Harry Potter and the Half-Blood Prince — J.K. Rowling

crítica

*4.3

Fragmentos da alma


O sexto volume da saga Harry Potter mergulha os leitores ainda mais profundamente no universo mágico criado por J.K. Rowling. Com uma mistura de humor, tragédia e revelações sobre o passado das personagens, Harry Potter and the Half-Blood Prince é um dos livros mais densos e cativantes da série, enquanto mais sombrio e introspectivo. A trama, repleta de episódios inesquecíveis e uma exploração emocional mais palvável, prepara habilmente o palco para o grandioso desfecho de ‘Deathly Hallows’.

J.K. Rowling escreveu a saga Harry Potter durante os anos 1990 e início dos 2000, inspirando-se em parte na sua experiência de vida em Portugal. Este contexto reflete-se nas nuances culturais e filosóficas presentes na série. Harry Potter explora ao longo dos sete volumes temas como a saudade, o amor, a amizade e as dinâmicas de poder. 

A narrativa começa com uma sensação de ameaça iminente, com o regresso definitivo de Voldemort e a crescente influência dos Death Eaters. Enquanto Harry lida com a perda de Sirius Black, Dumbledore torna-se uma figura mais central na história, guiando-o através de memórias que revelam o passado de Tom Riddle. A introdução dos horcruxes (objetos que contêm fragmentos da alma de Voldemort) é um ponto-chave do enredo, explorando a fragilidade da alma humana e as consequências de ações desprovidas de amor e empatia. O professor Slughorn traz um lado cómico a este livro, ao mesmo tempo que desempenha um papel crucial na trama, enquanto Severus Snape, sem dúvida o personagem melhor desenvolvido em todo o Harry Potter, tem o seu perfil caracterizado com toda a ambiguidade que o define. 

Harry Potter and the Half-Blood Prince explora temas como a natureza do mal, amor, sacrifício e complexidades da alma humana. A figura de Tom Riddle, marcada por uma infância desprovida de carinho sugere um abismo interno causado pela ausência de amor e revela um retrato profundo do impacto das circunstâncias na formação do caráter. A metáfora dos horcruxes, que fragmentam a alma, ressoa com a tese de Fernando Pessoa sobre a fragmentação do eu.O ritmo um pouco mais lento em certos momentos é compensado pelas revelações cruciais e pelo desenvolvimento dos personagens. O sexto volume reafirma a maestria de Rowling no género de literatura juvenil e combina fantasia com questões humanas universais, preparando o terreno para o clímax épico de Deathly Hallows.

The Armour of Light — Ken Follett

crítica

* 2.4

Indústria e guerra numa armadura frágil

A promessa de um épico histórico que explora a Revolução Industrial e os seus efeitos sociais e políticos era a premissa de The Armour of Light. Como parte da famosa série Kingsbridge, o livro tinha potencial para expandir o célebre universo situado na fictícia vila de Kingsbridge e criado por Ken Follett em Pillars of the Earth. Contudo, o entusiasmo inicial deu lugar à frustração com uma narrativa que se arrasta, personagens mal desenvolvidos e uma abordagem que simplifica em demasia os acontecimentos históricos.

Ken Follett é um autor britânico amplamente conhecido pelos seus thrillers e épicos históricos, tendo atingido o auge do sucesso com Pillars of the Earth. Com The Armour of Light, Follett tenta transportar o leitor para o período da Revolução Industrial, retratando as mudanças sociais e económicas que marcaram esta época, bem como os efeitos da guerra entre a Grã-Bretanha e a França napoleónica. Pese embora, o que poderia ter sido uma rica tapeçaria histórica acaba por se emaranhar numa tentativa falhada de recriar a grandiosidade de obras como Guerra e Paz.

O enredo é vasto e entrelaça a vida de uma miríade de personagens, desde industriais gananciosos até trabalhadores nas linhas de produção, passando por soldados e líderes religiosos, enquanto todos enfrentam os desafios e perigos da revolução tecnológica. A introdução da spinning jenny, a ascensão da indústria têxtil e os efeitos da Revolução Francesa são retratados. O início, que foca os antagonistas capitalistas e as tensões iniciais da Revolução Industrial, é o ponto alto do livro. Infelizmente, à medida que a narrativa avança, perde-se em clichés e frases feitas, diluindo qualquer impacto emocional ou intelectual. Os episódios de guerra, que tentam capturar o drama e a intensidade dos conflitos napoleónicos, falham em cativar. A ligação entre os personagens e os eventos históricos carece de coesão, e as figuras centrais, que deveriam carregar o peso da narrativa, são esquecíveis e bidimensionais, de tal modo que não me ocorre na redação desta análise o exemplo de nenhuma.

