Macbeth – William Shakespeare

crítica

Ação humana à boleia da premonição

Passados precisamente quatrocentos anos da sua publicação, esta peça reproduz tintim por tintim os nossos defeitos, virtudes, ambições, desejos, inquietações, sonhos, anseios, alegrias. A conduta humana, aqui retratada em período medieval, trespassa as páginas deste breve e acutilante livro, que é testemunho da imaginação fértil do seu autor e do seu domínio impecável da língua inglesa. Trespassa ainda para os inúmeros palcos, telas e ecrãs onde a peça esteve representada nos últimos séculos.

William Shakespeare, o mestre eterno do teatro, do texto dramático e, acima de tudo, da tragédia (tendo a sua pena esgrimado também comédias memoráveis) deixou-nos este notável e brutal vaticínio da condição humana.

Macbeth, prenunciado por um trio de bruxas galhofeiras, conduz-se a si mesmo à loucura, com a sua parceira Lady Macbeth como co-piloto, tendo deixado uma marca indelével na ténue linha da moralidade e da honra. A premonição das malvadas bruxas (mais malvadas que certos humanos e suas ações?) é o rastilho que deflagra esta peça que avança a um ritmo estonteante, fast-paced, sem perder a oportunidade para relexões e solilóquios tão naturais a Shakespeare.

Tragédia de texto dramático absolutamente necessária no portfólio do leitor de hoje e de sempre.

Rating: 4.5 out of 5.

4.5 / 5

Excerto antológico de Macbeth e, até, da obra Shakespereana:

MACBETH
There would have been a time for such a word.
Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle.
Life’s but a walking shadow, a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

– Act V, Scene V

Excertos

BANQUO

É possível que essa crença vos instigue até ao trono,

muito para além do baronato de Cawdor.

É estranho, no entanto; amiúde com verdades

nos enganam os espíritos das trevas,

provocando a nossa ruína: seduzem-nos

primeiro com honestas bagatelas,

pra depois nois despojarem duramente.”

– acto I, cena III, p. 26″

MACBETH

E se falharmos?

LADY MACBETH

Se falharmos, paciência. Mas se retesares o arco

da coragem, impossível é falharmos.

– acto I, cena VII, pag. 38

MACBETH

Que se passa? Porque tremo ante todos os ruídos?

Minhas mãos ferem-me a vista! Não as reconheço.

Pode o vasto coração de Neptuno lavar delas

este sangue? Não o creio. Mais depressa tingirão

toda a imensidão dos mares, transformando

em vermelho o seu azul.”

– acto II, cena II, pag. 50″

LADY MACBETH

Oh, desgraça!

O quê? Em nossa casa?

BANQUO

Uma grande crueldade,

em qualquer que fosse o sítio. Diz-me, caro Duff,

que é mentira o que contaste.

MACBETH

Tivesse eu perecido antes desta circunstância,

e seria abençoada a minha vida. Nada existe

já de sério neste mundo, apenas ninharias;

a graça e o renome foram mortos, entornado

foi o vinho da existência, e nas cubas

já não restam senão borras.

– p. 55″

LADY MACDUFF

O medo é bem mais forte

que o amor; e fraco é o juízo de quem foge

tão fora de razão.

ROSS

Acalmai-vos, querida prima.

Vosso marido é honrado, precavido, ponderado,

e conhece como poucos os escolhos do momento. (…)

Quando as coisas batem no fundo, detêm-se

e começam a subir, regressando, com o tempo,

ao ponto onde antes se encontravam.

– Acto IV, cena II”

MACDUFF

Mais fortes e daninhas que as raízes da luxúria, que só cresce

no estio, são as da avareza; esta foi a espada

por que muitos reis morreram. No entanto,

não temais, pois a Escócia tem que chegue

pra que vós vos sacieis no que é vosso.

Tudo isso é suportável, sendo equilibrado

pelas virtudes.

MALCOLM

As virtudes que a um monarca correspondem,

a firmeza, a temperança e a coragem

estão de todo em mim ausentes.”

  • Acto IV, cena III, p. 105

ROSS

Quem me dera ser portador de igual consolo.

Mas as novas que ora trago deveriam ser gritadas

no deserto, onde ninguém as escutasse.

MACDUFF

Quais são elas? E referem-se ao geral,

ou são mágoas que a um só dizem respeito?

