Harry Potter and the Half-Blood Prince — J.K. Rowling

crítica

*4.3

Fragmentos da alma


O sexto volume da saga Harry Potter mergulha os leitores ainda mais profundamente no universo mágico criado por J.K. Rowling. Com uma mistura de humor, tragédia e revelações sobre o passado das personagens, Harry Potter and the Half-Blood Prince é um dos livros mais densos e cativantes da série, enquanto mais sombrio e introspectivo. A trama, repleta de episódios inesquecíveis e uma exploração emocional mais palvável, prepara habilmente o palco para o grandioso desfecho de ‘Deathly Hallows’.

J.K. Rowling escreveu a saga Harry Potter durante os anos 1990 e início dos 2000, inspirando-se em parte na sua experiência de vida em Portugal. Este contexto reflete-se nas nuances culturais e filosóficas presentes na série. Harry Potter explora ao longo dos sete volumes temas como a saudade, o amor, a amizade e as dinâmicas de poder. 

A narrativa começa com uma sensação de ameaça iminente, com o regresso definitivo de Voldemort e a crescente influência dos Death Eaters. Enquanto Harry lida com a perda de Sirius Black, Dumbledore torna-se uma figura mais central na história, guiando-o através de memórias que revelam o passado de Tom Riddle. A introdução dos horcruxes (objetos que contêm fragmentos da alma de Voldemort) é um ponto-chave do enredo, explorando a fragilidade da alma humana e as consequências de ações desprovidas de amor e empatia. O professor Slughorn traz um lado cómico a este livro, ao mesmo tempo que desempenha um papel crucial na trama, enquanto Severus Snape, sem dúvida o personagem melhor desenvolvido em todo o Harry Potter, tem o seu perfil caracterizado com toda a ambiguidade que o define. 

Harry Potter and the Half-Blood Prince explora temas como a natureza do mal, amor, sacrifício e complexidades da alma humana. A figura de Tom Riddle, marcada por uma infância desprovida de carinho sugere um abismo interno causado pela ausência de amor e revela um retrato profundo do impacto das circunstâncias na formação do caráter. A metáfora dos horcruxes, que fragmentam a alma, ressoa com a tese de Fernando Pessoa sobre a fragmentação do eu.O ritmo um pouco mais lento em certos momentos é compensado pelas revelações cruciais e pelo desenvolvimento dos personagens. O sexto volume reafirma a maestria de Rowling no género de literatura juvenil e combina fantasia com questões humanas universais, preparando o terreno para o clímax épico de Deathly Hallows.

História de Quem Vai e de Quem Fica — Elena Ferrante

crítica

*4.7

A permanência indelével da infância

‘História de Quem Vai e de Quem Fica’ representa o terceiro volume da série napolitana de Elena Ferrante, uma epopeia literária que cativou leitores em todo o mundo. Desde o seu início, esta série tem sido acompanhada de perto, especialmente após sua adaptação televisiva pela HBO/Rai, que se revelou, surpreendentemente, superior ao material original. Adicionalmente, a aura de mistério em torno da autora napolitana, cuja identidade permanece desconhecida, acrescenta um fascínio adicional à experiência de leitura deste livro, que se sustenta por seus próprios méritos.

Elena Ferrante é nossa cicerone pela Itália do século XX, explorando as intricadas relações humanas entre mudanças políticas e sociais da época. A ambientação histórica é rica em detalhes, com as tensões entre fascistas e comunistas, a influência da Camorra e os cenários idílicos de Ischia contrastando com a imponência do Vesúvio, fornecendo um pano de fundo dinâmico e envolvente para a narrativa.

A narrativa se desenrola em dualidade, refletindo não apenas as contradições da sociedade italiana da época, mas também as complexidades das relações humanas. A marca indelével da infância é um tema recorrente, adicionando uma camada de profundidade emocional à obra. Ferrante captura magistralmente a nostalgia do tempo passado e dos momentos perdidos, bem como as inquietações e desejos que moldam a personalidade de seus personagens.

