A Thousand Splendid Suns — Khaled Housseini

crítica

* 3.8

Véus que esvoaçam

Somos levados ao coração da tumultuosa história do Afeganistão por ‘A Thousand Splendid Suns’. A motivação para ler este livro surgiu da promessa de uma visão íntima da vida das mulheres afegãs, uma perspectiva muitas vezes abafada pelos conflitos geopolíticos que definiram o país. O livro aborda temas como a desigualdade de género, a violência doméstica e o papel das mulheres numa sociedade marcada pelo patriarcado e pela guerra, pintando um retrato ao mesmo tempo trágico e inspirador.

Khaled Hosseini, um médico e escritor afegão-americano, alcançou reconhecimento internacional com ‘The Kite Runner’, seguindo-se depois esta segunda obra em 2007. ‘Mil Sóis Resplandecentes’ (tradução em português) é profundamente enraizado na história recente do Afeganistão, cobrindo períodos como a invasão soviética, o regime dos Mujahideen, o domínio do Talibã e a intervenção americana. Hosseini utiliza sua escrita para amplificar as vozes das mulheres, revelando as dificuldades e as esperanças que emergem mesmo nas condições mais adversas.

A narrativa acompanha Mariam e Laila, duas mulheres de origens diferentes cujas vidas se cruzam de forma inesperada. Mariam, filha ilegítima de um comerciante abastado, enfrenta desde cedo o estigma de ser uma harami. Após a morte da mãe, é forçada a casar-se com Rasheed, um sapateiro de Kabul, cuja violência e opressão dominam sua vida. Laila, em contraste, cresce numa família mais liberal, mas vê sua vida devastada pela guerra. A relação das duas mulheres evolui de desconfiança mútua para uma amizade profunda e solidária, unindo-as contra a opressão do marido. O enredo é repleto de cenas impactantes, como a obrigatoriedade do uso da burqa, a violência doméstica e atrocidades públicas como apedrejamentos. Contudo, após um bom desenvolvimento inicial e a formação da amizade entre Mariam e Laila, a narrativa perde fôlego. A dicotomia simplista entre as heroínas e Rasheed como o vilão absoluto perde a oportunidade explorar a complexidade do patriarcado que molda todos os personagens, incluindo os homens e, naturalmente, a personagem Rasheed.

Entre os prós, destacam-se a fluidez da escrita, a relevância cultural e histórica, e a construção das protagonistas femininas. Como contras, a narrativa por vezes simplifica as dinâmicas de poder e falha em aprofundar as motivações de Rasheed, o que poderia ter enriquecido o enredo.

Temas:
O livro aborda temas universais como a desigualdade de género, a resiliência feminina, e a opressão social e política. A amizade entre Mariam e Laila destaca a força das conexões humanas como resistência à adversidade.

Símbolos:
A burqa surge como um símbolo poderoso da opressão feminina, enquanto a kolba de Mariam representa o confinamento, tanto físico quanto emocional. O título do livro, retirado de um poema de Saib-e-Tabrizi, reflete a esperança e a força das mulheres, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.

Moral e Metafísica:
A obra provoca reflexões sobre o impacto das estruturas patriarcais e sobre como a opressão molda não apenas as mulheres, mas também os homens que as perpetuam. Apesar de ser uma narrativa sobre sofrimento, a resiliência das protagonistas oferece uma mensagem de esperança.

No geral, a experiência de leitura de ‘Mil Sóis Resplandecentes’ marca, especialmente no início, com a construção detalhada das personagens e o retrato vívido do Afeganistão. No entanto, o enredo perde força na segunda metade, com algumas escolhas narrativas previsíveis e um sentimentalismo que não era necessário dada a intensidade dos temas abordados. Com os seus solavancos, este é um testemunho valioso da coragem feminina em sociedades profundamente desiguais. Assinala-se a brutalidade do real: a construção social, a cobardia, o poder, o orgulho, o afecto, a esperança. Ler este conto após a mais recente ocupação Taliban atribui outro sentido, enaltece ainda mais relevância. É possível aprender com a história, real ou ficcional.