ROSS

Não há homem que, honrado, as não partilhe,

mas é a vós que cabe a maior parte.

MACDUFF

Se a mim dizem respeito, dizei logo;

não mas escondais.

– Acto IV, cena III

MACBETH

Nem a mente que me rege nem o coração no peito

hão-de vacilar na dúvida ou estremecer de medo.

Que o Diabo te esturrique, pálido vilão!

Onde foste arranjar essa cara de ganso?

CRIADO

Senhor, há dez mil…

MACBETH

Dez mil gansos?

CRIADO

Não, soldados.”

– Acto V, cena III”

MACBETH

Esta guerra,

ou me alegra para sempre, ou me destrona

desde logo. Já vivi bastante. Agora a minha vida

está já seca como as folhas do Outono. E as coisas

que haveriam de a velhice acompanhar

– a honra e o afecto, a obediência, os amigos –

já não as posso ter. Em vez disso sofro anátemas

profundos e lisonjas sussurradas, que meu pobre

coração recusaria de bom grado, mas não ousa.

– Acto V, cena III”

MACBETH

Então, cura-a.

Não podes tratar de um espírito doente,

arrancar uma aflição enraizada na memória,

apagar qualquer angústia na mente registada,

e com doce poção, que tudo faça esquecer,

aliviar o peito da matéria que o oprime

e que oprime o coração?

MÉDICO

Só o doente,

nesses casos, é que pode medicar-se.

MACBETH

Que se dane, então, a medicina; não me serve.

– Acto V, cena III”

Mensagem — Fernando Pessoa

crítica

Falta cumprir-se Portugal!

Poema à lingua portuguesa, à portugalidade, à nação e ao povo.

Magistralmente escrito por Pessoa, que segue a formalidade clássica e em simultâneo rompe com os cânones literários. Recheado de episódios de um Portugal glorioso, símbolos, sinédoques, figuras históricas, avisos, premonições e esperança. Mensagem afigura-se como a obra máxima do Modernismo luso e de além-fronteiras.

Obrigatório na estante e no consciente de todos os portugueses.

*Celebração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas de 2021.



Rating: 5 out of 5.

5.0

Mensagem (1934). Tinta da China. 288 pág.

Reedição em edição suberba de livro de bolso, sob a coordenação do pessoano Jerónimo Pizarro, incluindo ao cânone textual, imagens e vários elementos que iluminam esta obra.

Animal Farm — George Orwell

crítica

Alegoria humana

“Four legs good, two legs bad”

Aritmética básica na Manor Farm, renomeada Animal Farm segundo os preceitos do Animalismo.

Um paradoxo em si, dado que vários dos animais de “classe mais operária” como as aves, tais como galinhas, patos, gansos, encaixam no dogma de duas patas. O reflexo do draconianismo dos regimes comunistas totalitários.

Uma fábula política, descomplicada porém excepcional.



Uma crítica ao Homem, à sua (des)organização política e um grito de alerta para a demagogia e os crimes que esta motivou em vários regimes do século XX.


Inovador para a sua época, Animal Farm mantém-se surpreendentemente actual por muito tempo que passe, pois os vícios, defeitos e vicissitudes humanos são para sempre.

É essa crítica de costumes e de ideologias vazias e contraditórias que Orwell elabora com mestria e com excelente eloquência (como aliás fez também magistralmente em 1984 com os respectivos totalitarismo e doublethink).

Um clássico curto, obrigatório, que se lê de rajada e com a promessa de repetição. Pelo menos para aprendermos com os erros da História e para que os porcos não sejam confundidos com homens.


Rating: 4.5 out of 5.

4.4

Quinta dos Animais [Animal Farm] (1945). Cavalo de Ferro. 176 pág.

Após entrar para o domínio público e “libertar” os direitos de autor, várias editoras (re)lançaram em 2021 as obras imperdíveis de George Orwell. Sugestão das melhores edições: Antígona, Cavalo de Ferro (link Wook), Livros do Brasil, Relógio de Água (versão novela gráfica, link Bertrand).

#geraçãodeleitores O Visconde cortado ao meio — Italo Calvino

geraçãodeleitores

A fechar a quadra natalícia, um caro amigo chega como convidado para nos introduzir um clássico contemporâneo curto e facilmente digerível após o banquete de Natal, perfeito para empurrar com uma fatia restante de bolo rei e champagne do réveillon. Conimbricence naturalizado lisboeta, apaixonado pela aviação e economista que procura minuciar a estatística portuguesa. Francisco é um jovem economista curioso, meticuloso e cândido que domina a arte de bem receber. Um leitor assíduo um tanto tardio que redescobriu o gosto pela arte com o avizinhamento da actual pandemia.

