O sexto volume da saga Harry Potter mergulha os leitores ainda mais profundamente no universo mágico criado por J.K. Rowling. Com uma mistura de humor, tragédia e revelações sobre o passado das personagens, Harry Potter and the Half-Blood Prince é um dos livros mais densos e cativantes da série, enquanto mais sombrio e introspectivo. A trama, repleta de episódios inesquecíveis e uma exploração emocional mais palvável, prepara habilmente o palco para o grandioso desfecho de ‘Deathly Hallows’.
J.K. Rowling escreveu a saga Harry Potter durante os anos 1990 e início dos 2000, inspirando-se em parte na sua experiência de vida em Portugal. Este contexto reflete-se nas nuances culturais e filosóficas presentes na série. Harry Potter explora ao longo dos sete volumes temas como a saudade, o amor, a amizade e as dinâmicas de poder.
A narrativa começa com uma sensação de ameaça iminente, com o regresso definitivo de Voldemort e a crescente influência dos Death Eaters. Enquanto Harry lida com a perda de Sirius Black, Dumbledore torna-se uma figura mais central na história, guiando-o através de memórias que revelam o passado de Tom Riddle. A introdução dos horcruxes (objetos que contêm fragmentos da alma de Voldemort) é um ponto-chave do enredo, explorando a fragilidade da alma humana e as consequências de ações desprovidas de amor e empatia. O professor Slughorn traz um lado cómico a este livro, ao mesmo tempo que desempenha um papel crucial na trama, enquanto Severus Snape, sem dúvida o personagem melhor desenvolvido em todo o Harry Potter, tem o seu perfil caracterizado com toda a ambiguidade que o define.
Harry Potter and the Half-Blood Prince explora temas como a natureza do mal, amor, sacrifício e complexidades da alma humana. A figura de Tom Riddle, marcada por uma infância desprovida de carinho sugere um abismo interno causado pela ausência de amor e revela um retrato profundo do impacto das circunstâncias na formação do caráter. A metáfora dos horcruxes, que fragmentam a alma, ressoa com a tese de Fernando Pessoa sobre a fragmentação do eu.O ritmo um pouco mais lento em certos momentos é compensado pelas revelações cruciais e pelo desenvolvimento dos personagens. O sexto volume reafirma a maestria de Rowling no género de literatura juvenil e combina fantasia com questões humanas universais, preparando o terreno para o clímax épico de Deathly Hallows.
‘História de Quem Vai e de Quem Fica’ representa o terceiro volume da série napolitana de Elena Ferrante, uma epopeia literária que cativou leitores em todo o mundo. Desde o seu início, esta série tem sido acompanhada de perto, especialmente após sua adaptação televisiva pela HBO/Rai, que se revelou, surpreendentemente, superior ao material original. Adicionalmente, a aura de mistério em torno da autora napolitana, cuja identidade permanece desconhecida, acrescenta um fascínio adicional à experiência de leitura deste livro, que se sustenta por seus próprios méritos.
Elena Ferrante é nossa cicerone pela Itália do século XX, explorando as intricadas relações humanas entre mudanças políticas e sociais da época. A ambientação histórica é rica em detalhes, com as tensões entre fascistas e comunistas, a influência da Camorra e os cenários idílicos de Ischia contrastando com a imponência do Vesúvio, fornecendo um pano de fundo dinâmico e envolvente para a narrativa.
A narrativa se desenrola em dualidade, refletindo não apenas as contradições da sociedade italiana da época, mas também as complexidades das relações humanas. A marca indelével da infância é um tema recorrente, adicionando uma camada de profundidade emocional à obra. Ferrante captura magistralmente a nostalgia do tempo passado e dos momentos perdidos, bem como as inquietações e desejos que moldam a personalidade de seus personagens.
O livro é construído sobre um discurso direto livre distintivo e irrepreensível, revelando-se como um fluxo de consciência à la Woolf que Ferrante domina com maestria. Os diálogos curtos e cortantes estão repletos de silêncios, transmitindo não apenas o que é dito, mas também o que não é dito. As personagens, especialmente Lenù e Lila, são construídas com uma complexidade cativante, refletindo os contrastes e as dualidades que permeiam suas vidas.
