A Ilustre Casa de Ramires — Eça de Queirós

crítica

Fidalguia que edificou o brasão português

Aprecio um romance, peça ou filme no qual podemos vivenciar o crescimento de um personagem. Tenho esse particular agrado por reproduzir na arte o que acontece realmente. Não somos criaturas estanques e unidimensionais; somos organismos de tentativa-erro, aperfeiçoando-nos à medida que amadurecemos.

Na corrente realista, que procura espelhar o real tal qual ele é, o desenvolvimento dos personagens é, a meu entender, um requisito fundamental que Eça cumpre com exímia maestria. Este amadurecimento alicerçado em valores está particularmente patente no esboçar do protagonista Gonçalo Mendes Ramires. A sua personalidade bondosa, encantadora, cândida, porém também temerosa e procrastinadora está bem apurada e talvez seja o herói melhor construída do universo queirosiano. O ‘Fidalgo da Torre’ cresce ao longo da narrativa através do seu carácter, aspirações, inteligência emocional e bolina com natural ondulação pela vida aristocrática do virar do século XIX.  

José Maria Eça de Queirós dispensa apresentações no mundo lusófono e além fronteiras. Pessoalmente, os seus livros sempre proporcionam um prazer de leitura incomparável pela ironia cómica e pelo domínio da língua portuguesa. À escala literária mundial, encabeça a lista dos mais proeminentes escritores realistas do século XIX. Nesse índice, é acompanhado pelo também lusófono Machado de Assis e os universais Fiódor Dostóievski, Leo Tolstói, Anton Chekhov, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert, e Mark Twain, por exemplo. Curiosamente, uma grande parte constitui também a minha lista de autores predilectos. Tal poderá ser indicador do meu fascínio por esta corrente literária e artística que, erigida sobre o romantismo, quebrou com preceitos tradicionais na arte, bem como na sociedade.

Este ‘A Ilustre Casa de Ramires’, póstumo e não integralmente revisto pelo autor, insere-se na sua terceira e última fase literária, descrita pelos especialistas queirosianos como uma fase mais conciliadora. A terceira fase mantém a crítica social que está patente em toda a sua obra, contudo relaxa um pouco o carácter pessimista, envergando até por um tom panglossiano e optimista, de regeneração. Assim, Eça cria a vetusta família Ramires e a sua ilustre casa vigilada pela antiquíssima Torre, cujas pedras testemunharam até os confrontos Afonsinos, para mostrar que a honra e glória da Nação pode sempre perseverar, ainda que com outros contornos.

Este é um romance tripartido, notavelmente composto num paralelismo entre três diferentes planos: i) a narração da passagem da vida adulta de Gonçalo desde a vinda de Coimbra até à ida para África; ii) o plano histórico, onde é traçada a efígie de Portugal nos últimos anos da monarquia e do seu declínio; e iii) o conto sobre as bravuras da família Ramires escrito por Gonçalo como aproveitamento político e baseado num poemeto de um tio. Apesar de nos entreter e deleitar com a sua escrita requintada por horas, o plano narrativo da composição da novela histórica “A Torre de D. Ramires” relatando as aventuras do antepassado Tructesindo é uma parte um tanto enfadonha da obra. O narrador omnisciente evidencia técnicas modernas de ponto de vista (POV). Este instrumento literário inovador para o seu tempo é notadamente marcado quando o narrador passa de seguir o protagonista quando tem a sua reunião privada com o governador civil André Cavaleiro. É nos dada a percepção dos voyeurs, os restantes habitantes da vila que estacadamente assistem ao reencontro improvável dos dois amigos outrora de costas voltadas, observando como de gelosia através de janelas e reposteiros apenas os gestos, os bafos dos charutos e as salutares palmadas nas costas.