Neste episódio da #geraçãodeleitores, recomenda-nos uma das primeiras obras de Italo Calvino, uma dos principais vozes da literatura italiana, que publicou inclusivé o ensaio lido por muitos bibliófilos que ressalva a pertinência e atemporalidade das maiores obras da literatura: “Porquê ler os clássicos” [Perché leggere i classici]. Calvino tem o talento de fazer ebulir ideias e premissas inusitadas de forma a transbordar criatividade das suas páginas.


“Não tinha a intenção de fazer uma alegoria moral, nem muito menos política”. A edição que li (Teorema) vinha capeada com esta citação de Calvino, que, como podem imaginar, faz exatamente isso mesmo nesta pequena obra.


O Visconde Cortado ao Meio” retrata um muito jovem aristocrata que se vê envolvido numa guerra contra os turcos, onde, logo na primeira batalha, vê o seu corpo ser trespassado por uma bala de canhão que o divide em dois. Uma das metades, que no início se acreditava ser a única, concentra em si apenas a maldade, o rancor e a fúria, e irá espalhar o terror quando regressa ao seu feudo. A outra metade, que continha apenas bondade e virtude, fará mais tarde o mesmo caminho até que ambos se encontram e disputam o amor da mesma mulher.


Fosse esta obra uma fantasia infantil, o bom triunfaria sobre o mal e talvez até a metade maldosa se convertesse em bondosa. Mas esta é de facto “uma alegoria moral” sobre o Homem, que, ao ser dividido, se torna único porque perdeu qualquer contradição nos seus sentimentos e pensamentos: agora ou é completamente bom, ou completamente mau. Mas este ser único, seja bom ou mau, não será adorado pelo povo: um, porque o aterroriza, o outro porque é “demasiado bom”.


Calvino pretendeu retratar nesta obra o Homem moderno, que procura tão incessantemente ser único dentro de si, que acaba por perder as suas qualidades sociais e a essência do ser humano, um ser racional, ponderado e completo. É um caso em que a soma das partes, é maior que o todo.


O Visconde Cortado ao Meio [Il visconti dimezzato]. 160 pág. 1952

Editado em Portugal pela Dom Quixote e em Itália pela Mondadori.

*Esta recomendação faz parte da iniciativa Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores O Estrangeiro — Albert Camus

geraçãodeleitores

A cortar a fita vermelha da nossa viçosa rubrica #geraçãodeleitores, que abre a porta a outras perspectivas literárias de convidados das gerações mais jovens, está Catarina, designer visual de 28 anos vivendo actualmente em Bruxelas, na Bélgica.

Portuense de gema, amante de ilustração, cinema e literatura, sempre sonhou vir a ser devoradora de queijo profissional. Desde cedo, impulsionada pelo seu pai, descobriu as intrigantes narrativas de autores do além-mar, entre eles de entusiasmantes autores como Albert Camus: o escritor franco-argelino que tem formado gerações de leitores atentos e pensantes.

Deixemos o brilhante laureado Nobel que cimentou o absurdismo na filosofia e na literatura ser o nosso maître de cérémonie da rúbrica #geraçãodeleitores!



Será Mersault julgado por matar um árabe ou será ele julgado e condenado por não ter chorado no funeral da sua mãe?

O que parece ao leitor um capítulo de frívola desimportância narrativa, vem a revelar-se a chave para a compreensão do desfecho trágico da personagem. Apresentado ao tribunal como um Monstro que demonstra sinais nítidos de insensibilidade, Mersault – assim apresentado por Camus – vive o episódio da morte da mãe com aparente displicência. Apresenta-se em frente ao caixão sem emoção e bebe tranquilamente um café com leite. Apresenta-se atrasado no desfile fúnebre sendo a sua única inquietação o calor insuportável que se faz sentir durante esse mês.

A frase emblemática do livro “A culpa deve ser do Sol” – dita por Mersault em tribunal durante o seu julgamento – não se perde nunca da memória de quem o lê.