The Armour of Light aborda uma série de temas complexos, incluindo as mudanças sociais e econômicas decorrentes da Revolução Industrial, os conflitos de classe, o papel da religião e as consequências das guerras napoleônicas. Follett utiliza símbolos e metáforas de forma eficaz para explorar esses temas, oferecendo ao leitor uma experiência rica e multifacetada. No entanto, a profundidade de alguns personagens pode deixar a desejar, tornando-os menos cativantes do que em outras obras do autor.

Temas:
O livro aborda a transição da economia rural para a industrial, as desigualdades sociais exacerbadas por este processo, e os efeitos devastadores da guerra. 

Símbolos:
Embora o título sugira a “armadura” como um símbolo de resistência ou força, esta metáfora nunca é realmente desenvolvida no texto.

Moral e Metafísica:
Ao contrário de outros épicos históricos que exploram as nuances da condição humana, The Armour of Light limita-se a uma abordagem simplista de “bem contra o mal”. O capitalismo é representado como ganancioso e vilão, enquanto os trabalhadores e soldados são vítimas passivas, sem espaço para complexidade ou ambiguidade moral.


Este quinto livro da série Kingsbridge decerto não atinge as alturas dos predecessores, tendo desperdiçado a oportunidade de explorar um período tão cativante como a Revolução Industrial, a doutrina metodista, a Revolução Francesa e os conflitos napoleónicos. Embora o início ofereça alguma esperança, o livro rapidamente se perde numa narrativa arrastada, com personagens pouco desenvolvidos. A tentativa de criar um épico histórico digno de nota fracassa devido a clichés, previsibilidade e uma abordagem que até subestima a inteligência do leitor.

O Mundo de Sofia — Jostein Gaarder

crítica

*3.7

Descobrir a sabedoria de três milénios


O Mundo de Sofia foi uma escolha natural para mim, dado o meu interesse pela filosofia e pela maneira como esta obra é elogiada por tornar conceitos filosóficos complexos acessíveis a um público mais amplo. A leitura acessível e envolvente torna este livro uma porta de entrada valiosa para o vasto mundo da filosofia.


Jostein Gaarder, um escritor norueguês, transporta-nos para a jornada de Sofia Amundsen, uma adolescente que se depara com uma série de enigmas filosóficos quando começa a receber cartas misteriosas de um filósofo. Publicado em 1995, este livro emerge numa época em que a filosofia começava a ganhar mais destaque na cultura popular. Vale a pena destacar que o mistério que permeia a narrativa mantém-se ao longo do livro, mantendo o interesse do leitor.


Sofia, a protagonista, é conduzida numa viagem pela história da filosofia, encontrando-se com grandes pensadores como Sócrates, Platão, Aristóteles e Kant, entre outros. Os diálogos, por vezes infantilizados, podem resultar em uma perda de sentido na tradução, mas ainda assim, a narrativa mantém-se envolvente. No entanto, é importante notar que algumas situações parecem implausíveis, como o caso do cão Hermes, o que pode afetar a imersão do leitor.


Gaarder habilmente tece temas como a natureza da realidade, a liberdade humana, a moralidade e a busca do conhecimento através de símbolos e metáforas, oferecendo ao leitor uma experiência enriquecedora e profundamente reflexiva. Aborda questões humanas prementes, tornando-o um livro adequado para a infância e juventude.


O Mundo de Sofia é uma obra que encanta pela sua capacidade de educar e entreter simultaneamente. No entanto, sua extensão pode ser intimidante para alguns leitores mais casuais. Apesar disso, vale pelo curso de filosofia que oferece e pela descoberta da sabedoria acumulada ao longo de três milénios. No entanto, a personagem de Sofia poderia ser mais aprofundada, e certas situações poderiam ser mais verossímeis. Ainda assim, é uma leitura essencial para qualquer um interessado em explorar as complexidades do pensamento humano.