Cem anos de perdão — João Tordo

crítica

Thriller à portuguesa

Tendo conhecido a obra de João Tordo a partir de outro registo, fundacional, evocando o estilo film noir, mais intimista e com retrato de perfis psicológicos de escritores, presente nas primeiras publicações que lhe valeram o reconhecimento nas Letras nacionais: Hotel Memória e As Três Vidas (livro com o qual venceu o Prémio José Saramago em 2009), esta foi uma estreia no seu estilo thriller. Quasi-estreia também para o género literário que não tendo a explorar habitualmente, no qual se incluem policiais e histórias de crime. Tordo revela ser um leitor assíduo de thrillers, seguindo com a dosagem certa a receita comprovada e testada pelos mestres do ofício, Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, composta pela arquetipagem de personagens, diálogos relampejantes e cliffhangers entre secções e capítulos.

“Cem anos de perdão” retoma o desenrolar da dupla de personagens Pilar e Cícero, construídos no anterior Águas Passadas, algo que o autor faz questão de recordar ao leitor, num convite dissimulado para visitar a livraria mais próxima. Embora referenciando repetitivamente o primeiro caso Drexler, que deixou uma marca indelével nos protagonistas, Tordo dissocia as histórias, permitindo que os livros sejam desfrutados individualmente.

Destacam-se os episódios no estabelecimento prisional de Brixton onde Cícero se encontra encarcerado e que se assemelha, tal como assumido no livro, à novela de Stephen King, rei internacional do thriller, sobre a fuga entaipada pelo poster de Rita Hayworth que serviu de base ao famoso filme Shawshank Redemption. A dinâmica de poder e influência entre guardas prisionais, recém chegados e older offenders é credível e consegue agarrar o leitor. Por seu lado, as cenas de Pilar em Helsínquia parecem despropositadas e a narração decorrida na fictícia ilha de S. Dismas peca pela falta de profundidade nas cenas passadas na esquadra, nas vilas insulares inglesas e, sobretudo, na igreja e na comunidade religiosa segregacionista, tema central deste livro.

O final ficou aquém das expectativas, seguramente passando bem sem o desfecho forçado e melodramático a que um clímax parece obrigar para satisfazer o formato. Considerando o género em questão, é um livro que cumpre com o que promete: descrição psicológica dos criminosos e seus justiceiros, diálogos rápidos e ziguezagueantes e pesquisa histórica e temática.

Uma leitura prazerosa, ainda que evanescente, Cem anos de perdão explora com sucesso a ambiguidade moral, a influência do passado nas nossas ações e a concepção do “mal”.

Destaques

+ Cenas na prisão de Brixton verossímeis e intrigantes; perfil psicológico de Pilar Benamor; livro convive autonomamente com o precursor “Águas Passadas”, o que permite que seja lido em separado; pesquisa histórica sobre seitas religiosas, S. Dismas (o bom ladrão) e os dismáticos; desenho cénico da ilha britânica de St. Dismas; exploração do funcionamento de grupos religiosos que vivem em marginalização.

– Linguagem deveras coloquial em discurso directo recorrente; demasiados anglicismos, talvez numa tentativa de aproximação a público-alvo mais alargado e leitores mais jovens; desenvolvimento incipiente dos personagens ao longo da trama; remissões repetitivas para o primeiro tomo da trilogia.


3.6 / 5

Rating: 3.5 out of 5.

Excertos

8.33% ““A superstição, na sua raiz, é um medo excessivo dos deuses. O receio de uma profecia. Em latim, superstitio é algo que sobrou, que ficou de fora. Fora de quê? Da limitadíssima capacidade humana de compreender; como se os deuses tivessem deixado, aqui e ali, zonas de sombra que atemorizam o humano, propositadamente zombando da nossa finita razão.” – cap. Prisão de Brixton”

10.94% ““A manifestação mais óbvia do diabo é a sua capacidade de se esconder (…) fez-nos crer em si próprio disfarçado de outro, do seu contrário.” – cap. Prisão de Brixton”