O livro é construído sobre um discurso direto livre distintivo e irrepreensível, revelando-se como um fluxo de consciência à la Woolf que Ferrante domina com maestria. Os diálogos curtos e cortantes estão repletos de silêncios, transmitindo não apenas o que é dito, mas também o que não é dito. As personagens, especialmente Lenù e Lila, são construídas com uma complexidade cativante, refletindo os contrastes e as dualidades que permeiam suas vidas.

‘História de quem vai e de quem fica’ transcende os limites da narrativa literária, oferecendo uma experiência de leitura imersiva e emocionante. Embora a série televisiva tenha seus méritos, o livro destaca-se por sua escrita habilidosa e pela capacidade de Ferrante de capturar a essência da vida e das relações humanas com uma honestidade e profundidade impressionantes. Esta é uma leitura indispensável para os fãs da série napolitana e para qualquer leitor que aprecie uma narrativa complexa e introspectiva.

The Armour of Light — Ken Follett

crítica

* 2.4

Indústria e guerra numa armadura frágil

A promessa de um épico histórico que explora a Revolução Industrial e os seus efeitos sociais e políticos era a premissa de The Armour of Light. Como parte da famosa série Kingsbridge, o livro tinha potencial para expandir o célebre universo situado na fictícia vila de Kingsbridge e criado por Ken Follett em Pillars of the Earth. Contudo, o entusiasmo inicial deu lugar à frustração com uma narrativa que se arrasta, personagens mal desenvolvidos e uma abordagem que simplifica em demasia os acontecimentos históricos.

Ken Follett é um autor britânico amplamente conhecido pelos seus thrillers e épicos históricos, tendo atingido o auge do sucesso com Pillars of the Earth. Com The Armour of Light, Follett tenta transportar o leitor para o período da Revolução Industrial, retratando as mudanças sociais e económicas que marcaram esta época, bem como os efeitos da guerra entre a Grã-Bretanha e a França napoleónica. Pese embora, o que poderia ter sido uma rica tapeçaria histórica acaba por se emaranhar numa tentativa falhada de recriar a grandiosidade de obras como Guerra e Paz.

O enredo é vasto e entrelaça a vida de uma miríade de personagens, desde industriais gananciosos até trabalhadores nas linhas de produção, passando por soldados e líderes religiosos, enquanto todos enfrentam os desafios e perigos da revolução tecnológica. A introdução da spinning jenny, a ascensão da indústria têxtil e os efeitos da Revolução Francesa são retratados. O início, que foca os antagonistas capitalistas e as tensões iniciais da Revolução Industrial, é o ponto alto do livro. Infelizmente, à medida que a narrativa avança, perde-se em clichés e frases feitas, diluindo qualquer impacto emocional ou intelectual. Os episódios de guerra, que tentam capturar o drama e a intensidade dos conflitos napoleónicos, falham em cativar. A ligação entre os personagens e os eventos históricos carece de coesão, e as figuras centrais, que deveriam carregar o peso da narrativa, são esquecíveis e bidimensionais, de tal modo que não me ocorre na redação desta análise o exemplo de nenhuma.

The Armour of Light aborda uma série de temas complexos, incluindo as mudanças sociais e econômicas decorrentes da Revolução Industrial, os conflitos de classe, o papel da religião e as consequências das guerras napoleônicas. Follett utiliza símbolos e metáforas de forma eficaz para explorar esses temas, oferecendo ao leitor uma experiência rica e multifacetada. No entanto, a profundidade de alguns personagens pode deixar a desejar, tornando-os menos cativantes do que em outras obras do autor.

Temas:
O livro aborda a transição da economia rural para a industrial, as desigualdades sociais exacerbadas por este processo, e os efeitos devastadores da guerra. 

Símbolos:
Embora o título sugira a “armadura” como um símbolo de resistência ou força, esta metáfora nunca é realmente desenvolvida no texto.