Macbeth – William Shakespeare

crítica

Ação humana à boleia da premonição

Passados precisamente quatrocentos anos da sua publicação, esta peça reproduz tintim por tintim os nossos defeitos, virtudes, ambições, desejos, inquietações, sonhos, anseios, alegrias. A conduta humana, aqui retratada em período medieval, trespassa as páginas deste breve e acutilante livro, que é testemunho da imaginação fértil do seu autor e do seu domínio impecável da língua inglesa. Trespassa ainda para os inúmeros palcos, telas e ecrãs onde a peça esteve representada nos últimos séculos.

William Shakespeare, o mestre eterno do teatro, do texto dramático e, acima de tudo, da tragédia (tendo a sua pena esgrimado também comédias memoráveis) deixou-nos este notável e brutal vaticínio da condição humana.

Macbeth, prenunciado por um trio de bruxas galhofeiras, conduz-se a si mesmo à loucura, com a sua parceira Lady Macbeth como co-piloto, tendo deixado uma marca indelével na ténue linha da moralidade e da honra. A premonição das malvadas bruxas (mais malvadas que certos humanos e suas ações?) é o rastilho que deflagra esta peça que avança a um ritmo estonteante, fast-paced, sem perder a oportunidade para relexões e solilóquios tão naturais a Shakespeare.

Tragédia de texto dramático absolutamente necessária no portfólio do leitor de hoje e de sempre.

Rating: 4.5 out of 5.

4.5 / 5

Excerto antológico de Macbeth e, até, da obra Shakespereana:

MACBETH
There would have been a time for such a word.
Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle.
Life’s but a walking shadow, a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

– Act V, Scene V

Excertos

BANQUO

É possível que essa crença vos instigue até ao trono,

muito para além do baronato de Cawdor.

É estranho, no entanto; amiúde com verdades

nos enganam os espíritos das trevas,

provocando a nossa ruína: seduzem-nos

primeiro com honestas bagatelas,

pra depois nois despojarem duramente.”

– acto I, cena III, p. 26″

MACBETH

E se falharmos?

LADY MACBETH

Se falharmos, paciência. Mas se retesares o arco

da coragem, impossível é falharmos.

– acto I, cena VII, pag. 38

MACBETH

Que se passa? Porque tremo ante todos os ruídos?

Minhas mãos ferem-me a vista! Não as reconheço.

Pode o vasto coração de Neptuno lavar delas

este sangue? Não o creio. Mais depressa tingirão

toda a imensidão dos mares, transformando

em vermelho o seu azul.”

– acto II, cena II, pag. 50″

LADY MACBETH

Oh, desgraça!

O quê? Em nossa casa?

BANQUO

Uma grande crueldade,

em qualquer que fosse o sítio. Diz-me, caro Duff,

que é mentira o que contaste.

MACBETH

Tivesse eu perecido antes desta circunstância,

e seria abençoada a minha vida. Nada existe

já de sério neste mundo, apenas ninharias;

a graça e o renome foram mortos, entornado

foi o vinho da existência, e nas cubas

já não restam senão borras.

– p. 55″

LADY MACDUFF

O medo é bem mais forte

que o amor; e fraco é o juízo de quem foge

tão fora de razão.

ROSS

Acalmai-vos, querida prima.

Vosso marido é honrado, precavido, ponderado,

e conhece como poucos os escolhos do momento. (…)

Quando as coisas batem no fundo, detêm-se

e começam a subir, regressando, com o tempo,

ao ponto onde antes se encontravam.

– Acto IV, cena II”

MACDUFF

Mais fortes e daninhas que as raízes da luxúria, que só cresce

no estio, são as da avareza; esta foi a espada

por que muitos reis morreram. No entanto,

não temais, pois a Escócia tem que chegue

pra que vós vos sacieis no que é vosso.

Tudo isso é suportável, sendo equilibrado

pelas virtudes.

MALCOLM

As virtudes que a um monarca correspondem,

a firmeza, a temperança e a coragem

estão de todo em mim ausentes.”

  • Acto IV, cena III, p. 105

ROSS

Quem me dera ser portador de igual consolo.

Mas as novas que ora trago deveriam ser gritadas

no deserto, onde ninguém as escutasse.

MACDUFF

Quais são elas? E referem-se ao geral,

ou são mágoas que a um só dizem respeito?

ROSS

Não há homem que, honrado, as não partilhe,

mas é a vós que cabe a maior parte.