21.01% ““A Inglaterra era um pedaço de terra isolado do continente europeu, onde os locais tinham hábitos diferentes, arraigados, sobranceiros – conduziam do lado errado da estrada, gostavam de cerveja insípida, salsichas com puré de batata e atiravam queijos do cimo de uma colina íngreme, para depois quase se matarem no seu encalço.” – cap. Brixton, p. 121”

25.87% “”Se não tivermos cuidado com esta gente, ainda vamos acabar a comer os nossos próprios testículos” – cap. Ilha de St. Dismas, p. 149″

60.07% “”Exerço com consciência e dignidade, é o que diz o juramento (de Hipócrates). E bom senso, claro.”

“E se tudo isto for o contrário do bom senso?”, perguntou Pilar. – cap. 17 de abril, ilha de St. Dismas, p. 345″

68.06% “”Essa história do Papillon é a melhor de todas, e eu sou como o Degas, a outra personagem principal. Não tenho interesse nenhum em fugir da prisão, gosto mais da vida aqui dentro do que lá fora”. – cap. ’19 de abril, prisão de Brixton’, p. 376″

O Futuro que Escolhermos — Christiana Figueres, Tom Rivett-Carnac

crítica

Regeneração, com optimismo e teimosia

“The Future We Choose” (O futuro que escolhermos) apresenta-se como um livro essencial para a tomada de ação face à crise climática, que imprime logo nas primeiras páginas o sentido de urgência, contrabalanceado pelo optimismo que caracteriza os autores. Figueres foi secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas e Rivett-Carnac consultor em políticas de alterações climáticas, tendo ambos fundado a organização Global Optimism e participado no leme das negociações do Acordo de Paris na conhecida COP 21 em 2015, decisivas para a democracia ambiental e descritas ao longo da obra.

A princípio, o livro assemelha-se a “Uma vida no nosso planeta” de Sir David Attenborough, fornecendo cenários alternativos para a vida na Terra até ao final do século XXI. A primeira parte, denominada deveras “Dois Mundos”, introduz hipóteses para o aumento da temperatura global a 1.5ºC, 2ºC e 3ºC, sustentadas em ciência climática, contudo apocalípticas. A leitura do segundo capítulo, “O mundo que estamos a criar”, revela-se particularmente marcante pela transposição desta realidade apavorante e não tão utópica em diversos sistemas da vida no planeta.

Na apresentação do estado da arte climático, são abordados conceitos como holoceno e antropoceno, pergelissolo, roadmap exponencial, ponto de viragem (tipping point), desflorestação, rewilding, ou perda de biodiversidade. Após esta tomada de consciência que desperta no leitor um estado de alarme e, paralelamente, de letargia pela aparente impotência das nossas ações, Figueres e Rivett-Carnac listam uma série de hábitos e mudanças, a saber: libertar-se do velho mundo; enfrentar o desgosto com visão de futuro; defender a verdade; ser cidadão, não consumidor; abandonar os combustíveis fósseis; reflorestar a Terra; investir numa economia limpa; usar a tecnologia de forma responsável; construir a igualdade de género e envolver-se na política. 

Este conjunto de propostas relevantes que tornam este livro primeiramente teórico numa ferramenta acionável, são sem embargo repetidas em circuito fechado na conclusão: participar politicamente, plantar árvores e reduzir emissões variadas vezes, carecendo de aprofundamento e aglutinação com a demais narrativa.

Para lidar com o estado alarmante em que irrefutavelmente nos encontramos, os autores sugerem posicionamentos a adoptar quotidianamente ou “quadros mentais”: optimismo teimoso, abundância infindável e regeneração radical. Através de casos concretos, como Siddharta Gautama, políticas públicas na Califórnia de aquisição de energia proveniente de fontes “limpas” ou na Costa Rica de preservação da natureza, as rondas de negociações na COP 21 ou exemplos de modelos de coabitação regenerativa na Escócia ou no Japão, somos desafiados a olhar o problema quase incomensurável por estes prismas ou quadros, conducentes ao mundo que precisamos ou pretendemos edificar. No final do dia, o futuro que nós, individual e colectivamente por agregação, escolhermos.



