* 3.8
Véus que esvoaçam
Somos levados ao coração da tumultuosa história do Afeganistão por ‘A Thousand Splendid Suns’. A motivação para ler este livro surgiu da promessa de uma visão íntima da vida das mulheres afegãs, uma perspectiva muitas vezes abafada pelos conflitos geopolíticos que definiram o país. O livro aborda temas como a desigualdade de género, a violência doméstica e o papel das mulheres numa sociedade marcada pelo patriarcado e pela guerra, pintando um retrato ao mesmo tempo trágico e inspirador.
Khaled Hosseini, um médico e escritor afegão-americano, alcançou reconhecimento internacional com ‘The Kite Runner’, seguindo-se depois esta segunda obra em 2007. ‘Mil Sóis Resplandecentes’ (tradução em português) é profundamente enraizado na história recente do Afeganistão, cobrindo períodos como a invasão soviética, o regime dos Mujahideen, o domínio do Talibã e a intervenção americana. Hosseini utiliza sua escrita para amplificar as vozes das mulheres, revelando as dificuldades e as esperanças que emergem mesmo nas condições mais adversas.
A narrativa acompanha Mariam e Laila, duas mulheres de origens diferentes cujas vidas se cruzam de forma inesperada. Mariam, filha ilegítima de um comerciante abastado, enfrenta desde cedo o estigma de ser uma harami. Após a morte da mãe, é forçada a casar-se com Rasheed, um sapateiro de Kabul, cuja violência e opressão dominam sua vida. Laila, em contraste, cresce numa família mais liberal, mas vê sua vida devastada pela guerra. A relação das duas mulheres evolui de desconfiança mútua para uma amizade profunda e solidária, unindo-as contra a opressão do marido. O enredo é repleto de cenas impactantes, como a obrigatoriedade do uso da burqa, a violência doméstica e atrocidades públicas como apedrejamentos. Contudo, após um bom desenvolvimento inicial e a formação da amizade entre Mariam e Laila, a narrativa perde fôlego. A dicotomia simplista entre as heroínas e Rasheed como o vilão absoluto perde a oportunidade explorar a complexidade do patriarcado que molda todos os personagens, incluindo os homens e, naturalmente, a personagem Rasheed.
Entre os prós, destacam-se a fluidez da escrita, a relevância cultural e histórica, e a construção das protagonistas femininas. Como contras, a narrativa por vezes simplifica as dinâmicas de poder e falha em aprofundar as motivações de Rasheed, o que poderia ter enriquecido o enredo.
Temas:
O livro aborda temas universais como a desigualdade de género, a resiliência feminina, e a opressão social e política. A amizade entre Mariam e Laila destaca a força das conexões humanas como resistência à adversidade.
Símbolos:
A burqa surge como um símbolo poderoso da opressão feminina, enquanto a kolba de Mariam representa o confinamento, tanto físico quanto emocional. O título do livro, retirado de um poema de Saib-e-Tabrizi, reflete a esperança e a força das mulheres, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.
Moral e Metafísica:
A obra provoca reflexões sobre o impacto das estruturas patriarcais e sobre como a opressão molda não apenas as mulheres, mas também os homens que as perpetuam. Apesar de ser uma narrativa sobre sofrimento, a resiliência das protagonistas oferece uma mensagem de esperança.
No geral, a experiência de leitura de ‘Mil Sóis Resplandecentes’ marca, especialmente no início, com a construção detalhada das personagens e o retrato vívido do Afeganistão. No entanto, o enredo perde força na segunda metade, com algumas escolhas narrativas previsíveis e um sentimentalismo que não era necessário dada a intensidade dos temas abordados. Com os seus solavancos, este é um testemunho valioso da coragem feminina em sociedades profundamente desiguais. Assinala-se a brutalidade do real: a construção social, a cobardia, o poder, o orgulho, o afecto, a esperança. Ler este conto após a mais recente ocupação Taliban atribui outro sentido, enaltece ainda mais relevância. É possível aprender com a história, real ou ficcional.
