‘História de quem vai e de quem fica’ transcende os limites da narrativa literária, oferecendo uma experiência de leitura imersiva e emocionante. Embora a série televisiva tenha seus méritos, o livro destaca-se por sua escrita habilidosa e pela capacidade de Ferrante de capturar a essência da vida e das relações humanas com uma honestidade e profundidade impressionantes. Esta é uma leitura indispensável para os fãs da série napolitana e para qualquer leitor que aprecie uma narrativa complexa e introspectiva.
A promessa de um épico histórico que explora a Revolução Industrial e os seus efeitos sociais e políticos era a premissa de The Armour of Light. Como parte da famosa série Kingsbridge, o livro tinha potencial para expandir o célebre universo situado na fictícia vila de Kingsbridge e criado por Ken Follett em Pillars of the Earth. Contudo, o entusiasmo inicial deu lugar à frustração com uma narrativa que se arrasta, personagens mal desenvolvidos e uma abordagem que simplifica em demasia os acontecimentos históricos.
Ken Follett é um autor britânico amplamente conhecido pelos seus thrillers e épicos históricos, tendo atingido o auge do sucesso com Pillars of the Earth. Com The Armour of Light, Follett tenta transportar o leitor para o período da Revolução Industrial, retratando as mudanças sociais e económicas que marcaram esta época, bem como os efeitos da guerra entre a Grã-Bretanha e a França napoleónica. Pese embora, o que poderia ter sido uma rica tapeçaria histórica acaba por se emaranhar numa tentativa falhada de recriar a grandiosidade de obras como Guerra e Paz.
O enredo é vasto e entrelaça a vida de uma miríade de personagens, desde industriais gananciosos até trabalhadores nas linhas de produção, passando por soldados e líderes religiosos, enquanto todos enfrentam os desafios e perigos da revolução tecnológica. A introdução da spinning jenny, a ascensão da indústria têxtil e os efeitos da Revolução Francesa são retratados. O início, que foca os antagonistas capitalistas e as tensões iniciais da Revolução Industrial, é o ponto alto do livro. Infelizmente, à medida que a narrativa avança, perde-se em clichés e frases feitas, diluindo qualquer impacto emocional ou intelectual. Os episódios de guerra, que tentam capturar o drama e a intensidade dos conflitos napoleónicos, falham em cativar. A ligação entre os personagens e os eventos históricos carece de coesão, e as figuras centrais, que deveriam carregar o peso da narrativa, são esquecíveis e bidimensionais, de tal modo que não me ocorre na redação desta análise o exemplo de nenhuma.
The Armour of Light aborda uma série de temas complexos, incluindo as mudanças sociais e econômicas decorrentes da Revolução Industrial, os conflitos de classe, o papel da religião e as consequências das guerras napoleônicas. Follett utiliza símbolos e metáforas de forma eficaz para explorar esses temas, oferecendo ao leitor uma experiência rica e multifacetada. No entanto, a profundidade de alguns personagens pode deixar a desejar, tornando-os menos cativantes do que em outras obras do autor.
Temas: O livro aborda a transição da economia rural para a industrial, as desigualdades sociais exacerbadas por este processo, e os efeitos devastadores da guerra.
Símbolos: Embora o título sugira a “armadura” como um símbolo de resistência ou força, esta metáfora nunca é realmente desenvolvida no texto.
Moral e Metafísica: Ao contrário de outros épicos históricos que exploram as nuances da condição humana, The Armour of Light limita-se a uma abordagem simplista de “bem contra o mal”. O capitalismo é representado como ganancioso e vilão, enquanto os trabalhadores e soldados são vítimas passivas, sem espaço para complexidade ou ambiguidade moral.
Este quinto livro da série Kingsbridge decerto não atinge as alturas dos predecessores, tendo desperdiçado a oportunidade de explorar um período tão cativante como a Revolução Industrial, a doutrina metodista, a Revolução Francesa e os conflitos napoleónicos. Embora o início ofereça alguma esperança, o livro rapidamente se perde numa narrativa arrastada, com personagens pouco desenvolvidos. A tentativa de criar um épico histórico digno de nota fracassa devido a clichés, previsibilidade e uma abordagem que até subestima a inteligência do leitor.