Rating: 3 out of 5.

3.9

O Futuro que Escolhermos (2020) [The future we choose]. Temas e Debates. 236 pág.

As Intermitências da Morte — José Saramago

crítica

Morte, em minúscula

Desde “O Ano da Morte de Ricardo Reis” que não desbravava uma obra de Saramago. Após o primeiro contacto fortuito com “Memorial do Convento”, que apesar de carregar capítulos pesados e extensos sobre a construção do convento de Mafra, como as pedras que sustentam o imponente edifício, tem um poder de fascínio e de mágica inolvidáveis protagonizados pelos Sete Sóis e Sete Luas e a passarola do padre voador. A incursão seguinte, o ensaio ambicioso de complementar a ilustre arca de Pessoa, teve altos e baixos pela Lisboa dos anos 30, tendo terminado por desesperançar um pouco face ao Memorial. Neste título, mantém-se a presença e ubiquidade da morte, porém com um cunho e um ritmo bem mais despreocupado e desenvolto, por estranho que possa parecer ao abordar um assunto tão temido.

“No dia seguinte ninguém morreu” é a provocação em absoluto que instaura a obra. Numa dada sociedade, num dado tempo, num dado país, o caos está instalado. A imprecisão espaço-temporal, cronológica e nominativa no que ao nome e identificação dos personagens diz respeito é habitual na obra de Saramago, fazendo parte do seu desígnio de generalizar e tornar universais os temas que aborda. Temas esses que vão ser alvo de profundas perturbações e reflexão pelo simples facto de ninguém morrer, como o valor da vida e dos memórias que vivemos, as relações humanas, as esferas de poder, da monarquia, aos governos, ao clero e à maphia (com ph), até à própria sustentabilidade das finanças públicas, do sistema nacional de saúde e das indústrias que convivem de perto com a morte, como a funerária. Afinal de contas, a imortalidade tão cobiçada não parece ser assim tão sublime. Continua a haver sofrimento, agora sem fim, e um vazio niilista assombra os cidadãos deste país, nos idos de dois mil e cinco, com numerais por extenso, como tanto apraz a Saramago.

Um livro mais acessível do autor, com o seu estilo vincado indelevelmente ao longo de toda a prosa, revela que é possível satirizar e rir com a morte. A mesma que vem a ser protagonista para o final da trama e cujos desejos, inquietações e conversas com a inseparável gadanha são imperdíveis. Destaco como episódios marcantes o diálogo do primeiro-ministro com o rei,  a notícia no telejornal em torno dos ocultos sobrescritos violeta e o concerto do violoncelista. Como habitual, a sua leitura faz-nos indagar e raciocinar sobre falhas num sistema que tomamos por certo, sobre cenários que nos incitam ao “e se?”. 

Curto mas recheado de significado, metafísica e polissemântica, “As Intermitências” pode ser uma boa introdução à obra do autor. Observações perspicazes e satíricas sobre valores da sociedade são narradas no decurso da história, que conta com um final estonteante. O tom oralizante, repleto de expressões idiomáticas e populares enriquecem a prosa, que despretensiosamente aborda o ciclo e o valor da vida.

Rating: 4.5 out of 5.

4.3

Hábitos Atómicos — James Clear

crítica

Abrindo alas para uma estante menos habitual no blog, deixamo-nos alavancar pelas referências e adágios em produtividade e comportamento humano, num livro sucinto e despretencioso catalogado como não-ficção. Esperemos que as máximas e leis que enuncia para a construção e desenvolvimento de hábitos vos ajude como aqui o fez a desenferrujar a escrita para revisitar mais calhamaços.


Insiste, resiste, persiste

Pese embora pareça ouvirmos esta frase ao longe nos corredores do ginásio, esta máxima pronunciada tão frequentemente por treinadores, coaches e personal trainers constitui a tese central deste livro. A consistência é o que nos leva ao resultado. Tornarmo-nos cada dia 1% melhor. Pequenas mudanças, grandes resultados.

