Animal Farm — George Orwell

crítica

Alegoria humana

“Four legs good, two legs bad”

Aritmética básica na Manor Farm, renomeada Animal Farm segundo os preceitos do Animalismo.

Um paradoxo em si, dado que vários dos animais de “classe mais operária” como as aves, tais como galinhas, patos, gansos, encaixam no dogma de duas patas. O reflexo do draconianismo dos regimes comunistas totalitários.

Uma fábula política, descomplicada porém excepcional.



Uma crítica ao Homem, à sua (des)organização política e um grito de alerta para a demagogia e os crimes que esta motivou em vários regimes do século XX.


Inovador para a sua época, Animal Farm mantém-se surpreendentemente actual por muito tempo que passe, pois os vícios, defeitos e vicissitudes humanos são para sempre.

É essa crítica de costumes e de ideologias vazias e contraditórias que Orwell elabora com mestria e com excelente eloquência (como aliás fez também magistralmente em 1984 com os respectivos totalitarismo e doublethink).

Um clássico curto, obrigatório, que se lê de rajada e com a promessa de repetição. Pelo menos para aprendermos com os erros da História e para que os porcos não sejam confundidos com homens.


Rating: 4.5 out of 5.

4.4

Quinta dos Animais [Animal Farm] (1945). Cavalo de Ferro. 176 pág.

Após entrar para o domínio público e “libertar” os direitos de autor, várias editoras (re)lançaram em 2021 as obras imperdíveis de George Orwell. Sugestão das melhores edições: Antígona, Cavalo de Ferro (link Wook), Livros do Brasil, Relógio de Água (versão novela gráfica, link Bertrand).

Hábitos Atómicos — James Clear

crítica

Abrindo alas para uma estante menos habitual no blog, deixamo-nos alavancar pelas referências e adágios em produtividade e comportamento humano, num livro sucinto e despretencioso catalogado como não-ficção. Esperemos que as máximas e leis que enuncia para a construção e desenvolvimento de hábitos vos ajude como aqui o fez a desenferrujar a escrita para revisitar mais calhamaços.


Insiste, resiste, persiste

Pese embora pareça ouvirmos esta frase ao longe nos corredores do ginásio, esta máxima pronunciada tão frequentemente por treinadores, coaches e personal trainers constitui a tese central deste livro. A consistência é o que nos leva ao resultado. Tornarmo-nos cada dia 1% melhor. Pequenas mudanças, grandes resultados.

Com uma escrita limpa e pragmática, James Clear estrutura o processo de construção dos hábitos empilhado em quatro passos para o comportamento humano: i) deixa, ii) anseio, iii) resposta e iv) recompensa e alicerçado em quatro leis fundamentais: tornar o hábito i) evidente, ii) atractivo, iii) fácil e iv) gratificante. As três primeiras fazem com que o hábito emerja e aconteça, o última com que este continue e não desapareça. Para isto são nos enunciadas ‘leis’ e tácticas, i.e. a regra dos dois minutos, os caracóis de ouro e o empilhamento de hábitos.

sem enveredar pelo caminho e pedante dos livros do género em busca incessante pela produtividade porque sim ou de auto-ajuda, que prometem oferecer uma kriptonite para a procrastinação e uma panaceia para a eficácia.

Escrito num modelo usual nos livros não-ficção: exemplo/parábola > problema > solução > enquadramento teórico, Atomic Habits: An Easy & Proven Way to Build Good Habits & Break Bad Ones retém o leitor com espécimes de outros humanos como nós, mais ou menos bem sucedidos, que confiam nos hábitos para chegar ao sucesso com consistência, estremando-se assim amadores de profissionais.

Revelando um sólido conhecimento da psicologia e do comportamento humano e o que nos faz dar o ‘click’, o autor entrega um resultado com um forte pendor prático, transmissível, sem enveredar pelo caminho e pedante dos livros do género em busca incessante pela produtividade porque sim ou de auto-ajuda, que prometem oferecer uma kriptonite para a procrastinação e uma panaceia para a eficácia.

