Crime e Castigo — Fiódor Dostoiévski

crítica

O vértice da moral humana

Nunca uma obra me tinha transmitido com tanto realismo a sensação de miséria e negligência social. De igual modo, a ética e a moral não haviam antes sido questionadas de forma tão acutilante. Saberemos nós distinguir o certo do errado? A quem cabe julgar os nossos pensamentos? E os nosso actos?

Dostóievski propõe esta reflexão como ninguém, constantemente suscitando a dúvida e empurrando o leitor para um inefável encurralamento ao lado do inesquecível protagonista. ‘Crime e Castigo’, impecavelmente edificado sob o triângulo da retórica (ethos, pathos e logos) é sobretudo um ensaio à vontade humana e perscruta o que nos motiva, o que nos causa repulsa, igualmente o que nos assusta e o que nos fascina.

Rodion Raskolnikov (Ródia para os mais íntimos) é um amigo que queremos ver vingar na vida. O seu nome de família significa cisma em russo, que é patente nas suas crenças, principalmente no que toca à distanciação religiosa, a falta de fé e a busca por equidade social a qualquer custo. O cisma é em última instância explorado na teoria que Rodion cria acerca da existência de homens superiores na sociedade, cujos possíveis crimes para construir uma causa maior deveriam ser compreendidos e absolvidos. Através do exímio desenvolvimento da personagem, o recém criminoso torna-se nosso aliado. Torcemos por ele, entendemos a sua vontade e sentimos a sua dor. Dostoievski desperta um dos sentimentos mais complexos de transmitir em literatura por um personagem: a empatia.

Assim, Ródia é o nosso ethos, na medida em que constrói a sua credibilidade e nos inspira confiança devido ao seu intelecto e sensibilidade admiráveis. A par do corolário da tese de “selecção natural” humana, Dostóievski tem a mestria de nos levar a questionar a própria moral humana. Talvez “eliminar um parasita” como a velha agiota não seja assim tão imoral e até recomendável. Porém numa sociedade de direito, nenhum homem sozinho deve vestir a toga e julgar ter o poder de fazer justiça pelas próprias mãos. Os personagens secundários não são menos relevantes.

Compondo o pathos está o grupo desuniforme composto pela família de Ródia – o núcleo nevrálgico feminino da mãe e irmã – o cândido Razumikhin, o dipsomaníaco Marmaledov e a sua obstinada esposa Katerina Ivanovna, e o determinado Svidrigáilov compõem um bando que concomitantemente constrói o pathos. Estes despertam no nosso herói o seu lado emocional e os valores da família, amizade, camaradagem que não pode nunca ser dissociado da carapaça que fez crescer para lidar com a sociedade hostil que o rodeia. Por fim, o logos é nos apresentado pela afeição da devota Sónia e a sua compaixão através de palavras e gestos meigos, assim como a redenção possível na sua conversa com Porfíri.

Sob um olhar de vívido realismo, Dostoiévski percorre a Rússia dos czares como uma aguarela triste de Turner, atravessando pontes de um S. Petersburgo decadente e paradoxalmente sumptuoso cujo Ródia observa dolorosamente. Para além da questão fundamental na moralidade de um crime, Crime e Castigo‘ questiona o sistema social por classes do Império corrompido e as motivações do povo que vive entorpecido na sua miséria.

Acima de tudo, através desta obra-prima incontornável do final do século XIX, temos acesso privilegiado e sem precedentes à psique humana.


4.8

Rating: 5 out of 5.

Crime e Castigo (1866)

511 pág., Presença
Excelente tradução de Nina e Filipe Guerra

A Relíquia — Eça de Queirós

crítica

A “inutilidade da hipocrisia”

Mais uma excelente obra de um dos maiores realistas da literatura mundial.
Eça surpreende perpetuamente engendrando episódios, criando personagens de imenso humor representativos da sociedade, recheando as páginas de ironia inteligentíssima, deleitando-nos com os seus inúmeros e eruditos vocábulos, pormenores que não poupam adjectivo e que adornam a sua prosa com figuras de estilo: metáforas, aliterações, perífrases, hipérboles, personificações.

A trama é dividida em três partes.


A primeira introduz-nos a Teodorico Raposo, aos seus antepassados, ao seu destino de menino órfão entregue a uma abastada e hedionda tia a quem é ensinado a tratar como “titi” desde que começa a falar, passando pela sua educação e desenvolvimento pessoal. Os traços de carácter embusteiro e ganancioso são nos evidenciados nesta fase de juventude de “Raposão”, como aliás era conhecido o protagonista em Coimbra. Certa noite, Teodorico é iluminado por uma brilhante ideia: há que teatralizar toda a sua devoção católica e religiosidade para enganar a “titi” e deitar a mão à incomensurável fortuna herdada de G. Godinho, competindo assim com os párocos que se rodeavam da tia a fim de se constituírem herdeiros. Para finalizar o acto, Teodorico propõe uma peregrinação religiosa a Jerusalém de onde resultará uma relíquia para a sua venerável tia que havia de ser falada por toda a Lisboa.