Em O Estrangeiro, o leitor experimenta a metáfora do absurdo e o misantropismo, um magnum opus do aclamado escritor prémio Nobel de Literatura, Albert Camus, que morre tragicamente em 1960 num acidente de automóvel com o sobrinho do editor Gallimard. 

Talvez todos sejamos um pouco ‘Estrangeiros’ neste mundo cada vez mais impessoal e cruel.



O Estrangeiro [L’étranger]. 88 pág. 1942

Livro editado pelas Éditions Gallimard em França e pela Livros do Brasil em Portugal.

* Esta opinião faz parte da rubrica #geraçãodeleitores.

As Vinhas da Ira — John Steinbeck

crítica

Poeira de humildade

Após o aniquilador primeiro conflito à escala planetária ter deixado os seus efeitos de razia e destruição, que precedeu uma crise sem precedentes e um fenómeno meteorológico e geológico adverso, as sociedades mundiais e particularmente a americana nunca mais voltaram ao modo de vida a que se habituaram.

O livro escrito no período interbellum, entre as duas grandes guerras, olha para os efeitos de todos esses fenómenos que marcaram a atribulada primeira metade do século XX. Colocando a lupa sob o território norte-americano com um tom realista e ríspido, o laureado Nobel John Steinbeck deixa como legado um testemunho histórico com estes acontecimentos ainda frescos, sem necessitar de olhar demasiado em retrospectiva. 

Antes da destruição que teria lugar no Velho Continente daí a poucos meses depois da sua publicação, o autor mostrou a realidade do seu país, pujante e esperançoso Estados Unidos da América. Nos anos 1930, dezenas de milhares de famílias americanas viram-se forçadas a deixar quase todo o património e arrancar rumo ao desconhecido: a prometida terra fértil da Califórnia. 

Neste livro, Steinbeck consegue com a sua escrita simples e incisiva esboçar um relato simultaneamente lírico e cru dos efeitos devastadores da Grande Depressão agravada pelo fenómeno ímpar do Dust Bowl, levado pela seca extrema, ventos fortes, empobrecimento do solo e agricultura intensiva. Com a idealização dos Joad, uma família famigerada na literatura mundial que irá sofrer todas as privações e mais algumas na sua deslocação do Oklahoma rural para a Califórnia pulsante, o autor sabe como não deixar o leitor indiferente. Como a comunidade e a sociedade em redor, todo e cada um sairá da vivência de crise simultaneamente dilacerado e mais forte.  

Concluindo, é estupendo como a prosa poética de Steinbeck com uma dose de vernáculo e slang do Southwest americano à mistura enriquece enormemente a crónica do êxodo familiar dos Joad, tornando-a familiar e autêntica. ‘As Vinhas da Ira’ [The Grapes of Wrath] (também adaptado ao cinema logo no ano seguinte à publicação pelo oscarizado John Ford, com Henry Fonda como Tom Joad) é um testemunho realista desses “calos” que ficam para a vida. Um livro que toca na ferida e deixa-a cicatrizar.


4.2

Rating: 4 out of 5.

As Vinhas da Ira (1939)

[The Grapes of Wrath], 576 pág., Livros do Brasil

Metamorfose — Franz Kafka

crítica

Carapaças Sociais

Um certo dia, o diligente trabalhador e exemplar cidadão Gregor Samsa acorda subitamente de um estranho sonho para uma realidade mais estranha ainda. Deixemo-nos ambientar pela escrita do próprio autor, que nos presenteia com uma das citações iniciais mais célebres da literatura universal:

“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto”


O ambiente absurdo e aterrador está montado: este inocente jovem adulto vê-se, de um dia para o outro, encapsulado numa medonha carapaça de insecto sem ter tido no incidente qualquer influência ou responsabilidade imputável. O sentimento de impotência e alienação na sociedade moderna, de base individualista e capitalista, é um tema caro a Franz Kafka, criado no Império Austro-Húngaro do virar do século XX. A título de curiosidade, Kafka, inseguro das suas criações, pedira a um amigo próximo para queimar todos os seus escritos após o seu óbito, ordem que foi felizmente ignorada pelo receptor que permitiu assim aos leitores desde há um século descobrir a obra do autor germânico. O conceito “kafkaesco” – ele mesmo -, não teria sido criado, ilustrando tão marcadamente o labirinto da burocracia (‘O Castelo’), a impotência do homem singular perante o sistema (‘O Processo’) e a alienação social. 