“É frequente cairmos num ciclo de tudo ou nada com os nossos hábitos. O problema não é escorregar uma vez, o problema é pensar que, se não somos capazes de fazer uma coisa de uma forma perfeita, então não devemos fazê-la de todo.”

– cap. 4ª lei: tornar o hábito gratificante, p. 197

Logo após fazer com que capa e contracapa se encontrassem pelo término do livro, o ímpeto imediato foi fazer deslizar para trás a tampa do portátil e dar ao dedo para finalizar esta análise. Afinal, o propósito e resultado do livro foi atingido. Se esta pequena mudança levará a maiores resultados, cabe ao tempo o veredicto.


4.0

Rating: 4 out of 5.

Hábitos Atómicos [2017]. Lua de Papel. 304 pág.

#geraçãodeleitores O Alquimista — Paulo Coelho

geraçãodeleitores

Neste episódio, o recém aniversariante Rodrigo traz-nos um volume sobejamente conhecido dentro e além fronteiras, ou não estaríamos a falar do livro lusófono mais traduzido de sempre, bem como o maior bestseller. Como tudo o que esse atributo descreve, reúne consenso como livro favorito por uns e, simultaneamente, dissonâncias por ser considerado uma mera amálgama de aforismos por outros.

Rodrigo, especialista em converter cliques em clientes e em avivar invariavelmente um sorriso na cara dos seus amigos, sempre procurou respostas para questões da sociedade, não se conformando com refutações que a polarizam.

Apresentando um registo menos convencional no Calhamaço, abrimos os horizontes para compreender o que faz esta obra figurar nas listas do livros que mais marcaram os seus leitores, ao fim e ao cabo a intenção precisa da rubrica Geração de Leitores. Só assim ouvimos outras vozes e partilhamos literatura.



A alquimia refere-se à ciência oculta medieval que se dedica a descobrir o elixir da vida e a pedra filosofal, permitindo transformar qualquer metal em Ouro. Paulo Coelho não poderia ter escolhido melhor nome para este conto, detentor do recorde do Guinness para o livro mais traduzido de um autor vivo.

Para fazer jus à sua escrita, deixo de fora deste comentário palavras francesas e construções frásicas complexas, pois o próprio conto parece ser redigido para crianças, pela sua escrita informal e infantil. Desta forma, somos convidados a recuar no tempo e a recuperar os nossos sonhos de infância, e, completamente desarmados, compreender os princípios básicos da busca da felicidade – ou da pedra filosofal.

Viajando com Santiago, um pastor andaluz que larga a sua casa em busca de um destino que lhe foi apresentado num sonho, desejamos entender de que maneira este conseguirá ultrapassar todas as peripécias que lhe vão surgindo para chegar ao tão aguardado final – pois é esta a nossa expectativa adulta: há uma Viagem, terá por certo que haver um destino concreto. Existem ao longo do conto infortúnios, mas será preciso vencê-los para chegar ao destino final. Santiago fará amizades, mas será preciso deixá-las para chegar ao destino final.

Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro.

No final da leitura, um coração que se foi tornando infantil saberá um pouco melhor de que destino se fala. Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro. Entendemos que, como Santiago, estamos também nós num processo de alquimia, e que também nós nos encontramos nesta Viagem, e que assim será até ao último dia. O Alquimista confere-nos a tranquilidade de saber que a Viagem está longe de estar concluída, e que deve ser assumida de acordo com a nossa “Lenda Pessoal”. Se assim for, estaremos um passo mais perto de nos transformarmos em Ouro. 

“Eles não sabem, nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança”. 

“Pedra Filosofal”, António Gedeão



O Alquimista. 192 pág. 1988

Editado em Portugal pela Pergaminho e 11×17.

* Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores Princípio de Karenina — Afonso Cruz

geraçãodeleitores

Neste segundo episódio #geraçãodeleitores, convidámos o nosso caro amigo Afonso, vencedor consagrado de inúmeros Movembers, data scientist fã de esmiuçar as margens dos retalhistas em busca do melhor desconto, sportinguista incurável e deslumbrado pela poesia de Daniel Faria e Pessoa.