Em seguida, somos guiados pela quase epopeia de Teodorico ao Oriente e à Terra Santa, acompanhado do douto alemão Topsius e o prestável Potte. Com uma descrição tão viva e detalhada, Eça espelha nesta parte as novas correntes literárias do Realismo e Naturalismo que rompem com o Romantismo que até então vigorava em Portugal e na Europa. A crueza das coisas e dos lugares é nos exposta com pormenor, onde não cabem embelezamentos nem eufemismos românticos. No entanto, com bastantes referências históricas, bíblicas e geográficas, esta parte é um tanto maçadora para quem não está familiarizado com as mesmas, todavia interessante e um reflexo da vasta intelectualidade de Eça de Queiroz.

Por fim, a terceira e última parte diz respeito ao regresso de Teodorico da Palestina, o reencontro com a detestável Srª Dª Patrocínio das Neves (note-se o apelido da senhora não elegido ao acaso) e com a sua comitiva interesseira, o momento clímax de desvendar a relíquia e o destino que se lhe segue, com reflexões de Teodorico sobre o seu passado errante e uma conversa sublime com a sua consciência.

No que toca à narração, esta é nos contada na primeira pessoa pelo protagonista que acompanhamos desde o nascimento e por quem torcemos, embora seja transparente a sua má indole e falta de moral. Torcemos pelo “Raposão” pois é-nos evidente a decrepitude de quem o rodeia e o ainda maior oportunismo com que untam os seus actos. Pelo menos, o “nosso” Raposo tem um rasgo de consciência que o assalta enquanto se encontra na penúria, que o leva a reflectir na inútil hipocrasia que o cerca e da qual fazia parte.

Um livro verdadeiramente vanguardista para a sua época, quer na escrita, quer no conteúdo.


Pertence segundo aos queirosianos a uma segunda fase do autor, do pessimismo. Uma crítica social do final do século XIX que denuncia uma sociedade estagnada e entorpecida, o diletantismo (explorado a fundo na magnum opus queirosiana Os Maias), o clero corrupto, a beatice exagerada, a falsa caridade, e a ironia de tudo isto. Expõe vícios, luxúria, ganância, abusos de poder e hipocrisias, permanecendo por isso assustadoramente actual.


Um clássico como ‘A Relíquia é-o porque “nunca deixou de dizer o que tem para dizer” (citando Italo Calvino).


4.3

Rating: 4.5 out of 5.

A Relíquia (1887)

288 pág., Colecção BIS, LeYa
Reliquia 1887 Livro

O Sol Nasce Sempre — Ernest Hemingway

crítica

Geração e enredo perdidos

Interessante retrato do interbellum e dos loucos anos 1920.

A folia e cosmopolita vida de Paris e a pacata e tradicional Espanha vista sob o olhar de expatriados americanos.

O livro descreve extensivamente sobre temas como a admiração pela pesca e pelos toros e a tauromaquia, o que a dada altura se revela um tanto maçador e entediante. Por outro lado, é curioso verificar através da temática transversal do livro, que nestes loucos anos havia já o conceito de friendzone sentido silenciosamente na pele por Jake face à destemida e icónica Brett.

A cosmopolita Paris e a tradicional Espanha vista sob o olhar de expatriados americanos

Em suma, um romance que desapontou, talvez por uma questão de alta expectativa, e que não se destaca nem se imortaliza particularmente por nenhum episódio, personagem ou artifício de estilo literário (neste domínio, a tradução nesta edição deixou muito a desejar). Contudo, ‘The Sun Also Rises‘ abre o apetite a mais títulos da obra de Hemingway, o escritor soldado.


3.2

Rating: 3 out of 5.

O Sol Nasce Sempre (1926)

[The Sun Also Rises], 242 pág., Livros do Brasil

A Confissão de Lúcio — Mário de Sá-Carneiro

crítica

A verdade em neblina

Ah! que venturoso eu fora se não tivesse nascido em parte nenhuma e entretanto existisse.”


Antes de tudo, a palavra. Uma escrita soberba.