Colocando a novela em contexto, escrita em 1912 e publicada volvidos três anos, é possível traçar uma causalidade com os efeitos da Revolução Industrial que pulsou a toda a força no século anterior. As condições de vida e laborais precárias nas fábricas e comércio, a conquista da ciência sobre os dogmas religiosos, o sentimento nacionalista, as conquistas coloniais e imperiais das nações europeias, a desconfiança pelo outro e pelas nações estrangeiras, vistas como rivais e que culminariam aliás na primeira grande guerra à escala global, são factores que ajudam a compreender a concepção deste curto livro (lido de um trago, num só dia).

Sem qualquer preâmbulo ou demora, o nosso protagonista é inocentemente encarcerado no corpo de ‘uma besta’, um “monstruoso insecto”. É levantada então a milenar questão que remonta à antiguidade clássica da dualidade do corpo-alma, ser que sente-ser pensante. Gregor, apesar da sua incapacidade de comunicar e inadaptado ao seu novo corpo, mantém a mesma acuidade mental, raciocínio, desejos e sentimentos. Perplexa com a trágica metamorfose física e morfológica, espelhada na transformação em insecto, a família, constituída pelos pais ociosos e a irmã carinhosa, dá lugar à metamorfose da sua própria estrutura familiar, espelhada pelo seu distanciamento e até repugnância. Após ter sustentado a título exclusivo a sua família com um emprego como vendedor ambulante que lhe era desmotivador, Gregor é imediatamente sacudido como uma mosca parasitária (shoo, shoo!), apartado e trancado no seu quarto. Os três familiares saem finalmente da dependência financeira e voltam a ser produtivos, ignorando todos os esforços do comerciante nos últimos anos. *Spoiler que não é decerto uma novidade: Gregor acaba por definhar no seu quarto após lesões que sofre ao ser enxotado pelo seu pai e morre solitário. Claramente, o título não é escolhido ao acaso. Incita à questão sobre qual será a verdadeira metamorfose. A biologicamente descrita e acidental transformação zoófila de humano para insecto? Ou por outro lado, a alteração dos comportamentos sociais, personalizados pela família de Gregor? Na sua análise à obra, o autor russo Vladimir Nabokov (‘Lolita’) notou que:

“Gregor é um ser humano disfarçado de insecto; a sua família insectos disfarçados de pessoas”.

— Vladimir Nabokov

Toda a trama é outrossim uma crítica à organização da sociedade moderna, dando clara primazia à produtividade e à optimização: produzir mais por menos, sem ser dada importância ao desenvolvimento pessoal. O papel do trabalho é também questionado a par com a compaixão. Gregor, consistentemente cumpridor sem nunca na sua vida profissional ter deixado o alarme tocar sem se levantar para ir trabalhar, vê-se impossibilitado de o fazer pela primeira vez. Mais do que a sua condição desumana, importa cumprir com as responsabilidades. Esta inquietação é, de maneira irónica, expressada nos seus pensamentos como fulcral. Bem presente quando Gregor, na profética manhã da metamorfose, testa as águas para ver se consegue apressar-se para o comboio, apresentar-se ao trabalho para cumprir com as suas obrigações, minimizar os constrangimentos que certamente causara aos seus superiores:

“Se eles se assustassem, Gregor não teria mais responsabilidades e poderia descansar em paz. Mas se eles levassem tudo com calma, ele também não tinha motivos para se empolgar e, se ele se apressasse, poderia estar às oito horas na estação.”


Dependendo da reacção alheia, Gregor iria definir o seu curso de acção. Esta curta novela tem ainda espaço para explorar a projecção do eu, pelos outros e consequentemente pelo próprio, sendo que essa receptividade tem o poder de influenciar os nossos actos. Kafka reflecte sobre a importância dada à percepção do outro, ao que os outros pensam. Uma reflexão que nunca teve tanta relevância como agora, na era das redes sociais e da iminente necessidade de aprovação e aceitação social.

Assim, o sentimento de alienação é brilhantemente transmitido através desta parábola de transformação animalesca. A mutação para um insecto acaba por ser uma alegoria aos acontecimentos imprevistos e aos infortúnios que podemos ver ocorrer nas nossas vidas e como cada um e a sociedade em volta recebe tal acontecimento. Mais profundamente ainda, é possível comparar com incapacidade, com as doenças mentais e demências ou o envelhecimento do qual nenhum de nós poderá escapar. Kafka alerta-nos para a ameaça da falta de empatia e a falta de humanização, desumanizando.