Moral e Metafísica:
Ao contrário de outros épicos históricos que exploram as nuances da condição humana, The Armour of Light limita-se a uma abordagem simplista de “bem contra o mal”. O capitalismo é representado como ganancioso e vilão, enquanto os trabalhadores e soldados são vítimas passivas, sem espaço para complexidade ou ambiguidade moral.


Este quinto livro da série Kingsbridge decerto não atinge as alturas dos predecessores, tendo desperdiçado a oportunidade de explorar um período tão cativante como a Revolução Industrial, a doutrina metodista, a Revolução Francesa e os conflitos napoleónicos. Embora o início ofereça alguma esperança, o livro rapidamente se perde numa narrativa arrastada, com personagens pouco desenvolvidos. A tentativa de criar um épico histórico digno de nota fracassa devido a clichés, previsibilidade e uma abordagem que até subestima a inteligência do leitor.

A Thousand Splendid Suns — Khaled Housseini

crítica

* 3.8

Véus que esvoaçam

Somos levados ao coração da tumultuosa história do Afeganistão por ‘A Thousand Splendid Suns’. A motivação para ler este livro surgiu da promessa de uma visão íntima da vida das mulheres afegãs, uma perspectiva muitas vezes abafada pelos conflitos geopolíticos que definiram o país. O livro aborda temas como a desigualdade de género, a violência doméstica e o papel das mulheres numa sociedade marcada pelo patriarcado e pela guerra, pintando um retrato ao mesmo tempo trágico e inspirador.

Khaled Hosseini, um médico e escritor afegão-americano, alcançou reconhecimento internacional com ‘The Kite Runner’, seguindo-se depois esta segunda obra em 2007. ‘Mil Sóis Resplandecentes’ (tradução em português) é profundamente enraizado na história recente do Afeganistão, cobrindo períodos como a invasão soviética, o regime dos Mujahideen, o domínio do Talibã e a intervenção americana. Hosseini utiliza sua escrita para amplificar as vozes das mulheres, revelando as dificuldades e as esperanças que emergem mesmo nas condições mais adversas.

A narrativa acompanha Mariam e Laila, duas mulheres de origens diferentes cujas vidas se cruzam de forma inesperada. Mariam, filha ilegítima de um comerciante abastado, enfrenta desde cedo o estigma de ser uma harami. Após a morte da mãe, é forçada a casar-se com Rasheed, um sapateiro de Kabul, cuja violência e opressão dominam sua vida. Laila, em contraste, cresce numa família mais liberal, mas vê sua vida devastada pela guerra. A relação das duas mulheres evolui de desconfiança mútua para uma amizade profunda e solidária, unindo-as contra a opressão do marido. O enredo é repleto de cenas impactantes, como a obrigatoriedade do uso da burqa, a violência doméstica e atrocidades públicas como apedrejamentos. Contudo, após um bom desenvolvimento inicial e a formação da amizade entre Mariam e Laila, a narrativa perde fôlego. A dicotomia simplista entre as heroínas e Rasheed como o vilão absoluto perde a oportunidade explorar a complexidade do patriarcado que molda todos os personagens, incluindo os homens e, naturalmente, a personagem Rasheed.

Entre os prós, destacam-se a fluidez da escrita, a relevância cultural e histórica, e a construção das protagonistas femininas. Como contras, a narrativa por vezes simplifica as dinâmicas de poder e falha em aprofundar as motivações de Rasheed, o que poderia ter enriquecido o enredo.

Temas:
O livro aborda temas universais como a desigualdade de género, a resiliência feminina, e a opressão social e política. A amizade entre Mariam e Laila destaca a força das conexões humanas como resistência à adversidade.

Símbolos:
A burqa surge como um símbolo poderoso da opressão feminina, enquanto a kolba de Mariam representa o confinamento, tanto físico quanto emocional. O título do livro, retirado de um poema de Saib-e-Tabrizi, reflete a esperança e a força das mulheres, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.