Sá-Carneiro usa língua portuguesa como ninguém, enaltecendo-a através de artifícios, de inversões sintáticas, de vocábulos arrojados e opulentos.
A Confissão de Lúcio‘ é uma novela vanguardista e à frente do seu tempo cujo valor inestimável está no seu estilo e na retórica, meritória de ser sublinhada de capa a contracapa.

” sabia-me arrastado, deliciosamente arrastado, em uma nuvem de luz que me encerrava todo e me aturdia os sentidos – mas não deixava ver, embora eu tivesse a certeza de que eles me existiam bem lúcidos. Era como se houvesse guardado o meu espírito numa gaveta.

Ler este livro foi altamente recompensador pela prosperidade linguística que dele transborda, e acima de tudo, pela oportunidade de ter um vislumbre de uma mente do Modernismo português, essa ínclita geração de Orpheu.

Uma novela vanguardista e à frente do seu tempo cujo valor inestimável está no seu estilo e na retórica

Semelhanças com Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos na sua fase abúlica não são mera coincidência, como se encontra evidenciado neste excerto:

Meus tristes sonhos, meus grandes cadernos de projectos – acumulei-vos numa ascensão, e por fim tudo ruiu em destroços… Etéreo construtor de torres que nunca se erguem, de catedrais que nunca se sagraram… Pobres torres de luar… pobres catedrais de neblina…!

— página 79

Quanto à trama, por mais rocambolesca e inverosímil que esta possa parecer, como o narrador nos indica, trata-se de uma dura confissão, da verdade, da ‘vida’ de Lúcio, envolta numa névoa de sensações, emoções, espiritualidade.

” Acho me tranquilo — sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado de um outro. Permaneci, mas não me sou.

Uma obra curta porém indispensável para admirar a arte que é a língua lusitana e compreender um movimento e um autor de mão cheia que partiu cedo demais.


4.4

Rating: 4.5 out of 5.

A Confissão de Lúcio (1914)

128 pág., Colecção BIS, LeYa
Confissao de Lucio

Corrida de Clássicos

rúbrica

No contexto de confinamento e isolamento social no qual vivemos no corrente ano de 2020, surgiu o desafio de explorar um livro que nos coloque nos ombros de gigantes para compreender o mundo que nos rodeia. Para quem acredita que ler é de facto o melhor remédio. O que é então um clássico da literatura? Deixemos que o afamado e imaginativo escritor italiano Italo Calvino nos elucide acerca desta definição:

“Um clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem para dizer.

Porquê Ler os Clássicos? — Italo Calvino

Assim, propomos um clássico por mês nesta corrida amigável onde o vencedor é sempre o leitor. Uma lista que pretende ser ecléctica no estilo, geografia, corrente literária, autor e época de publicação de forma a apresentar um leque alargado do que se entendem por “clássicos da literatura”.

  • Janeiro: A Conquista da Felicidade [The Conquest of Happiness] — Bertrand Russell (1930) *Comprar #Crítica
  • Fevereiro: Mrs. Dalloway — Virginia Woolf (1925) *Comprar
  • Março: A Peste [La peste] — Albert Camus (1947) *Comprar
  • Abril: A Ilustre Casa de Ramires — José Maria de Eça de Queirós (1900) *Comprar
  • Maio: A Paixão do Jovem Werther [Die Leiden des jungen Werthers] — Johann Wolfgang von Goethe (1779) *Comprar
  • Junho: A Leste do Paraíso [East of Eden] — John Steinback (1952) *Comprar
  • Julho: O Profeta [Le Prophète] — Khalil Gibran (1923) *Comprar
  • Agosto: Conversa na Catedral [Conversación en la catedral] — Mario Vargas Llosa (1969) *Comprar
  • Setembro: Do Lado de Swann [Du côté de chez Swann | #1 À la recherche du temps perdu] — Michel Proust (1918) *Comprar
  • Outubro: O Príncipe [Il principe] — Niccolò Machiavelli (1513) *Comprar
  • Novembro: Dom Casmurro — Joaquim Maria Machado de Assis (1899) *Comprar
  • Dezembro: Ficções [Ficciones] — Jorge Luis Borges (1944) *Comprar

A galeria acima contém as capas e os links para comprar cada livro desta colecção plural junto da Bertrand.

Os links para as críticas (assinalados com #) estão localizados juntos de cada título e são actualizados à medida que o ano se vai desenrolando e o desfio é completado. Entre [parênteses] encontra-se o título no idioma original da publicação do autor, seguido do seu (ano) de lançamento. * A compra dos livros através dos links (assinalados com *) na Bertrand.pt (a mais antiga livraria em funcionamento do mundo) contribuem com uma comissão para o blog 🙂


Que ganhe o melhor clássico! Boas leituras.