O livro está recheado de momentos hilariantes de paródia com os costumes portugueses, a escrita mordaz e as interações sociais retratadas. Exemplos que decerto irei recordar são: o episódio bastante chistoso da comparação de Gonçalo com a parábola do Bom Samaritano quando caminha a lado de um lavrador montado na sua égua; toda a descrição da ascensão de Gonçalo a distinto deputado nas Cortes, as “ensebadas cadeiras de S. Bento”, ainda que lhe custe a honra e abra uma fenda na Palavra dos vetustos Ramires; o episódio hilário que versa sobre o romance proibido da sua irmã com o simultâneo amigo e arqui-inimigo Cavaleiro; assim como o episódio climáxico das chicotadas com o esplêndido e ‘antiqüissimo’ chicote achado pelo leal Bento, um dos aios que mantém o requinte da quinta de Santa Ireneia.

Assinalo também o enlevo de Eça por um bom ‘escandalozinho’ de alcova e por paixões escondidas, quer no caso mirado no mirante da sua irmã Gracinha, quer na tentativa de conquistar a recém viúva nova-rica D. Ana, uma Vénus sem etiqueta, porém com duzentos contos de renda, apenas para descobrir pelo seu primo Titó acerca das suas infidelidades ainda quando o cadáver do seu marido Sanches Lucena arrefecia. Será este tema recorrente na literatura romântica e realista uma prova do carácter adúltero dos portugueses ou da sociedade de então?

“Não compreendem… Vocês não conhecem a organização de Portugal. Perguntem aí ao Gouveia… Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria.”

Em destaque, o pormenor da classe social de cada interveniente indicada pelo meio de locomoção, seja montado numa égua ou a cavalo, (destaque para os cavalos impecavelmente tratados do cunhado Barrolo que “nem uma gota transpiram”), numa tipóia ou caleche, ou então as longas caminhadas a pé para as classes mais desfavorecidas. Vemos o exemplo da esposa do Casco, um humilde lavrador que vê o seu contrato verbal com Gonçalo desonrado, que carrega estrada fora o filho enfermo pela mão e a bebé que amamenta ao colo. A atitude abnegada de Gonçalo, aconchegando o pequeno nos melhores tecidos do casarão e velado pelos austeros retratos dos antepassados Mendes Ramires, embora sincera e desinteressada, é percebida pelo mesmo como falsa aquando da sua eleição como deputado. É também um símbolo da mudança de paradigmas na sociedade, mais igualitária nos direitos e nos costumes e expressando a aproximação a um sistema político republicano e representativo. O protagonista é comparado com Portugal, quiçá numa das suas épocas mais frágeis política e socialmente, após o sentimento de derrota nacional e quase traição com o Ultimato inglês e a ameaça de rasgar o Tratado de Windsor, o mais antigo acordo entre dois estados soberanos. Em baixo, o excerto antológico do romance que evidencia a metáfora:


– Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o senhor Padre Soeiro quem ele me lembra?

– Quem?

– Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor Padre Soeiro… Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia. A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, sentimentos de multa honra, uns escrúpulos quase pueris, não verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar até mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre alento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão pairador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha torre, há mil anos… Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

    –  Quem?…

    –  Portugal. ”


Gonçalo Mendes Ramires – mais do que uma mera representação estereotipada e delimitada nas linhas do convencionalismo – descende da aristocracia cuja antiguidade precede a própria nacionalidade e forjou o milenário brasão de armas do reino de Portugal. Todavia, o Fidalgo não esconde as suas hesitações, os seus desejos, as suas preguiças, defeitos e virtudes, expressados quer pelos seus actos, como pelas suas inércias. O casting do aristocrata fora certeiro, visto representar em si mesmo Portugal no final do século das revoluções.

Concluindo, ao longo do romance, o tom irónico e de paródia valoriza muito a leitura que trota pela paisagem bucólica do Norte de Portugal, envolta em natureza empedernida e história. A Ilustre Casa de Ramires talvez seja o romance queirosiano mais maduro e uma das obras realistas que mais me deleitou: pela construção dos personagens e pela tomada das suas atitudes, de acordo com a consciência moral de cada um.  