Apresenta-nos Afonso Cruz, um one-man band, que toca literalmente em quase todos os ofícios artísticos durante a sua carreira: escritor, ilustrador, realizador, músico. Conhecido pelas suas alegorias e memoráveis aforismos, é sem dúvida um autor a ter debaixo de olho e na senda de prestigiados prémios em nome da literatura portuguesa e lusófona.



Quando começam as nossas histórias? Esta é mais uma das perguntas inquietantes que Afonso Cruz nos coloca na comovente carta que um pai escreve à sua filha, onde lhe conta as suas origens e o que foi aprendendo ao longo da vida, entre lições e arrependimentos.

Narrado na primeira pessoa e carregado de intimidade, este livro fala-nos da importância de valorizarmos o que nos rodeia, desde a família aos amigos, de nos mostramos disponíveis e abertos para o mundo, para o amor ao próximo (física ou emocionalmente) e para o abstrato conceito da felicidade.

À semelhança de outras obras do escritor, Princípio de Karenina surge também como uma espécie de exame de consciência que, caso o permitamos, nos dá material suficiente para colocarmos a nossa própria vida em perspetiva.

Ao longo do seu trabalho literário, o autor defende que, mesmo que o não consigamos identificar, acontecimentos que possamos reconhecer como independentes uns dos outros se encontram unidos por fios. Numa escala menor, mas como forma de reforçar o seu argumento, Afonso cria ligações brilhantes entre os seus livros de modo a tornar as suas próprias narrativas mais realistas, característica que reforça este convite do escritor à introspecção.

Ao tentar responder à questão que inicia este comentário, este pai afirma que “Tudo começa a todo o instante (…) todos os lugares são centros e todos os instantes são começos”.

Da minha parte, apenas me resta dizer que nenhum instante é tarde para começar a ler Afonso Cruz.



Princípio de Karenina. 168 pág. 2018

Livro editado em Portugal pela Companhia das Letras, uma chancela da Penguin Random House.

*Esta opinião faz parte da rubrica Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores O Estrangeiro — Albert Camus

geraçãodeleitores

A cortar a fita vermelha da nossa viçosa rubrica #geraçãodeleitores, que abre a porta a outras perspectivas literárias de convidados das gerações mais jovens, está Catarina, designer visual de 28 anos vivendo actualmente em Bruxelas, na Bélgica.

Portuense de gema, amante de ilustração, cinema e literatura, sempre sonhou vir a ser devoradora de queijo profissional. Desde cedo, impulsionada pelo seu pai, descobriu as intrigantes narrativas de autores do além-mar, entre eles de entusiasmantes autores como Albert Camus: o escritor franco-argelino que tem formado gerações de leitores atentos e pensantes.

Deixemos o brilhante laureado Nobel que cimentou o absurdismo na filosofia e na literatura ser o nosso maître de cérémonie da rúbrica #geraçãodeleitores!



Será Mersault julgado por matar um árabe ou será ele julgado e condenado por não ter chorado no funeral da sua mãe?

O que parece ao leitor um capítulo de frívola desimportância narrativa, vem a revelar-se a chave para a compreensão do desfecho trágico da personagem. Apresentado ao tribunal como um Monstro que demonstra sinais nítidos de insensibilidade, Mersault – assim apresentado por Camus – vive o episódio da morte da mãe com aparente displicência. Apresenta-se em frente ao caixão sem emoção e bebe tranquilamente um café com leite. Apresenta-se atrasado no desfile fúnebre sendo a sua única inquietação o calor insuportável que se faz sentir durante esse mês.

A frase emblemática do livro “A culpa deve ser do Sol” – dita por Mersault em tribunal durante o seu julgamento – não se perde nunca da memória de quem o lê.

Em O Estrangeiro, o leitor experimenta a metáfora do absurdo e o misantropismo, um magnum opus do aclamado escritor prémio Nobel de Literatura, Albert Camus, que morre tragicamente em 1960 num acidente de automóvel com o sobrinho do editor Gallimard. 

Talvez todos sejamos um pouco ‘Estrangeiros’ neste mundo cada vez mais impessoal e cruel.



