enaltecendo-a através de artifícios, de inversões sintáticas, de vocábulos arrojados e opulentos. ‘A Confissão de Lúcio‘ é uma novela vanguardista e à frente do seu tempo cujo valor inestimável está no seu estilo e na retórica, meritória de ser sublinhada de capa a contracapa.
” sabia-me arrastado, deliciosamente arrastado, em uma nuvem de luz que me encerrava todo e me aturdia os sentidos – mas não deixava ver, embora eu tivesse a certeza de que eles me existiam bem lúcidos. Era como se houvesse guardado o meu espírito numa gaveta.“
Ler este livro foi altamente recompensador pela prosperidade linguística que dele transborda, e acima de tudo, pela oportunidade de ter um vislumbre de uma mente do Modernismo português, essa ínclita geração de Orpheu.
Uma novela vanguardista e à frente do seu tempo cujo valor inestimável está no seu estilo e na retórica
Semelhanças com Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos na sua fase abúlica não são mera coincidência, como se encontra evidenciado neste excerto:
“Meus tristes sonhos, meus grandes cadernos de projectos – acumulei-vos numa ascensão, e por fim tudo ruiu em destroços… Etéreo construtor de torres que nunca se erguem, de catedrais que nunca se sagraram… Pobres torres de luar… pobres catedrais de neblina…!
— página 79
Quanto à trama, por mais rocambolesca e inverosímil que esta possa parecer, como o narrador nos indica, trata-se de uma dura confissão, da verdade, da ‘vida’ de Lúcio, envolta numa névoa de sensações, emoções, espiritualidade.
” Acho me tranquilo — sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado de um outro. Permaneci, mas não me sou.
Uma obra curta porém indispensável para admirar a arte que é a língua lusitana e compreender um movimento e um autor de mão cheia que partiu cedo demais.