MACDUFF

Se a mim dizem respeito, dizei logo;

não mas escondais.

– Acto IV, cena III

MACBETH

Nem a mente que me rege nem o coração no peito

hão-de vacilar na dúvida ou estremecer de medo.

Que o Diabo te esturrique, pálido vilão!

Onde foste arranjar essa cara de ganso?

CRIADO

Senhor, há dez mil…

MACBETH

Dez mil gansos?

CRIADO

Não, soldados.”

– Acto V, cena III”

MACBETH

Esta guerra,

ou me alegra para sempre, ou me destrona

desde logo. Já vivi bastante. Agora a minha vida

está já seca como as folhas do Outono. E as coisas

que haveriam de a velhice acompanhar

– a honra e o afecto, a obediência, os amigos –

já não as posso ter. Em vez disso sofro anátemas

profundos e lisonjas sussurradas, que meu pobre

coração recusaria de bom grado, mas não ousa.

– Acto V, cena III”

MACBETH

Então, cura-a.

Não podes tratar de um espírito doente,

arrancar uma aflição enraizada na memória,

apagar qualquer angústia na mente registada,

e com doce poção, que tudo faça esquecer,

aliviar o peito da matéria que o oprime

e que oprime o coração?

MÉDICO

Só o doente,

nesses casos, é que pode medicar-se.

MACBETH

Que se dane, então, a medicina; não me serve.

– Acto V, cena III”

Animal Farm — George Orwell

crítica

Alegoria humana

“Four legs good, two legs bad”

Aritmética básica na Manor Farm, renomeada Animal Farm segundo os preceitos do Animalismo.

Um paradoxo em si, dado que vários dos animais de “classe mais operária” como as aves, tais como galinhas, patos, gansos, encaixam no dogma de duas patas. O reflexo do draconianismo dos regimes comunistas totalitários.

Uma fábula política, descomplicada porém excepcional.



Uma crítica ao Homem, à sua (des)organização política e um grito de alerta para a demagogia e os crimes que esta motivou em vários regimes do século XX.


Inovador para a sua época, Animal Farm mantém-se surpreendentemente actual por muito tempo que passe, pois os vícios, defeitos e vicissitudes humanos são para sempre.

É essa crítica de costumes e de ideologias vazias e contraditórias que Orwell elabora com mestria e com excelente eloquência (como aliás fez também magistralmente em 1984 com os respectivos totalitarismo e doublethink).

Um clássico curto, obrigatório, que se lê de rajada e com a promessa de repetição. Pelo menos para aprendermos com os erros da História e para que os porcos não sejam confundidos com homens.


Rating: 4.5 out of 5.

4.4

Quinta dos Animais [Animal Farm] (1945). Cavalo de Ferro. 176 pág.

Após entrar para o domínio público e “libertar” os direitos de autor, várias editoras (re)lançaram em 2021 as obras imperdíveis de George Orwell. Sugestão das melhores edições: Antígona, Cavalo de Ferro (link Wook), Livros do Brasil, Relógio de Água (versão novela gráfica, link Bertrand).

Hábitos Atómicos — James Clear

crítica

Abrindo alas para uma estante menos habitual no blog, deixamo-nos alavancar pelas referências e adágios em produtividade e comportamento humano, num livro sucinto e despretencioso catalogado como não-ficção. Esperemos que as máximas e leis que enuncia para a construção e desenvolvimento de hábitos vos ajude como aqui o fez a desenferrujar a escrita para revisitar mais calhamaços.


Insiste, resiste, persiste

Pese embora pareça ouvirmos esta frase ao longe nos corredores do ginásio, esta máxima pronunciada tão frequentemente por treinadores, coaches e personal trainers constitui a tese central deste livro. A consistência é o que nos leva ao resultado. Tornarmo-nos cada dia 1% melhor. Pequenas mudanças, grandes resultados.

Com uma escrita limpa e pragmática, James Clear estrutura o processo de construção dos hábitos empilhado em quatro passos para o comportamento humano: i) deixa, ii) anseio, iii) resposta e iv) recompensa e alicerçado em quatro leis fundamentais: tornar o hábito i) evidente, ii) atractivo, iii) fácil e iv) gratificante. As três primeiras fazem com que o hábito emerja e aconteça, o última com que este continue e não desapareça. Para isto são nos enunciadas ‘leis’ e tácticas, i.e. a regra dos dois minutos, os caracóis de ouro e o empilhamento de hábitos.

sem enveredar pelo caminho e pedante dos livros do género em busca incessante pela produtividade porque sim ou de auto-ajuda, que prometem oferecer uma kriptonite para a procrastinação e uma panaceia para a eficácia.