Moral e Metafísica:
A obra provoca reflexões sobre o impacto das estruturas patriarcais e sobre como a opressão molda não apenas as mulheres, mas também os homens que as perpetuam. Apesar de ser uma narrativa sobre sofrimento, a resiliência das protagonistas oferece uma mensagem de esperança.

No geral, a experiência de leitura de ‘Mil Sóis Resplandecentes’ marca, especialmente no início, com a construção detalhada das personagens e o retrato vívido do Afeganistão. No entanto, o enredo perde força na segunda metade, com algumas escolhas narrativas previsíveis e um sentimentalismo que não era necessário dada a intensidade dos temas abordados. Com os seus solavancos, este é um testemunho valioso da coragem feminina em sociedades profundamente desiguais. Assinala-se a brutalidade do real: a construção social, a cobardia, o poder, o orgulho, o afecto, a esperança. Ler este conto após a mais recente ocupação Taliban atribui outro sentido, enaltece ainda mais relevância. É possível aprender com a história, real ou ficcional.

#geraçãodeleitores O Alquimista — Paulo Coelho

geraçãodeleitores

Neste episódio, o recém aniversariante Rodrigo traz-nos um volume sobejamente conhecido dentro e além fronteiras, ou não estaríamos a falar do livro lusófono mais traduzido de sempre, bem como o maior bestseller. Como tudo o que esse atributo descreve, reúne consenso como livro favorito por uns e, simultaneamente, dissonâncias por ser considerado uma mera amálgama de aforismos por outros.

Rodrigo, especialista em converter cliques em clientes e em avivar invariavelmente um sorriso na cara dos seus amigos, sempre procurou respostas para questões da sociedade, não se conformando com refutações que a polarizam.

Apresentando um registo menos convencional no Calhamaço, abrimos os horizontes para compreender o que faz esta obra figurar nas listas do livros que mais marcaram os seus leitores, ao fim e ao cabo a intenção precisa da rubrica Geração de Leitores. Só assim ouvimos outras vozes e partilhamos literatura.



A alquimia refere-se à ciência oculta medieval que se dedica a descobrir o elixir da vida e a pedra filosofal, permitindo transformar qualquer metal em Ouro. Paulo Coelho não poderia ter escolhido melhor nome para este conto, detentor do recorde do Guinness para o livro mais traduzido de um autor vivo.

Para fazer jus à sua escrita, deixo de fora deste comentário palavras francesas e construções frásicas complexas, pois o próprio conto parece ser redigido para crianças, pela sua escrita informal e infantil. Desta forma, somos convidados a recuar no tempo e a recuperar os nossos sonhos de infância, e, completamente desarmados, compreender os princípios básicos da busca da felicidade – ou da pedra filosofal.

Viajando com Santiago, um pastor andaluz que larga a sua casa em busca de um destino que lhe foi apresentado num sonho, desejamos entender de que maneira este conseguirá ultrapassar todas as peripécias que lhe vão surgindo para chegar ao tão aguardado final – pois é esta a nossa expectativa adulta: há uma Viagem, terá por certo que haver um destino concreto. Existem ao longo do conto infortúnios, mas será preciso vencê-los para chegar ao destino final. Santiago fará amizades, mas será preciso deixá-las para chegar ao destino final.

Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro.

No final da leitura, um coração que se foi tornando infantil saberá um pouco melhor de que destino se fala. Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro. Entendemos que, como Santiago, estamos também nós num processo de alquimia, e que também nós nos encontramos nesta Viagem, e que assim será até ao último dia. O Alquimista confere-nos a tranquilidade de saber que a Viagem está longe de estar concluída, e que deve ser assumida de acordo com a nossa “Lenda Pessoal”. Se assim for, estaremos um passo mais perto de nos transformarmos em Ouro. 

“Eles não sabem, nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança”. 

“Pedra Filosofal”, António Gedeão



O Alquimista. 192 pág. 1988

Editado em Portugal pela Pergaminho e 11×17.

* Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores Princípio de Karenina — Afonso Cruz

geraçãodeleitores

Neste segundo episódio #geraçãodeleitores, convidámos o nosso caro amigo Afonso, vencedor consagrado de inúmeros Movembers, data scientist fã de esmiuçar as margens dos retalhistas em busca do melhor desconto, sportinguista incurável e deslumbrado pela poesia de Daniel Faria e Pessoa.

Apresenta-nos Afonso Cruz, um one-man band, que toca literalmente em quase todos os ofícios artísticos durante a sua carreira: escritor, ilustrador, realizador, músico. Conhecido pelas suas alegorias e memoráveis aforismos, é sem dúvida um autor a ter debaixo de olho e na senda de prestigiados prémios em nome da literatura portuguesa e lusófona.



Quando começam as nossas histórias? Esta é mais uma das perguntas inquietantes que Afonso Cruz nos coloca na comovente carta que um pai escreve à sua filha, onde lhe conta as suas origens e o que foi aprendendo ao longo da vida, entre lições e arrependimentos.

Narrado na primeira pessoa e carregado de intimidade, este livro fala-nos da importância de valorizarmos o que nos rodeia, desde a família aos amigos, de nos mostramos disponíveis e abertos para o mundo, para o amor ao próximo (física ou emocionalmente) e para o abstrato conceito da felicidade.

À semelhança de outras obras do escritor, Princípio de Karenina surge também como uma espécie de exame de consciência que, caso o permitamos, nos dá material suficiente para colocarmos a nossa própria vida em perspetiva.

Ao longo do seu trabalho literário, o autor defende que, mesmo que o não consigamos identificar, acontecimentos que possamos reconhecer como independentes uns dos outros se encontram unidos por fios. Numa escala menor, mas como forma de reforçar o seu argumento, Afonso cria ligações brilhantes entre os seus livros de modo a tornar as suas próprias narrativas mais realistas, característica que reforça este convite do escritor à introspecção.

Ao tentar responder à questão que inicia este comentário, este pai afirma que “Tudo começa a todo o instante (…) todos os lugares são centros e todos os instantes são começos”.

Da minha parte, apenas me resta dizer que nenhum instante é tarde para começar a ler Afonso Cruz.



Princípio de Karenina. 168 pág. 2018

Livro editado em Portugal pela Companhia das Letras, uma chancela da Penguin Random House.

*Esta opinião faz parte da rubrica Geração de Leitores.

To Kill a Mockingbird — Harper Lee

crítica

Inerentemente Respeitosos

A diversidade étnica e racial norte-americana vista pelo olhar de uma criança, que naturalmente aceita essa diversidade. Um debate e processo criminal arcaicos, porém surpreendentemente ainda actual.
Deixemo-nos guiar por este olhar respeitador da curiosa Scout (POV do romance) enquanto segue os passos do seu pai Atticus Finch, talvez o advogado mais célebre da literatura mundial.


“I think there is just one kind of folks. Folks.”

— Jean Louise “Scout” Finch

Seguramente, este é um dos livros no mundo mais dissecados para reflexão crítica, análise de temas e da moral e leitura semiótica. Tal deve-se ao facto de constituir parte da leitura obrigatória no currículo dos Estados Unidos da América, com infindos recursos interessantes disponíveis online. Que a sua disseminação em massa não seja um factor desencorajador da leitura. Pelo contrário, ao ser narrado sem preconceito permite-nos apreender as divisões sociais que precederam a Guerra Civil Americana e que moldaram a “Star-Spangled Banner”.


3.7

Rating: 3.5 out of 5.


A Tia Júlia e o Escrevedor — Mario Vargas Llosa

crítica

Não percam o próximo episódio

O livro que me introduziu a Vargas Llosa e que revelou ser uma escolha na mouche.