4.3

Rating: 4.5 out of 5.


Metamorfose (1915)

[Die Verwandlung], 80 pág, Editores BIS / 11×17 / Editorial Presença

Manifesto Anti-Dantas e por Extenso — José de Almada Negreiros

crítica

Bofetada ao marasmo

A liberdade criativa da Arte simbolizada num Manifesto que não poupa em nenhuma injúria ou salutar bofetada para despertar um País do seu marasmo político, social, literário e cultural.

Almada Negreiros, com um tom mordaz, pilhérico, burlesco, alveja Júlio Dantas e toda a sua geração acomodada e “de descendência linfática”, alertando para a hipocrisia de uma geração de intelectuais desperdiçada em pleno clima europeu futurista e de regeneração artística.

O seu desígnio não poderia ter melhor clarificação que o exposto na própria publicação:

“Almada é a trombeta do cortejo. Salta à frente, com este estridente manifesto literário, em que o escândalo rebenta por todas as linhas, salta à frente com teatralidade dos seus gestos, dos seus gritos e dos seus atentados ao gosto e aos hábitos do senhor-toda-a-gente, hábitos de trajar, de pensar, de fazer versos, de ser funcionário público e de ter descendência linfática.”


Lido por Mário Viegas

Assim, ‘Pim!’ talvez Portugal se desperte da sua longa modorra e deixe de valorizar “caducos literatos de graves ademanes senis e de frases brunidas, medidas pelo diapasão dos clássicos que o tempo ressequiu, foram considerados os templos da Literatura e da Arte consagrada e definitiva”.

Manifesto por extenso – e por MAIÚSCULAS-, de uma ousadia sem precedente, entreposto no movimento modernista e reformador de Orpheu, que indubitavelmente deixou a sua marca indelével na cultura portuguesa.

— Recensão composta por ocasião da celebração dos cinquenta anos da morte de José de Almada Negreiros (1970-2020) —

“UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D’INDIGENTES, D’INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PÓDE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!”


4

Rating: 4 out of 5.


Manifesto Anti-Dantas e por Extenso

128 pág., Assírio e Alvim

A Ilustre Casa de Ramires — Eça de Queirós

crítica

Fidalguia que edificou o brasão português

Aprecio um romance, peça ou filme no qual podemos vivenciar o crescimento de um personagem. Tenho esse particular agrado por reproduzir na arte o que acontece realmente. Não somos criaturas estanques e unidimensionais; somos organismos de tentativa-erro, aperfeiçoando-nos à medida que amadurecemos.

Na corrente realista, que procura espelhar o real tal qual ele é, o desenvolvimento dos personagens é, a meu entender, um requisito fundamental que Eça cumpre com exímia maestria. Este amadurecimento alicerçado em valores está particularmente patente no esboçar do protagonista Gonçalo Mendes Ramires. A sua personalidade bondosa, encantadora, cândida, porém também temerosa e procrastinadora está bem apurada e talvez seja o herói melhor construída do universo queirosiano. O ‘Fidalgo da Torre’ cresce ao longo da narrativa através do seu carácter, aspirações, inteligência emocional e bolina com natural ondulação pela vida aristocrática do virar do século XIX.  

José Maria Eça de Queirós dispensa apresentações no mundo lusófono e além fronteiras. Pessoalmente, os seus livros sempre proporcionam um prazer de leitura incomparável pela ironia cómica e pelo domínio da língua portuguesa. À escala literária mundial, encabeça a lista dos mais proeminentes escritores realistas do século XIX. Nesse índice, é acompanhado pelo também lusófono Machado de Assis e os universais Fiódor Dostóievski, Leo Tolstói, Anton Chekhov, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert, e Mark Twain, por exemplo. Curiosamente, uma grande parte constitui também a minha lista de autores predilectos. Tal poderá ser indicador do meu fascínio por esta corrente literária e artística que, erigida sobre o romantismo, quebrou com preceitos tradicionais na arte, bem como na sociedade.