4.4

Rating: 4.5 out of 5.

A Ilustre Casa de Ramires (1900)

312 pág.,
Editora Guerra & Paz


A Conquista da Felicidade — Bertrand Russell

crítica

Auto-avaliação do homem feliz

Uma lição de humildade e acima de tudo de humanidade. Um guia que põe em prática a máxima cogito ergo sum. Confere um olhar curioso ao advento do século XX, expondo relações com uma maior proximidade temporal e por isso relevância de conteúdo para a época, tecendo comparações e análises de processos, técnicas e mudanças tecnológicas que por serem tão obsoletas nos dias de hoje e no ritmo avassalador com que as inovações nos são apresentadas, perderam a sua novidade mas nunca a importância.

Levar uma vida com ausência de problemas e perturbação é virtualmente impossível, porém o segredo parece residir em gerir a infelicidade e levar uma vida tranquila. Que o diga Bertrand Russell que parece ter encontrado o elixir para a longevidade, tendo vivido até ao pico dos seus 97 anos mantendo a sua sagacidade e lucidez. Um pensador da alta aristocracia britânica do virar do século XIX, seria de crer que todos os seus problemas estariam à partida mitigados. Mas tal não poderia estar mais distante da verdade. Russell lidou ele mesmo com problemas como todos os humanos, incluindo a vulgar infelicidade do dia-a-dia que teima em assombrar a civilização moderna.

Pessoalmente, não deveria ter estendido a leitura por um quase trimestre, este escrito deve ser lido no decurso de algumas semanas. A parte concernente às causas da infelicidade está, a meu ver, melhor exposta e construída e revela-se no fim de contas a principal distinção desta tese de Bertrand Russell. A estrutura da obra é dual: o autor divide a obra numa dicotomia (in)-felicidade, procurando encontrar as causas e factores que potenciam a permanência para ambas.

Esta dissertação toca sentimentos e estados de espírito tão ubíquos como a competição, o aborrecimento, a fadiga, a inveja, o sentimento de culpa, a sensação de perseguição e o medo da opinião alheia ou pública, assim como bases para a felicidade generalizadamente aceites como a estrutura da família e a afeição, o realização pessoal no trabalho, os interesses impessoais vulgo hobbies, o esforço e a resignação e sem esquecer o trivial gosto de viver.

Ler um escrito tão lúcido e vigente como ‘A Conquista da Felicidade‘ vem corroborar a ideia de que só uma análise distanciada nos permite estudar de onde vimos e perspectivar para onde vamos. A história repete-se e o homem é intrinsecamente… humano. O mais impressionante e até alarmante é o facto de estas inquietações transparecerem quase um centenário mais tarde. Este livro curto e relevante é essencialmente um guia para reflectir e, munidos da razão, hábitos sadios, interesses pessoais e afeições, conquistarmos a felicidade.


4.2

Rating: 4 out of 5.

A Conquista da Felicidade (1930)

184 pág., Relógio d’Água

Crime e Castigo — Fiódor Dostoiévski

crítica

O vértice da moral humana

Nunca uma obra me tinha transmitido com tanto realismo a sensação de miséria e negligência social. De igual modo, a ética e a moral não haviam antes sido questionadas de forma tão acutilante. Saberemos nós distinguir o certo do errado? A quem cabe julgar os nossos pensamentos? E os nosso actos?

Dostóievski propõe esta reflexão como ninguém, constantemente suscitando a dúvida e empurrando o leitor para um inefável encurralamento ao lado do inesquecível protagonista. ‘Crime e Castigo’, impecavelmente edificado sob o triângulo da retórica (ethos, pathos e logos) é sobretudo um ensaio à vontade humana e perscruta o que nos motiva, o que nos causa repulsa, igualmente o que nos assusta e o que nos fascina.