O Estrangeiro [L’étranger]. 88 pág. 1942

Livro editado pelas Éditions Gallimard em França e pela Livros do Brasil em Portugal.

* Esta opinião faz parte da rubrica #geraçãodeleitores.

As Vinhas da Ira — John Steinbeck

crítica

Poeira de humildade

Após o aniquilador primeiro conflito à escala planetária ter deixado os seus efeitos de razia e destruição, que precedeu uma crise sem precedentes e um fenómeno meteorológico e geológico adverso, as sociedades mundiais e particularmente a americana nunca mais voltaram ao modo de vida a que se habituaram.

O livro escrito no período interbellum, entre as duas grandes guerras, olha para os efeitos de todos esses fenómenos que marcaram a atribulada primeira metade do século XX. Colocando a lupa sob o território norte-americano com um tom realista e ríspido, o laureado Nobel John Steinbeck deixa como legado um testemunho histórico com estes acontecimentos ainda frescos, sem necessitar de olhar demasiado em retrospectiva. 

Antes da destruição que teria lugar no Velho Continente daí a poucos meses depois da sua publicação, o autor mostrou a realidade do seu país, pujante e esperançoso Estados Unidos da América. Nos anos 1930, dezenas de milhares de famílias americanas viram-se forçadas a deixar quase todo o património e arrancar rumo ao desconhecido: a prometida terra fértil da Califórnia. 

Neste livro, Steinbeck consegue com a sua escrita simples e incisiva esboçar um relato simultaneamente lírico e cru dos efeitos devastadores da Grande Depressão agravada pelo fenómeno ímpar do Dust Bowl, levado pela seca extrema, ventos fortes, empobrecimento do solo e agricultura intensiva. Com a idealização dos Joad, uma família famigerada na literatura mundial que irá sofrer todas as privações e mais algumas na sua deslocação do Oklahoma rural para a Califórnia pulsante, o autor sabe como não deixar o leitor indiferente. Como a comunidade e a sociedade em redor, todo e cada um sairá da vivência de crise simultaneamente dilacerado e mais forte.  

Concluindo, é estupendo como a prosa poética de Steinbeck com uma dose de vernáculo e slang do Southwest americano à mistura enriquece enormemente a crónica do êxodo familiar dos Joad, tornando-a familiar e autêntica. ‘As Vinhas da Ira’ [The Grapes of Wrath] (também adaptado ao cinema logo no ano seguinte à publicação pelo oscarizado John Ford, com Henry Fonda como Tom Joad) é um testemunho realista desses “calos” que ficam para a vida. Um livro que toca na ferida e deixa-a cicatrizar.


4.2

Rating: 4 out of 5.

As Vinhas da Ira (1939)

[The Grapes of Wrath], 576 pág., Livros do Brasil

Metamorfose — Franz Kafka

crítica

Carapaças Sociais

Um certo dia, o diligente trabalhador e exemplar cidadão Gregor Samsa acorda subitamente de um estranho sonho para uma realidade mais estranha ainda. Deixemo-nos ambientar pela escrita do próprio autor, que nos presenteia com uma das citações iniciais mais célebres da literatura universal:

“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto”


O ambiente absurdo e aterrador está montado: este inocente jovem adulto vê-se, de um dia para o outro, encapsulado numa medonha carapaça de insecto sem ter tido no incidente qualquer influência ou responsabilidade imputável. O sentimento de impotência e alienação na sociedade moderna, de base individualista e capitalista, é um tema caro a Franz Kafka, criado no Império Austro-Húngaro do virar do século XX. A título de curiosidade, Kafka, inseguro das suas criações, pedira a um amigo próximo para queimar todos os seus escritos após o seu óbito, ordem que foi felizmente ignorada pelo receptor que permitiu assim aos leitores desde há um século descobrir a obra do autor germânico. O conceito “kafkaesco” – ele mesmo -, não teria sido criado, ilustrando tão marcadamente o labirinto da burocracia (‘O Castelo’), a impotência do homem singular perante o sistema (‘O Processo’) e a alienação social. 