Este ‘A Ilustre Casa de Ramires’, póstumo e não integralmente revisto pelo autor, insere-se na sua terceira e última fase literária, descrita pelos especialistas queirosianos como uma fase mais conciliadora. A terceira fase mantém a crítica social que está patente em toda a sua obra, contudo relaxa um pouco o carácter pessimista, envergando até por um tom panglossiano e optimista, de regeneração. Assim, Eça cria a vetusta família Ramires e a sua ilustre casa vigilada pela antiquíssima Torre, cujas pedras testemunharam até os confrontos Afonsinos, para mostrar que a honra e glória da Nação pode sempre perseverar, ainda que com outros contornos.

Este é um romance tripartido, notavelmente composto num paralelismo entre três diferentes planos: i) a narração da passagem da vida adulta de Gonçalo desde a vinda de Coimbra até à ida para África; ii) o plano histórico, onde é traçada a efígie de Portugal nos últimos anos da monarquia e do seu declínio; e iii) o conto sobre as bravuras da família Ramires escrito por Gonçalo como aproveitamento político e baseado num poemeto de um tio. Apesar de nos entreter e deleitar com a sua escrita requintada por horas, o plano narrativo da composição da novela histórica “A Torre de D. Ramires” relatando as aventuras do antepassado Tructesindo é uma parte um tanto enfadonha da obra. O narrador omnisciente evidencia técnicas modernas de ponto de vista (POV). Este instrumento literário inovador para o seu tempo é notadamente marcado quando o narrador passa de seguir o protagonista quando tem a sua reunião privada com o governador civil André Cavaleiro. É nos dada a percepção dos voyeurs, os restantes habitantes da vila que estacadamente assistem ao reencontro improvável dos dois amigos outrora de costas voltadas, observando como de gelosia através de janelas e reposteiros apenas os gestos, os bafos dos charutos e as salutares palmadas nas costas.

O livro está recheado de momentos hilariantes de paródia com os costumes portugueses, a escrita mordaz e as interações sociais retratadas. Exemplos que decerto irei recordar são: o episódio bastante chistoso da comparação de Gonçalo com a parábola do Bom Samaritano quando caminha a lado de um lavrador montado na sua égua; toda a descrição da ascensão de Gonçalo a distinto deputado nas Cortes, as “ensebadas cadeiras de S. Bento”, ainda que lhe custe a honra e abra uma fenda na Palavra dos vetustos Ramires; o episódio hilário que versa sobre o romance proibido da sua irmã com o simultâneo amigo e arqui-inimigo Cavaleiro; assim como o episódio climáxico das chicotadas com o esplêndido e ‘antiqüissimo’ chicote achado pelo leal Bento, um dos aios que mantém o requinte da quinta de Santa Ireneia.

Assinalo também o enlevo de Eça por um bom ‘escandalozinho’ de alcova e por paixões escondidas, quer no caso mirado no mirante da sua irmã Gracinha, quer na tentativa de conquistar a recém viúva nova-rica D. Ana, uma Vénus sem etiqueta, porém com duzentos contos de renda, apenas para descobrir pelo seu primo Titó acerca das suas infidelidades ainda quando o cadáver do seu marido Sanches Lucena arrefecia. Será este tema recorrente na literatura romântica e realista uma prova do carácter adúltero dos portugueses ou da sociedade de então?

“Não compreendem… Vocês não conhecem a organização de Portugal. Perguntem aí ao Gouveia… Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria.”

Em destaque, o pormenor da classe social de cada interveniente indicada pelo meio de locomoção, seja montado numa égua ou a cavalo, (destaque para os cavalos impecavelmente tratados do cunhado Barrolo que “nem uma gota transpiram”), numa tipóia ou caleche, ou então as longas caminhadas a pé para as classes mais desfavorecidas. Vemos o exemplo da esposa do Casco, um humilde lavrador que vê o seu contrato verbal com Gonçalo desonrado, que carrega estrada fora o filho enfermo pela mão e a bebé que amamenta ao colo. A atitude abnegada de Gonçalo, aconchegando o pequeno nos melhores tecidos do casarão e velado pelos austeros retratos dos antepassados Mendes Ramires, embora sincera e desinteressada, é percebida pelo mesmo como falsa aquando da sua eleição como deputado. É também um símbolo da mudança de paradigmas na sociedade, mais igualitária nos direitos e nos costumes e expressando a aproximação a um sistema político republicano e representativo. O protagonista é comparado com Portugal, quiçá numa das suas épocas mais frágeis política e socialmente, após o sentimento de derrota nacional e quase traição com o Ultimato inglês e a ameaça de rasgar o Tratado de Windsor, o mais antigo acordo entre dois estados soberanos. Em baixo, o excerto antológico do romance que evidencia a metáfora:


– Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o senhor Padre Soeiro quem ele me lembra?