Rodion Raskolnikov (Ródia para os mais íntimos) é um amigo que queremos ver vingar na vida. O seu nome de família significa cisma em russo, que é patente nas suas crenças, principalmente no que toca à distanciação religiosa, a falta de fé e a busca por equidade social a qualquer custo. O cisma é em última instância explorado na teoria que Rodion cria acerca da existência de homens superiores na sociedade, cujos possíveis crimes para construir uma causa maior deveriam ser compreendidos e absolvidos. Através do exímio desenvolvimento da personagem, o recém criminoso torna-se nosso aliado. Torcemos por ele, entendemos a sua vontade e sentimos a sua dor. Dostoievski desperta um dos sentimentos mais complexos de transmitir em literatura por um personagem: a empatia.

Assim, Ródia é o nosso ethos, na medida em que constrói a sua credibilidade e nos inspira confiança devido ao seu intelecto e sensibilidade admiráveis. A par do corolário da tese de “selecção natural” humana, Dostóievski tem a mestria de nos levar a questionar a própria moral humana. Talvez “eliminar um parasita” como a velha agiota não seja assim tão imoral e até recomendável. Porém numa sociedade de direito, nenhum homem sozinho deve vestir a toga e julgar ter o poder de fazer justiça pelas próprias mãos. Os personagens secundários não são menos relevantes.

Compondo o pathos está o grupo desuniforme composto pela família de Ródia – o núcleo nevrálgico feminino da mãe e irmã – o cândido Razumikhin, o dipsomaníaco Marmaledov e a sua obstinada esposa Katerina Ivanovna, e o determinado Svidrigáilov compõem um bando que concomitantemente constrói o pathos. Estes despertam no nosso herói o seu lado emocional e os valores da família, amizade, camaradagem que não pode nunca ser dissociado da carapaça que fez crescer para lidar com a sociedade hostil que o rodeia. Por fim, o logos é nos apresentado pela afeição da devota Sónia e a sua compaixão através de palavras e gestos meigos, assim como a redenção possível na sua conversa com Porfíri.

Sob um olhar de vívido realismo, Dostoiévski percorre a Rússia dos czares como uma aguarela triste de Turner, atravessando pontes de um S. Petersburgo decadente e paradoxalmente sumptuoso cujo Ródia observa dolorosamente. Para além da questão fundamental na moralidade de um crime, Crime e Castigo‘ questiona o sistema social por classes do Império corrompido e as motivações do povo que vive entorpecido na sua miséria.

Acima de tudo, através desta obra-prima incontornável do final do século XIX, temos acesso privilegiado e sem precedentes à psique humana.


4.8

Rating: 5 out of 5.

Crime e Castigo (1866)

511 pág., Presença
Excelente tradução de Nina e Filipe Guerra

A Tia Júlia e o Escrevedor — Mario Vargas Llosa

crítica

Não percam o próximo episódio

O livro que me introduziu a Vargas Llosa e que revelou ser uma escolha na mouche.

A Tia Júlia e o Escrevedor‘ é uma homenagem à cultura latinoamericana, às novelas e em particular radionovelas, contando histórias fantásticas e que exacerbam o quotidiano peruano. Foi recompensador explorar as ruas de Lima, o bairro de Miraflores, o Perú mais rural e de herança inca e toda a sua cultura e costumes.

É também autobiográfico, onde o autor não resvala para o sentimentalismo, mas retrata com idónea representação a relação entre tia e sobrinho, comicamente entrelaçando-a com o enredo das sucessivas novelas que Pedro Camacho digitava apressadamente na sua máquina de escrever. Esta inesquecível personagem leva o romance mais alto e resulta como fio que ata e une todo o enredo.

Uma leitura leve, cómica e culturalmente rica que oferece uma antevisão à restante “emissão” criativa de Vargas Llosa. Decerto não perderei os próximos episódios na sua escrita sublime e “perspicaz cartografia do poder” (Academia Nobel).