Escrito num modelo usual nos livros não-ficção: exemplo/parábola > problema > solução > enquadramento teórico, Atomic Habits: An Easy & Proven Way to Build Good Habits & Break Bad Ones retém o leitor com espécimes de outros humanos como nós, mais ou menos bem sucedidos, que confiam nos hábitos para chegar ao sucesso com consistência, estremando-se assim amadores de profissionais.

Revelando um sólido conhecimento da psicologia e do comportamento humano e o que nos faz dar o ‘click’, o autor entrega um resultado com um forte pendor prático, transmissível, sem enveredar pelo caminho e pedante dos livros do género em busca incessante pela produtividade porque sim ou de auto-ajuda, que prometem oferecer uma kriptonite para a procrastinação e uma panaceia para a eficácia.

“É frequente cairmos num ciclo de tudo ou nada com os nossos hábitos. O problema não é escorregar uma vez, o problema é pensar que, se não somos capazes de fazer uma coisa de uma forma perfeita, então não devemos fazê-la de todo.”

– cap. 4ª lei: tornar o hábito gratificante, p. 197

Logo após fazer com que capa e contracapa se encontrassem pelo término do livro, o ímpeto imediato foi fazer deslizar para trás a tampa do portátil e dar ao dedo para finalizar esta análise. Afinal, o propósito e resultado do livro foi atingido. Se esta pequena mudança levará a maiores resultados, cabe ao tempo o veredicto.


4.0

Rating: 4 out of 5.

Hábitos Atómicos [2017]. Lua de Papel. 304 pág.

#geraçãodeleitores A Era dos Muros — Tim Marshall

geraçãodeleitores

Transpondo muros da desinformação e do preconceito, a convidada da #geraçãodeleitores não baixa os braços na sua missão de fazer chegar a mensagem das maiores questões humanitárias que assolam o nosso mundo. Um desafio majorado num mundo que, apesar da aparente enxurrada de informação e comunicação através dos meios digitais, se arrisca a ser mais indiferente pelo próximo e desconhecedor dos factos que jamais.

A dar este salto está Mafalda, estudante de medicina, apaixonada por húngaros de chocolate e criadora de uma página no Instagram que almeja trazer esta mensagem de igualdade: @kisokelela. A sua recomendação de leitura do autor de Prisioneiros da Geografia (analisado no Calhamaço) dá-nos uma visão global sob as fronteiras que mais nos dividem, para que possamos aprender com essas cisões e, no seu lugar, construir pontes.


Entender o que nos divide, no passado e no presente, é essencial para compreender tudo o que se está a passar no mundo.

Esta é a principal premissa do livro “A Era dos Muros” de Tim Marshall, ao longo do qual são descritas de forma audaciosa e pragmática não só as principais barreiras físicas que dividem o nosso planeta, mas também as barreiras imaginárias que existem no seio das várias sociedades, descritas pelo autor como sendo “mentalidades de fortaleza”.


“A divisão molda a política a todos os níveis – pessoal, local, nacional e internacional. Cada história tem dois lados, e o mesmo se passa com cada muro. É essencial estarmos conscientes daquilo que nos dividiu, e que continua a fazê-lo, de forma a compreendermos o que se está a passar no mundo de hoje.”

p. 12

Marshall reforça a ideia de que pelo menos um terço (1/3) de todos os países do mundo contam com algum tipo de muro ou separação física entre si, devido aos mais diversos factores: guerras, alterações climáticas, religião, perseguições étnicas ou, até mesmo, controlo por regimes totalitários.

O livro perscruta a questão fronteiriça entre o México e os EUA, Israel e Palestina, Arábia Saudita e Irão, Bangladesh e Myanmar, entre outros. Explora também questões tais como a exclusão com base na etnia ou religião, como é o caso dos muçulmanos uigures ou budistas tibetanos em relação aos chineses han.

Acima de tudo, “A Era dos Muros” permite ao leitor abrir os horizontes em relação a algumas das mais ignóbeis atitudes humanas, que determinam o cada vez mais evidente distanciamento entre sociedades e culturas e o oblívio da nossa humanidade em comum.