Colocando a novela em contexto, escrita em 1912 e publicada volvidos três anos, é possível traçar uma causalidade com os efeitos da Revolução Industrial que pulsou a toda a força no século anterior. As condições de vida e laborais precárias nas fábricas e comércio, a conquista da ciência sobre os dogmas religiosos, o sentimento nacionalista, as conquistas coloniais e imperiais das nações europeias, a desconfiança pelo outro e pelas nações estrangeiras, vistas como rivais e que culminariam aliás na primeira grande guerra à escala global, são factores que ajudam a compreender a concepção deste curto livro (lido de um trago, num só dia).

Sem qualquer preâmbulo ou demora, o nosso protagonista é inocentemente encarcerado no corpo de ‘uma besta’, um “monstruoso insecto”. É levantada então a milenar questão que remonta à antiguidade clássica da dualidade do corpo-alma, ser que sente-ser pensante. Gregor, apesar da sua incapacidade de comunicar e inadaptado ao seu novo corpo, mantém a mesma acuidade mental, raciocínio, desejos e sentimentos. Perplexa com a trágica metamorfose física e morfológica, espelhada na transformação em insecto, a família, constituída pelos pais ociosos e a irmã carinhosa, dá lugar à metamorfose da sua própria estrutura familiar, espelhada pelo seu distanciamento e até repugnância. Após ter sustentado a título exclusivo a sua família com um emprego como vendedor ambulante que lhe era desmotivador, Gregor é imediatamente sacudido como uma mosca parasitária (shoo, shoo!), apartado e trancado no seu quarto. Os três familiares saem finalmente da dependência financeira e voltam a ser produtivos, ignorando todos os esforços do comerciante nos últimos anos. *Spoiler que não é decerto uma novidade: Gregor acaba por definhar no seu quarto após lesões que sofre ao ser enxotado pelo seu pai e morre solitário. Claramente, o título não é escolhido ao acaso. Incita à questão sobre qual será a verdadeira metamorfose. A biologicamente descrita e acidental transformação zoófila de humano para insecto? Ou por outro lado, a alteração dos comportamentos sociais, personalizados pela família de Gregor? Na sua análise à obra, o autor russo Vladimir Nabokov (‘Lolita’) notou que:

“Gregor é um ser humano disfarçado de insecto; a sua família insectos disfarçados de pessoas”.

— Vladimir Nabokov

Toda a trama é outrossim uma crítica à organização da sociedade moderna, dando clara primazia à produtividade e à optimização: produzir mais por menos, sem ser dada importância ao desenvolvimento pessoal. O papel do trabalho é também questionado a par com a compaixão. Gregor, consistentemente cumpridor sem nunca na sua vida profissional ter deixado o alarme tocar sem se levantar para ir trabalhar, vê-se impossibilitado de o fazer pela primeira vez. Mais do que a sua condição desumana, importa cumprir com as responsabilidades. Esta inquietação é, de maneira irónica, expressada nos seus pensamentos como fulcral. Bem presente quando Gregor, na profética manhã da metamorfose, testa as águas para ver se consegue apressar-se para o comboio, apresentar-se ao trabalho para cumprir com as suas obrigações, minimizar os constrangimentos que certamente causara aos seus superiores:

“Se eles se assustassem, Gregor não teria mais responsabilidades e poderia descansar em paz. Mas se eles levassem tudo com calma, ele também não tinha motivos para se empolgar e, se ele se apressasse, poderia estar às oito horas na estação.”


Dependendo da reacção alheia, Gregor iria definir o seu curso de acção. Esta curta novela tem ainda espaço para explorar a projecção do eu, pelos outros e consequentemente pelo próprio, sendo que essa receptividade tem o poder de influenciar os nossos actos. Kafka reflecte sobre a importância dada à percepção do outro, ao que os outros pensam. Uma reflexão que nunca teve tanta relevância como agora, na era das redes sociais e da iminente necessidade de aprovação e aceitação social.