4.2

Rating: 4 out of 5.

A Tia Júlia e o Escrevedor (1988)

375 pág., Dom Quixote
Tia Julia Escrevedor Livro Vargas Llosa

Se numa noite de inverno um viajante — Italo Calvino

crítica

Livro desconstruído

Inovador, irreverente, vanguardista. Uma lufada de ar fresco na literatura mundial.

Se numa noite de inverno um viajante‘, de título inusitado, celebra a arte da leitura, os hábitos e costumes de ser leitor, tecendo também críticas aos “ilustres” académicos e autoproclamados intelectuais que estragam o simples e natural acto de ler, bem como os editores que o tornam num negócio fortuito que valoriza a quantidade sobre a qualidade literária.


Italo Calvino configura-se um mestre contador de histórias, uma vez que a maioria dos contos inacabados suscitaram em mim, leitor, bastante interesse de as continuar, assim como ao Leitor. Fomos assim manipulados, tal como o Autor previra.

” Não que estejas à espera de alguma coisa de especial deste livro em especial. És um daqueles que por princípio não espera mais nada de nada. Há tanta gente, mais jovem do que tu ou menos jovem, que vive na expectativa de experiências extraordinárias; daquilo que o dia de amanhã lhes reserva. Tu não. Tu sabes que o melhor que se pode esperar é evitar o pior.

” Vamos ver. Talvez a princípio te sintas um pouco desorientado (…) Mas depois prossegues e dás-te conta de que o livro se deixa ler apesar de tudo, independentemente daquilo que esperavas do autor. Pensando bem até preferes que seja assim, encontrares-te perante qualquer coisa que ainda não sabes bem o que é.


4.3

Rating: 4.5 out of 5.

A Relíquia — Eça de Queirós

crítica

A “inutilidade da hipocrisia”

Mais uma excelente obra de um dos maiores realistas da literatura mundial.
Eça surpreende perpetuamente engendrando episódios, criando personagens de imenso humor representativos da sociedade, recheando as páginas de ironia inteligentíssima, deleitando-nos com os seus inúmeros e eruditos vocábulos, pormenores que não poupam adjectivo e que adornam a sua prosa com figuras de estilo: metáforas, aliterações, perífrases, hipérboles, personificações.

A trama é dividida em três partes.


A primeira introduz-nos a Teodorico Raposo, aos seus antepassados, ao seu destino de menino órfão entregue a uma abastada e hedionda tia a quem é ensinado a tratar como “titi” desde que começa a falar, passando pela sua educação e desenvolvimento pessoal. Os traços de carácter embusteiro e ganancioso são nos evidenciados nesta fase de juventude de “Raposão”, como aliás era conhecido o protagonista em Coimbra. Certa noite, Teodorico é iluminado por uma brilhante ideia: há que teatralizar toda a sua devoção católica e religiosidade para enganar a “titi” e deitar a mão à incomensurável fortuna herdada de G. Godinho, competindo assim com os párocos que se rodeavam da tia a fim de se constituírem herdeiros. Para finalizar o acto, Teodorico propõe uma peregrinação religiosa a Jerusalém de onde resultará uma relíquia para a sua venerável tia que havia de ser falada por toda a Lisboa.

Em seguida, somos guiados pela quase epopeia de Teodorico ao Oriente e à Terra Santa, acompanhado do douto alemão Topsius e o prestável Potte. Com uma descrição tão viva e detalhada, Eça espelha nesta parte as novas correntes literárias do Realismo e Naturalismo que rompem com o Romantismo que até então vigorava em Portugal e na Europa. A crueza das coisas e dos lugares é nos exposta com pormenor, onde não cabem embelezamentos nem eufemismos românticos. No entanto, com bastantes referências históricas, bíblicas e geográficas, esta parte é um tanto maçadora para quem não está familiarizado com as mesmas, todavia interessante e um reflexo da vasta intelectualidade de Eça de Queiroz.