Considero ser uma leitura impreterível para todos os que se interessem por geopolítica e que procurem saber mais sobre o que motivou muitas das segregações que se vivem nos dias de hoje.



A Era dos Muros [Divided: Why We’re Living in an Age of Walls]. 288 pág. 2018

Editado em Portugal pela editora Desassossego e nos Estados Unidos pela Elliott & Thompson.

*Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.

As Vinhas da Ira — John Steinbeck

crítica

Poeira de humildade

Após o aniquilador primeiro conflito à escala planetária ter deixado os seus efeitos de razia e destruição, que precedeu uma crise sem precedentes e um fenómeno meteorológico e geológico adverso, as sociedades mundiais e particularmente a americana nunca mais voltaram ao modo de vida a que se habituaram.

O livro escrito no período interbellum, entre as duas grandes guerras, olha para os efeitos de todos esses fenómenos que marcaram a atribulada primeira metade do século XX. Colocando a lupa sob o território norte-americano com um tom realista e ríspido, o laureado Nobel John Steinbeck deixa como legado um testemunho histórico com estes acontecimentos ainda frescos, sem necessitar de olhar demasiado em retrospectiva. 

Antes da destruição que teria lugar no Velho Continente daí a poucos meses depois da sua publicação, o autor mostrou a realidade do seu país, pujante e esperançoso Estados Unidos da América. Nos anos 1930, dezenas de milhares de famílias americanas viram-se forçadas a deixar quase todo o património e arrancar rumo ao desconhecido: a prometida terra fértil da Califórnia. 

Neste livro, Steinbeck consegue com a sua escrita simples e incisiva esboçar um relato simultaneamente lírico e cru dos efeitos devastadores da Grande Depressão agravada pelo fenómeno ímpar do Dust Bowl, levado pela seca extrema, ventos fortes, empobrecimento do solo e agricultura intensiva. Com a idealização dos Joad, uma família famigerada na literatura mundial que irá sofrer todas as privações e mais algumas na sua deslocação do Oklahoma rural para a Califórnia pulsante, o autor sabe como não deixar o leitor indiferente. Como a comunidade e a sociedade em redor, todo e cada um sairá da vivência de crise simultaneamente dilacerado e mais forte.  

Concluindo, é estupendo como a prosa poética de Steinbeck com uma dose de vernáculo e slang do Southwest americano à mistura enriquece enormemente a crónica do êxodo familiar dos Joad, tornando-a familiar e autêntica. ‘As Vinhas da Ira’ [The Grapes of Wrath] (também adaptado ao cinema logo no ano seguinte à publicação pelo oscarizado John Ford, com Henry Fonda como Tom Joad) é um testemunho realista desses “calos” que ficam para a vida. Um livro que toca na ferida e deixa-a cicatrizar.


4.2

Rating: 4 out of 5.

As Vinhas da Ira (1939)

[The Grapes of Wrath], 576 pág., Livros do Brasil

Prisioneiros da Geografia — Tim Marshall

crítica

Manobrar a desconfiança do “outro”

Olhar para um mapa-mundi (frequentemente representado de forma desproporcional à escala de Mercator que tende a sobreavaliar o mundo Ocidental), sempre me suscitou o maior fascínio. Naturalmente, após percorrer demoradamente as mais variadas linhas que constituem um mapa, surgiam a dada altura questões sobre as suas fronteiras ou divisões administrativas. Porque é que algumas seguem o curso natural dos rios e cordilheiras enquanto outras traçam verdadeiras rectas? Porque é que algumas regiões têm maior concentração de países de pequena escala enquanto outras têm nações que se estendem a larga escala por todo o território?

Prisioneiros da Geografia é indicado para quem partilha estas interrogações e aprecia aventurar-se no vasto e intrincado mundo da ciência que procura explicar como se governa o mundo, – a geopolítica – e, paralelamente, como este se relaciona – a diplomacia. Um livro com o desígnio de explicar a compartimentação do planeta Terra será sempre sujeito a crítica, por tocar apenas ao de leve em assuntos deveras complexos e multifacetados, por privilegiar determinadas áreas, ou ainda por adoptar um olhar mais ocidentalizado. Contudo, Marshall cumpre o desafio de forma muito competente e ultrapassa estes obstáculos epistemológicos. O facto de o conseguir de forma sintética é também bastante abonatório. Embora considerados o cânone da disciplina diplomática, confesso ter sempre evitado os grandes tomos de Henry Kissinger. 