Assim, o sentimento de alienação é brilhantemente transmitido através desta parábola de transformação animalesca. A mutação para um insecto acaba por ser uma alegoria aos acontecimentos imprevistos e aos infortúnios que podemos ver ocorrer nas nossas vidas e como cada um e a sociedade em volta recebe tal acontecimento. Mais profundamente ainda, é possível comparar com incapacidade, com as doenças mentais e demências ou o envelhecimento do qual nenhum de nós poderá escapar. Kafka alerta-nos para a ameaça da falta de empatia e a falta de humanização, desumanizando.


4.3

Rating: 4.5 out of 5.


Metamorfose (1915)

[Die Verwandlung], 80 pág, Editores BIS / 11×17 / Editorial Presença

Prisioneiros da Geografia — Tim Marshall

crítica

Manobrar a desconfiança do “outro”

Olhar para um mapa-mundi (frequentemente representado de forma desproporcional à escala de Mercator que tende a sobreavaliar o mundo Ocidental), sempre me suscitou o maior fascínio. Naturalmente, após percorrer demoradamente as mais variadas linhas que constituem um mapa, surgiam a dada altura questões sobre as suas fronteiras ou divisões administrativas. Porque é que algumas seguem o curso natural dos rios e cordilheiras enquanto outras traçam verdadeiras rectas? Porque é que algumas regiões têm maior concentração de países de pequena escala enquanto outras têm nações que se estendem a larga escala por todo o território?

Prisioneiros da Geografia é indicado para quem partilha estas interrogações e aprecia aventurar-se no vasto e intrincado mundo da ciência que procura explicar como se governa o mundo, – a geopolítica – e, paralelamente, como este se relaciona – a diplomacia. Um livro com o desígnio de explicar a compartimentação do planeta Terra será sempre sujeito a crítica, por tocar apenas ao de leve em assuntos deveras complexos e multifacetados, por privilegiar determinadas áreas, ou ainda por adoptar um olhar mais ocidentalizado. Contudo, Marshall cumpre o desafio de forma muito competente e ultrapassa estes obstáculos epistemológicos. O facto de o conseguir de forma sintética é também bastante abonatório. Embora considerados o cânone da disciplina diplomática, confesso ter sempre evitado os grandes tomos de Henry Kissinger. 

Produto final de viagens pessoais e profissionais de Tim Marshall enquanto jornalista a vários pontos do globo (cobrindo os conflitos na Jugoslávia, Kosovo, Afeganistão, Iraque, Líbano, Síria e Israel com a BBC e Sky News), este livro está ‘arrumado’ e convenientemente organizado em dez grandes mapas que procuram explicar o porquê da organização do nosso planeta – Rússia, China, EUA, Europa Ocidental, África, Médio Oriente, Índia e Paquistão, Coreia e Japão, América Latina, Ártico. Marshall apresenta em cada capítulo, que versa sobre um dos mapas, um estudo estratégico semelhante aos elaborados por consultores de gestão a determinados mercados, oferecendo uma análise meticulosa dos dois lados da barricada que explora as fragilidades e forças das principais potências mundiais. Ao efectuar esse exercício, não se esquece igualmente de oferecer um olhar curioso à interligação dos referidos mapas no sistema internacional. Como indicado pelo título, o autor segue a teoria determinista da geografia e recorda que dela somos prisioneiros. O determinismo geográfico contemporâneo foi sobejamente desenvolvido por Jared Diamond no seu consagrado Guns, Germs and Steel, que aponta o dedo a factores naturais, climáticos e meteorológicos como determinantes para a distribuição geográfica das sociedades e a própria evolução humana.


“Desde o grande principado de Moscovo, pasando por Pedro, o Grande, Stalin e agora Putin, cada líder russo tem sido confrontado com os mesmos problemas. Não importa se a ideologia de quem detém o poder é czarista, comunista ou aproximada do capitalismo – os portos continuam a gelar e a planície do norte Europeu continua plana.”

— capítulo Rússia, p. 40

Neste livro conciso, aprendi especialmente sobre a Rússia e o que tira o sono a Putin – existirem montanhas somente nos Cárpatos -, a rivalidade entre a Índia e o Paquistão sem resolução à vista, as ambições do dragão chinês nos vários continentes, a criação arbitrária dos estados-nação no Médio Oriente, desenhados a régua e esquadro pelas potências ocidentais sem conhecimento geográfico da região e, por fim, a série de características naturais favoráveis com que foram brindados os norte americanos, o que ajudou em larga escala a garantir o seu papel como hegemon mundial.