– Quem?

– Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor Padre Soeiro… Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia. A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, sentimentos de multa honra, uns escrúpulos quase pueris, não verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar até mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre alento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão pairador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha torre, há mil anos… Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

    –  Quem?…

    –  Portugal. ”


Gonçalo Mendes Ramires – mais do que uma mera representação estereotipada e delimitada nas linhas do convencionalismo – descende da aristocracia cuja antiguidade precede a própria nacionalidade e forjou o milenário brasão de armas do reino de Portugal. Todavia, o Fidalgo não esconde as suas hesitações, os seus desejos, as suas preguiças, defeitos e virtudes, expressados quer pelos seus actos, como pelas suas inércias. O casting do aristocrata fora certeiro, visto representar em si mesmo Portugal no final do século das revoluções.

Concluindo, ao longo do romance, o tom irónico e de paródia valoriza muito a leitura que trota pela paisagem bucólica do Norte de Portugal, envolta em natureza empedernida e história. A Ilustre Casa de Ramires talvez seja o romance queirosiano mais maduro e uma das obras realistas que mais me deleitou: pela construção dos personagens e pela tomada das suas atitudes, de acordo com a consciência moral de cada um.  


4.4

Rating: 4.5 out of 5.

A Ilustre Casa de Ramires (1900)

312 pág.,
Editora Guerra & Paz


A Conquista da Felicidade — Bertrand Russell

crítica

Auto-avaliação do homem feliz

Uma lição de humildade e acima de tudo de humanidade. Um guia que põe em prática a máxima cogito ergo sum. Confere um olhar curioso ao advento do século XX, expondo relações com uma maior proximidade temporal e por isso relevância de conteúdo para a época, tecendo comparações e análises de processos, técnicas e mudanças tecnológicas que por serem tão obsoletas nos dias de hoje e no ritmo avassalador com que as inovações nos são apresentadas, perderam a sua novidade mas nunca a importância.

Levar uma vida com ausência de problemas e perturbação é virtualmente impossível, porém o segredo parece residir em gerir a infelicidade e levar uma vida tranquila. Que o diga Bertrand Russell que parece ter encontrado o elixir para a longevidade, tendo vivido até ao pico dos seus 97 anos mantendo a sua sagacidade e lucidez. Um pensador da alta aristocracia britânica do virar do século XIX, seria de crer que todos os seus problemas estariam à partida mitigados. Mas tal não poderia estar mais distante da verdade. Russell lidou ele mesmo com problemas como todos os humanos, incluindo a vulgar infelicidade do dia-a-dia que teima em assombrar a civilização moderna.

Pessoalmente, não deveria ter estendido a leitura por um quase trimestre, este escrito deve ser lido no decurso de algumas semanas. A parte concernente às causas da infelicidade está, a meu ver, melhor exposta e construída e revela-se no fim de contas a principal distinção desta tese de Bertrand Russell. A estrutura da obra é dual: o autor divide a obra numa dicotomia (in)-felicidade, procurando encontrar as causas e factores que potenciam a permanência para ambas.

Esta dissertação toca sentimentos e estados de espírito tão ubíquos como a competição, o aborrecimento, a fadiga, a inveja, o sentimento de culpa, a sensação de perseguição e o medo da opinião alheia ou pública, assim como bases para a felicidade generalizadamente aceites como a estrutura da família e a afeição, o realização pessoal no trabalho, os interesses impessoais vulgo hobbies, o esforço e a resignação e sem esquecer o trivial gosto de viver.

Ler um escrito tão lúcido e vigente como ‘A Conquista da Felicidade‘ vem corroborar a ideia de que só uma análise distanciada nos permite estudar de onde vimos e perspectivar para onde vamos. A história repete-se e o homem é intrinsecamente… humano. O mais impressionante e até alarmante é o facto de estas inquietações transparecerem quase um centenário mais tarde. Este livro curto e relevante é essencialmente um guia para reflectir e, munidos da razão, hábitos sadios, interesses pessoais e afeições, conquistarmos a felicidade.


4.2

Rating: 4 out of 5.

A Conquista da Felicidade (1930)

184 pág., Relógio d’Água