Produto final de viagens pessoais e profissionais de Tim Marshall enquanto jornalista a vários pontos do globo (cobrindo os conflitos na Jugoslávia, Kosovo, Afeganistão, Iraque, Líbano, Síria e Israel com a BBC e Sky News), este livro está ‘arrumado’ e convenientemente organizado em dez grandes mapas que procuram explicar o porquê da organização do nosso planeta – Rússia, China, EUA, Europa Ocidental, África, Médio Oriente, Índia e Paquistão, Coreia e Japão, América Latina, Ártico. Marshall apresenta em cada capítulo, que versa sobre um dos mapas, um estudo estratégico semelhante aos elaborados por consultores de gestão a determinados mercados, oferecendo uma análise meticulosa dos dois lados da barricada que explora as fragilidades e forças das principais potências mundiais. Ao efectuar esse exercício, não se esquece igualmente de oferecer um olhar curioso à interligação dos referidos mapas no sistema internacional. Como indicado pelo título, o autor segue a teoria determinista da geografia e recorda que dela somos prisioneiros. O determinismo geográfico contemporâneo foi sobejamente desenvolvido por Jared Diamond no seu consagrado Guns, Germs and Steel, que aponta o dedo a factores naturais, climáticos e meteorológicos como determinantes para a distribuição geográfica das sociedades e a própria evolução humana.


“Desde o grande principado de Moscovo, pasando por Pedro, o Grande, Stalin e agora Putin, cada líder russo tem sido confrontado com os mesmos problemas. Não importa se a ideologia de quem detém o poder é czarista, comunista ou aproximada do capitalismo – os portos continuam a gelar e a planície do norte Europeu continua plana.”

— capítulo Rússia, p. 40

Neste livro conciso, aprendi especialmente sobre a Rússia e o que tira o sono a Putin – existirem montanhas somente nos Cárpatos -, a rivalidade entre a Índia e o Paquistão sem resolução à vista, as ambições do dragão chinês nos vários continentes, a criação arbitrária dos estados-nação no Médio Oriente, desenhados a régua e esquadro pelas potências ocidentais sem conhecimento geográfico da região e, por fim, a série de características naturais favoráveis com que foram brindados os norte americanos, o que ajudou em larga escala a garantir o seu papel como hegemon mundial.

Os endowments geográficos determinaram na história a prosperidade das nações. A desconfiança do “outro” propiciou conflitos, guerras e a luta pela supremacia e pelo acesso a determinados recursos. Apesar do encurtamento de distâncias e o acesso a regiões outrora inóspitas pelo meio do progresso tecnológico, a geopolítica foi e será sempre moldada pela geografia: os montes e vales, os recursos hídricos, rios navegáveis, portos naturais e climas propícios ao desenvolvimento humano. Somos e seremos subservientes à geografia. Já é tempo de a sabermos usar a nosso favor e de compartilharmos o inestimável território terrestre com os demais. 


4.2

Rating: 4 out of 5.


Prisioneiros da Geografia (2016)

[Prisoners of Geography], 255 pág., Editora Desassossego

To Kill a Mockingbird — Harper Lee

crítica

Inerentemente Respeitosos

A diversidade étnica e racial norte-americana vista pelo olhar de uma criança, que naturalmente aceita essa diversidade. Um debate e processo criminal arcaicos, porém surpreendentemente ainda actual.
Deixemo-nos guiar por este olhar respeitador da curiosa Scout (POV do romance) enquanto segue os passos do seu pai Atticus Finch, talvez o advogado mais célebre da literatura mundial.


“I think there is just one kind of folks. Folks.”

— Jean Louise “Scout” Finch

Seguramente, este é um dos livros no mundo mais dissecados para reflexão crítica, análise de temas e da moral e leitura semiótica. Tal deve-se ao facto de constituir parte da leitura obrigatória no currículo dos Estados Unidos da América, com infindos recursos interessantes disponíveis online. Que a sua disseminação em massa não seja um factor desencorajador da leitura. Pelo contrário, ao ser narrado sem preconceito permite-nos apreender as divisões sociais que precederam a Guerra Civil Americana e que moldaram a “Star-Spangled Banner”.


3.7

Rating: 3.5 out of 5.