Os endowments geográficos determinaram na história a prosperidade das nações. A desconfiança do “outro” propiciou conflitos, guerras e a luta pela supremacia e pelo acesso a determinados recursos. Apesar do encurtamento de distâncias e o acesso a regiões outrora inóspitas pelo meio do progresso tecnológico, a geopolítica foi e será sempre moldada pela geografia: os montes e vales, os recursos hídricos, rios navegáveis, portos naturais e climas propícios ao desenvolvimento humano. Somos e seremos subservientes à geografia. Já é tempo de a sabermos usar a nosso favor e de compartilharmos o inestimável território terrestre com os demais. 


4.2

Rating: 4 out of 5.


Prisioneiros da Geografia (2016)

[Prisoners of Geography], 255 pág., Editora Desassossego

Manifesto Anti-Dantas e por Extenso — José de Almada Negreiros

crítica

Bofetada ao marasmo

A liberdade criativa da Arte simbolizada num Manifesto que não poupa em nenhuma injúria ou salutar bofetada para despertar um País do seu marasmo político, social, literário e cultural.

Almada Negreiros, com um tom mordaz, pilhérico, burlesco, alveja Júlio Dantas e toda a sua geração acomodada e “de descendência linfática”, alertando para a hipocrisia de uma geração de intelectuais desperdiçada em pleno clima europeu futurista e de regeneração artística.

O seu desígnio não poderia ter melhor clarificação que o exposto na própria publicação:

“Almada é a trombeta do cortejo. Salta à frente, com este estridente manifesto literário, em que o escândalo rebenta por todas as linhas, salta à frente com teatralidade dos seus gestos, dos seus gritos e dos seus atentados ao gosto e aos hábitos do senhor-toda-a-gente, hábitos de trajar, de pensar, de fazer versos, de ser funcionário público e de ter descendência linfática.”


Lido por Mário Viegas

Assim, ‘Pim!’ talvez Portugal se desperte da sua longa modorra e deixe de valorizar “caducos literatos de graves ademanes senis e de frases brunidas, medidas pelo diapasão dos clássicos que o tempo ressequiu, foram considerados os templos da Literatura e da Arte consagrada e definitiva”.

Manifesto por extenso – e por MAIÚSCULAS-, de uma ousadia sem precedente, entreposto no movimento modernista e reformador de Orpheu, que indubitavelmente deixou a sua marca indelével na cultura portuguesa.

— Recensão composta por ocasião da celebração dos cinquenta anos da morte de José de Almada Negreiros (1970-2020) —

“UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D’INDIGENTES, D’INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PÓDE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!”


4

Rating: 4 out of 5.


Manifesto Anti-Dantas e por Extenso

128 pág., Assírio e Alvim

To Kill a Mockingbird — Harper Lee

crítica

Inerentemente Respeitosos

A diversidade étnica e racial norte-americana vista pelo olhar de uma criança, que naturalmente aceita essa diversidade. Um debate e processo criminal arcaicos, porém surpreendentemente ainda actual.
Deixemo-nos guiar por este olhar respeitador da curiosa Scout (POV do romance) enquanto segue os passos do seu pai Atticus Finch, talvez o advogado mais célebre da literatura mundial.


“I think there is just one kind of folks. Folks.”

— Jean Louise “Scout” Finch

Seguramente, este é um dos livros no mundo mais dissecados para reflexão crítica, análise de temas e da moral e leitura semiótica. Tal deve-se ao facto de constituir parte da leitura obrigatória no currículo dos Estados Unidos da América, com infindos recursos interessantes disponíveis online. Que a sua disseminação em massa não seja um factor desencorajador da leitura. Pelo contrário, ao ser narrado sem preconceito permite-nos apreender as divisões sociais que precederam a Guerra Civil Americana e que moldaram a “Star-Spangled Banner”.


3.7

Rating: 3.5 out of 5.