Tendo conhecido a obra de João Tordo a partir de outro registo, fundacional, evocando o estilo film noir, mais intimista e com retrato de perfis psicológicos de escritores, presente nas primeiras publicações que lhe valeram o reconhecimento nas Letras nacionais: Hotel Memória e As Três Vidas (livro com o qual venceu o Prémio José Saramago em 2009), esta foi uma estreia no seu estilo thriller. Quasi-estreia também para o género literário que não tendo a explorar habitualmente, no qual se incluem policiais e histórias de crime. Tordo revela ser um leitor assíduo de thrillers, seguindo com a dosagem certa a receita comprovada e testada pelos mestres do ofício, Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, composta pela arquetipagem de personagens, diálogos relampejantes e cliffhangers entre secções e capítulos.
“Cem anos de perdão” retoma o desenrolar da dupla de personagens Pilar e Cícero, construídos no anterior Águas Passadas, algo que o autor faz questão de recordar ao leitor, num convite dissimulado para visitar a livraria mais próxima. Embora referenciando repetitivamente o primeiro caso Drexler, que deixou uma marca indelével nos protagonistas, Tordo dissocia as histórias, permitindo que os livros sejam desfrutados individualmente.
Destacam-se os episódios no estabelecimento prisional de Brixton onde Cícero se encontra encarcerado e que se assemelha, tal como assumido no livro, à novela de Stephen King, rei internacional do thriller, sobre a fuga entaipada pelo poster de Rita Hayworth que serviu de base ao famoso filme Shawshank Redemption. A dinâmica de poder e influência entre guardas prisionais, recém chegados e older offenders é credível e consegue agarrar o leitor. Por seu lado, as cenas de Pilar em Helsínquia parecem despropositadas e a narração decorrida na fictícia ilha de S. Dismas peca pela falta de profundidade nas cenas passadas na esquadra, nas vilas insulares inglesas e, sobretudo, na igreja e na comunidade religiosa segregacionista, tema central deste livro.
O final ficou aquém das expectativas, seguramente passando bem sem o desfecho forçado e melodramático a que um clímax parece obrigar para satisfazer o formato. Considerando o género em questão, é um livro que cumpre com o que promete: descrição psicológica dos criminosos e seus justiceiros, diálogos rápidos e ziguezagueantes e pesquisa histórica e temática.
Uma leitura prazerosa, ainda que evanescente, Cem anos de perdão explora com sucesso a ambiguidade moral, a influência do passado nas nossas ações e a concepção do “mal”.
Destaques
+ Cenas na prisão de Brixton verossímeis e intrigantes; perfil psicológico de Pilar Benamor; livro convive autonomamente com o precursor “Águas Passadas”, o que permite que seja lido em separado; pesquisa histórica sobre seitas religiosas, S. Dismas (o bom ladrão) e os dismáticos; desenho cénico da ilha britânica de St. Dismas; exploração do funcionamento de grupos religiosos que vivem em marginalização.
– Linguagem deveras coloquial em discurso directo recorrente; demasiados anglicismos, talvez numa tentativa de aproximação a público-alvo mais alargado e leitores mais jovens; desenvolvimento incipiente dos personagens ao longo da trama; remissões repetitivas para o primeiro tomo da trilogia.
3.6 / 5
⭐⭐⭐⭐
Rating: 3.5 out of 5.
Excertos
8.33% ““A superstição, na sua raiz, é um medo excessivo dos deuses. O receio de uma profecia. Em latim, superstitio é algo que sobrou, que ficou de fora. Fora de quê? Da limitadíssima capacidade humana de compreender; como se os deuses tivessem deixado, aqui e ali, zonas de sombra que atemorizam o humano, propositadamente zombando da nossa finita razão.” – cap. Prisão de Brixton”
10.94% ““A manifestação mais óbvia do diabo é a sua capacidade de se esconder (…) fez-nos crer em si próprio disfarçado de outro, do seu contrário.” – cap. Prisão de Brixton”
21.01% ““A Inglaterra era um pedaço de terra isolado do continente europeu, onde os locais tinham hábitos diferentes, arraigados, sobranceiros – conduziam do lado errado da estrada, gostavam de cerveja insípida, salsichas com puré de batata e atiravam queijos do cimo de uma colina íngreme, para depois quase se matarem no seu encalço.” – cap. Brixton, p. 121”
25.87% “”Se não tivermos cuidado com esta gente, ainda vamos acabar a comer os nossos próprios testículos” – cap. Ilha de St. Dismas, p. 149″
60.07% “”Exerço com consciência e dignidade, é o que diz o juramento (de Hipócrates). E bom senso, claro.”