Por fim, a terceira e última parte diz respeito ao regresso de Teodorico da Palestina, o reencontro com a detestável Srª Dª Patrocínio das Neves (note-se o apelido da senhora não elegido ao acaso) e com a sua comitiva interesseira, o momento clímax de desvendar a relíquia e o destino que se lhe segue, com reflexões de Teodorico sobre o seu passado errante e uma conversa sublime com a sua consciência.

No que toca à narração, esta é nos contada na primeira pessoa pelo protagonista que acompanhamos desde o nascimento e por quem torcemos, embora seja transparente a sua má indole e falta de moral. Torcemos pelo “Raposão” pois é-nos evidente a decrepitude de quem o rodeia e o ainda maior oportunismo com que untam os seus actos. Pelo menos, o “nosso” Raposo tem um rasgo de consciência que o assalta enquanto se encontra na penúria, que o leva a reflectir na inútil hipocrasia que o cerca e da qual fazia parte.

Um livro verdadeiramente vanguardista para a sua época, quer na escrita, quer no conteúdo.


Pertence segundo aos queirosianos a uma segunda fase do autor, do pessimismo. Uma crítica social do final do século XIX que denuncia uma sociedade estagnada e entorpecida, o diletantismo (explorado a fundo na magnum opus queirosiana Os Maias), o clero corrupto, a beatice exagerada, a falsa caridade, e a ironia de tudo isto. Expõe vícios, luxúria, ganância, abusos de poder e hipocrisias, permanecendo por isso assustadoramente actual.


Um clássico como ‘A Relíquia é-o porque “nunca deixou de dizer o que tem para dizer” (citando Italo Calvino).


4.3

Rating: 4.5 out of 5.

A Relíquia (1887)

288 pág., Colecção BIS, LeYa
Reliquia 1887 Livro

Cem anos de solidão — Gabriel García Márquez

crítica

Círculo sem fim

Foi de facto inesquecível embarcar nesta incursão pelo realismo mágico de Gabriel García Márquez, pelas paisagens lusciosas colombianas e toda a mística que cerca Macondo e os incomparáveis e inolvidáveis Buendía.

Cem Anos de Solidão‘ é um livro repleto e carregado de símbolos: os insectos, as premonições e os manuscritos indecifráveis que contiveram em si toda a verdade ao longo dos cem duros anos que condenaram a família à solidão.

” (…) a história da família era uma engrenagem de repetições irreparáveis, uma roda giratória que teria continuado dando voltas até a eternidade, se não fosse o desgaste progressivo e irremediável do eixo.

— Pilar Ternera

(Li este livro metade na língua de Camões e metade na de Cervantes, pelo que optei escrever a crítica na primogénita, embora ciente que a leitura em castellano contribuiu bastante para a percepção da verdadeira essência de expressões e vocábulos latinamericanos tradicionais e intraduzíveis).


4.5

Rating: 4.5 out of 5.

Cem Anos de Solidão (1967)

384 pág., Dom Quixote

Jesusalém — Mia Couto

crítica

No início é nos dada a conhecer a inusitada família Ventura e um não-lugar no interior de África onde coabitam que nem eremitas, mantendo apenas proximidade com o mundo através do tio Aproximado. Desenvolve-se então uma história construída numa narrativa simples sobre o remorso e o esquecimento.

Jesusalém’ é um refúgio para almas perdidas que se encontram em pequenas coisas e assim fingem afastar-se do passado.

Mia Couto é um contador de histórias competente e extremamente criativo. A multiplicidade de jogos de palavras, neologismos e incorporação de um qualquer criolo comprova isso mesmo, espelhado no próprio título da obra: ‘Jesusalém’. Uma justaposição curiosa que resume numa palavra a ideia a transmitir de confinamento e distância.