A Tia Júlia e o Escrevedor‘ é uma homenagem à cultura latinoamericana, às novelas e em particular radionovelas, contando histórias fantásticas e que exacerbam o quotidiano peruano. Foi recompensador explorar as ruas de Lima, o bairro de Miraflores, o Perú mais rural e de herança inca e toda a sua cultura e costumes.

É também autobiográfico, onde o autor não resvala para o sentimentalismo, mas retrata com idónea representação a relação entre tia e sobrinho, comicamente entrelaçando-a com o enredo das sucessivas novelas que Pedro Camacho digitava apressadamente na sua máquina de escrever. Esta inesquecível personagem leva o romance mais alto e resulta como fio que ata e une todo o enredo.

Uma leitura leve, cómica e culturalmente rica que oferece uma antevisão à restante “emissão” criativa de Vargas Llosa. Decerto não perderei os próximos episódios na sua escrita sublime e “perspicaz cartografia do poder” (Academia Nobel).


4.2

Rating: 4 out of 5.

A Tia Júlia e o Escrevedor (1988)

375 pág., Dom Quixote
Tia Julia Escrevedor Livro Vargas Llosa

Jesusalém — Mia Couto

crítica

No início é nos dada a conhecer a inusitada família Ventura e um não-lugar no interior de África onde coabitam que nem eremitas, mantendo apenas proximidade com o mundo através do tio Aproximado. Desenvolve-se então uma história construída numa narrativa simples sobre o remorso e o esquecimento.

Jesusalém’ é um refúgio para almas perdidas que se encontram em pequenas coisas e assim fingem afastar-se do passado.

Mia Couto é um contador de histórias competente e extremamente criativo. A multiplicidade de jogos de palavras, neologismos e incorporação de um qualquer criolo comprova isso mesmo, espelhado no próprio título da obra: ‘Jesusalém’. Uma justaposição curiosa que resume numa palavra a ideia a transmitir de confinamento e distância.

É um livro que merece ser escrevinhado, sublinhado, realçado. Repleto de frases memoráveis e enquadrado por poemas fantásticos de Sophia de Mello Breyner.


3.6

Rating: 3.5 out of 5.

Jesusalém (2012)

296 pág., Caminho

A Sombra do Vento — Carlos Ruiz Zafón

crítica

Um livro dentro de um livro

Quando Daniel é levado pelo seu pai ao Cemitério dos Livros Esquecido, não imagina o quanto a sua própria vida se irá relacionar e enraízar no enredo do livro peculiar que, de entre milhares nesse santuário de páginas e páginas abandonadas, escolhe e devora num fôlego (ou terá sido ele o escolhido pelo livro?).

Daniel passa a viver assombrado por A Sombra do Vento’, e consequentemente apercebe-se que também ele pertence àquela história, decidindo investigá-la e ao seu curioso e oculto autor Julián Carax encontrando pelo caminho personagens marcantes como Núria Monfort, Barceló ou o excêntrico Fermín Romero de Torres, que através do seus comentários eruditos e hilariantes arranca um sorriso do leitor.

A influência pessoal de um escritor na sua obra, bem como a sua dicotomia com o leitor é amplamente explorada neste livro que leva um livro dentro.

” A sua alma está nas suas histórias. Numa ocasião perguntei-lhe em quem se inspirava para criar as suas personagens e ele respondeu-me que em ninguém. Que todas as personagens eram ele próprio.

— Daniel

Uma aventura pelos meandros de Barcelona do pós-guerra, carregada de medo, suspeita e vigia constante do regime fascista de Franco, perdendo-se infelizmente em demasia na vida de Carax e na obsessão do seu paradeiro. Com suspense ao virar da página, é uma narrativa bem construída, pese embora o seu ponto mais favorável são os personagens inesquecíveis criados por Zafón que vagueiam pela cidade.

Um livro que nos marca, reflectindo o quanto um livro pode mudar as nossas vidas, a começar por ele próprio.


4.0

Rating: 4 out of 5.

A Sombra do Vento (2001)

512 pág., Planeta