“E se tudo isto for o contrário do bom senso?”, perguntou Pilar. – cap. 17 de abril, ilha de St. Dismas, p. 345″
68.06% “”Essa história do Papillon é a melhor de todas, e eu sou como o Degas, a outra personagem principal. Não tenho interesse nenhum em fugir da prisão, gosto mais da vida aqui dentro do que lá fora”. – cap. ’19 de abril, prisão de Brixton’, p. 376″
Após o aniquilador primeiro conflito à escala planetária ter deixado os seus efeitos de razia e destruição, que precedeu uma crise sem precedentes e um fenómeno meteorológico e geológico adverso, as sociedades mundiais e particularmente a americana nunca mais voltaram ao modo de vida a que se habituaram.
O livro escrito no período interbellum, entre as duas grandes guerras, olha para os efeitos de todos esses fenómenos que marcaram a atribulada primeira metade do século XX. Colocando a lupa sob o território norte-americano com um tom realista e ríspido, o laureado Nobel John Steinbeck deixa como legado um testemunho histórico com estes acontecimentos ainda frescos, sem necessitar de olhar demasiado em retrospectiva.
Antes da destruição que teria lugar no Velho Continente daí a poucos meses depois da sua publicação, o autor mostrou a realidade do seu país, pujante e esperançoso Estados Unidos da América. Nos anos 1930, dezenas de milhares de famílias americanas viram-se forçadas a deixar quase todo o património e arrancar rumo ao desconhecido: a prometida terra fértil da Califórnia.
Neste livro, Steinbeck consegue com a sua escrita simples e incisiva esboçar um relato simultaneamente lírico e cru dos efeitos devastadores da Grande Depressão agravada pelo fenómeno ímpar do Dust Bowl, levado pela seca extrema, ventos fortes, empobrecimento do solo e agricultura intensiva. Com a idealização dos Joad, uma família famigerada na literatura mundial que irá sofrer todas as privações e mais algumas na sua deslocação do Oklahoma rural para a Califórnia pulsante, o autor sabe como não deixar o leitor indiferente. Como a comunidade e a sociedade em redor, todo e cada um sairá da vivência de crise simultaneamente dilacerado e mais forte.
Concluindo, é estupendo como a prosa poética de Steinbeck com uma dose de vernáculo e slang do Southwest americano à mistura enriquece enormemente a crónica do êxodo familiar dos Joad, tornando-a familiar e autêntica. ‘As Vinhas da Ira’ [The Grapes of Wrath] (também adaptado ao cinema logo no ano seguinte à publicação pelo oscarizado John Ford, com Henry Fonda como Tom Joad) é um testemunho realista desses “calos” que ficam para a vida. Um livro que toca na ferida e deixa-a cicatrizar.
Nunca uma obra me tinha transmitido com tanto realismo a sensação de miséria e negligência social. De igual modo, a ética e a moral não haviam antes sido questionadas de forma tão acutilante. Saberemos nós distinguir o certo do errado? A quem cabe julgar os nossos pensamentos? E os nosso actos?
Dostóievski propõe esta reflexão como ninguém, constantemente suscitando a dúvida e empurrando o leitor para um inefável encurralamento ao lado do inesquecível protagonista. ‘Crime e Castigo’, impecavelmente edificado sob o triângulo da retórica (ethos, pathos e logos) é sobretudo um ensaio à ‘vontade humana‘ e perscruta o que nos motiva, o que nos causa repulsa, igualmente o que nos assusta e o que nos fascina.