É um livro que merece ser escrevinhado, sublinhado, realçado. Repleto de frases memoráveis e enquadrado por poemas fantásticos de Sophia de Mello Breyner.


3.6

Rating: 3.5 out of 5.

Jesusalém (2012)

296 pág., Caminho

A Sombra do Vento — Carlos Ruiz Zafón

crítica

Um livro dentro de um livro

Quando Daniel é levado pelo seu pai ao Cemitério dos Livros Esquecido, não imagina o quanto a sua própria vida se irá relacionar e enraízar no enredo do livro peculiar que, de entre milhares nesse santuário de páginas e páginas abandonadas, escolhe e devora num fôlego (ou terá sido ele o escolhido pelo livro?).

Daniel passa a viver assombrado por A Sombra do Vento’, e consequentemente apercebe-se que também ele pertence àquela história, decidindo investigá-la e ao seu curioso e oculto autor Julián Carax encontrando pelo caminho personagens marcantes como Núria Monfort, Barceló ou o excêntrico Fermín Romero de Torres, que através do seus comentários eruditos e hilariantes arranca um sorriso do leitor.

A influência pessoal de um escritor na sua obra, bem como a sua dicotomia com o leitor é amplamente explorada neste livro que leva um livro dentro.

” A sua alma está nas suas histórias. Numa ocasião perguntei-lhe em quem se inspirava para criar as suas personagens e ele respondeu-me que em ninguém. Que todas as personagens eram ele próprio.

— Daniel

Uma aventura pelos meandros de Barcelona do pós-guerra, carregada de medo, suspeita e vigia constante do regime fascista de Franco, perdendo-se infelizmente em demasia na vida de Carax e na obsessão do seu paradeiro. Com suspense ao virar da página, é uma narrativa bem construída, pese embora o seu ponto mais favorável são os personagens inesquecíveis criados por Zafón que vagueiam pela cidade.

Um livro que nos marca, reflectindo o quanto um livro pode mudar as nossas vidas, a começar por ele próprio.


4.0

Rating: 4 out of 5.

A Sombra do Vento (2001)

512 pág., Planeta

Livro — José Luís Peixoto

crítica

País emigrante

Livro revela que José Luís Peixoto é um grande escritor do panorama nacional e internacional. O seu estilo é inconfundível com diferentes ritmos narrativos, frases curtas (simples e simultaneamente complexas), múltiplos assíndetos, que acrescentam, através de vírgulas, sensações, inúmeras sensações, um emaranhado de sensações do quotidiano, magistral e unicamente descritas por José Luís Peixoto.

Todo o ‘Livro‘ tem uma estrutura circular com duas partes distintas, a primeira mais aliciante e recheada com as tais inconfundíveis sensações que valorizam muito este livro, a segunda é original e interessante, no entanto, por vezes despropositada e dispersa.

Em realidade, fiquei mais adepto do escritor do que da obra concreta (Livro livro e livro personagem: um trocadilho cíclico), embora as personagens (Ilídio, Adelaide, Josué, velha Lubélia, Cosme, para citar os mais marcantes) se tornaram memoráveis.

Existe o que quero dizer e existe a minha voz. Nem sempre o tom da minha voz corresponde ao que quero dizer e, mesmo assim, molda-o tanto como as palavras, indexadas em dicionários que já estavam impressos antes de eu nascer. (…) A minha voz é como este livro: capa, papel, peso medido em gramas. O que quero dizer também é como este livro: mundo subjectivo, existente e inexistente, sugerido pelo significado das palavras.

— página 235

Em suma, o contexto da imigração portuguesa e da descrição da transição provinciana e rural portuguesa com os seus etnográficos detalhes, costumes e tradições ao ambiente urbano francês conferiu ao livro um carácter de bastante interesse.


4.0

Rating: 4 out of 5.

Livro (2010)

246 pág., Quetzal