Rodion Raskolnikov (Ródia para os mais íntimos) é um amigo que queremos ver vingar na vida. O seu nome de família significa cisma em russo, que é patente nas suas crenças, principalmente no que toca à distanciação religiosa, a falta de fé e a busca por equidade social a qualquer custo. O cisma é em última instância explorado na teoria que Rodion cria acerca da existência de homens superiores na sociedade, cujos possíveis crimes para construir uma causa maior deveriam ser compreendidos e absolvidos. Através do exímio desenvolvimento da personagem, o recém criminoso torna-se nosso aliado. Torcemos por ele, entendemos a sua vontade e sentimos a sua dor. Dostoievski desperta um dos sentimentos mais complexos de transmitir em literatura por um personagem: a empatia.
Assim, Ródia é o nosso ethos, na medida em que constrói a sua credibilidade e nos inspira confiança devido ao seu intelecto e sensibilidade admiráveis. A par do corolário da tese de “selecção natural” humana, Dostóievski tem a mestria de nos levar a questionar a própria moral humana. Talvez “eliminar um parasita” como a velha agiota não seja assim tão imoral e até recomendável. Porém numa sociedade de direito, nenhum homem sozinho deve vestir a toga e julgar ter o poder de fazer justiça pelas próprias mãos. Os personagens secundários não são menos relevantes.
Compondo o pathos está o grupo desuniforme composto pela família de Ródia – o núcleo nevrálgico feminino da mãe e irmã – o cândido Razumikhin, o dipsomaníaco Marmaledov e a sua obstinada esposa Katerina Ivanovna, e o determinado Svidrigáilov compõem um bando que concomitantemente constrói o pathos. Estes despertam no nosso herói o seu lado emocional e os valores da família, amizade, camaradagem que não pode nunca ser dissociado da carapaça que fez crescer para lidar com a sociedade hostil que o rodeia. Por fim, o logos é nos apresentado pela afeição da devota Sónia e a sua compaixão através de palavras e gestos meigos, assim como a redenção possível na sua conversa com Porfíri.
Sob um olhar de vívido realismo, Dostoiévski percorre a Rússia dos czares como uma aguarela triste de Turner, atravessando pontes de um S. Petersburgo decadente e paradoxalmente sumptuoso cujo Ródia observa dolorosamente. Para além da questão fundamental na moralidade de um crime, ‘Crime e Castigo‘ questiona o sistema social por classes do Império corrompido e as motivações do povo que vive entorpecido na sua miséria.
Acima de tudo, através desta obra-prima incontornável do final do século XIX, temos acesso privilegiado e sem precedentes à psique humana.
Quando Daniel é levado pelo seu pai ao Cemitério dos Livros Esquecido, não imagina o quanto a sua própria vida se irá relacionar e enraízar no enredo do livro peculiar que, de entre milhares nesse santuário de páginas e páginas abandonadas, escolhe e devora num fôlego (ou terá sido ele o escolhido pelo livro?).
Daniel passa a viver assombrado por ‘A Sombra do Vento’, e consequentemente apercebe-se que também ele pertence àquela história, decidindo investigá-la e ao seu curioso e oculto autor Julián Carax encontrando pelo caminho personagens marcantes como Núria Monfort, Barceló ou o excêntrico Fermín Romero de Torres, que através do seus comentários eruditos e hilariantes arranca um sorriso do leitor.
A influência pessoal de um escritor na sua obra, bem como a sua dicotomia com o leitor é amplamente explorada neste livro que leva um livro dentro.
” A sua alma está nas suas histórias. Numa ocasião perguntei-lhe em quem se inspirava para criar as suas personagens e ele respondeu-me que em ninguém. Que todas as personagens eram ele próprio.
— Daniel
Uma aventura pelos meandros de Barcelona do pós-guerra, carregada de medo, suspeita e vigia constante do regime fascista de Franco, perdendo-se infelizmente em demasia na vida de Carax e na obsessão do seu paradeiro. Com suspense ao virar da página, é uma narrativa bem construída, pese embora o seu ponto mais favorável são os personagens inesquecíveis criados por Zafón que vagueiam pela cidade.
Um livro que nos marca, reflectindo o quanto um livro pode mudar as nossas vidas, a começar por ele próprio.