Com uma escrita limpa e pragmática, James Clear estrutura o processo de construção dos hábitos empilhado em quatro passos para o comportamento humano: i) deixa, ii) anseio, iii) resposta e iv) recompensa e alicerçado em quatro leis fundamentais: tornar o hábito i) evidente, ii) atractivo, iii) fácil e iv) gratificante. As três primeiras fazem com que o hábito emerja e aconteça, o última com que este continue e não desapareça. Para isto são nos enunciadas ‘leis’ e tácticas, i.e. a regra dos dois minutos, os caracóis de ouro e o empilhamento de hábitos.

sem enveredar pelo caminho e pedante dos livros do género em busca incessante pela produtividade porque sim ou de auto-ajuda, que prometem oferecer uma kriptonite para a procrastinação e uma panaceia para a eficácia.

Escrito num modelo usual nos livros não-ficção: exemplo/parábola > problema > solução > enquadramento teórico, Atomic Habits: An Easy & Proven Way to Build Good Habits & Break Bad Ones retém o leitor com espécimes de outros humanos como nós, mais ou menos bem sucedidos, que confiam nos hábitos para chegar ao sucesso com consistência, estremando-se assim amadores de profissionais.

Revelando um sólido conhecimento da psicologia e do comportamento humano e o que nos faz dar o ‘click’, o autor entrega um resultado com um forte pendor prático, transmissível, sem enveredar pelo caminho e pedante dos livros do género em busca incessante pela produtividade porque sim ou de auto-ajuda, que prometem oferecer uma kriptonite para a procrastinação e uma panaceia para a eficácia.

“É frequente cairmos num ciclo de tudo ou nada com os nossos hábitos. O problema não é escorregar uma vez, o problema é pensar que, se não somos capazes de fazer uma coisa de uma forma perfeita, então não devemos fazê-la de todo.”

– cap. 4ª lei: tornar o hábito gratificante, p. 197

Logo após fazer com que capa e contracapa se encontrassem pelo término do livro, o ímpeto imediato foi fazer deslizar para trás a tampa do portátil e dar ao dedo para finalizar esta análise. Afinal, o propósito e resultado do livro foi atingido. Se esta pequena mudança levará a maiores resultados, cabe ao tempo o veredicto.


4.0

Rating: 4 out of 5.

Hábitos Atómicos [2017]. Lua de Papel. 304 pág.

#geraçãodeleitores O Alquimista — Paulo Coelho

geraçãodeleitores

Neste episódio, o recém aniversariante Rodrigo traz-nos um volume sobejamente conhecido dentro e além fronteiras, ou não estaríamos a falar do livro lusófono mais traduzido de sempre, bem como o maior bestseller. Como tudo o que esse atributo descreve, reúne consenso como livro favorito por uns e, simultaneamente, dissonâncias por ser considerado uma mera amálgama de aforismos por outros.

Rodrigo, especialista em converter cliques em clientes e em avivar invariavelmente um sorriso na cara dos seus amigos, sempre procurou respostas para questões da sociedade, não se conformando com refutações que a polarizam.

Apresentando um registo menos convencional no Calhamaço, abrimos os horizontes para compreender o que faz esta obra figurar nas listas do livros que mais marcaram os seus leitores, ao fim e ao cabo a intenção precisa da rubrica Geração de Leitores. Só assim ouvimos outras vozes e partilhamos literatura.



A alquimia refere-se à ciência oculta medieval que se dedica a descobrir o elixir da vida e a pedra filosofal, permitindo transformar qualquer metal em Ouro. Paulo Coelho não poderia ter escolhido melhor nome para este conto, detentor do recorde do Guinness para o livro mais traduzido de um autor vivo.

Para fazer jus à sua escrita, deixo de fora deste comentário palavras francesas e construções frásicas complexas, pois o próprio conto parece ser redigido para crianças, pela sua escrita informal e infantil. Desta forma, somos convidados a recuar no tempo e a recuperar os nossos sonhos de infância, e, completamente desarmados, compreender os princípios básicos da busca da felicidade – ou da pedra filosofal.

Viajando com Santiago, um pastor andaluz que larga a sua casa em busca de um destino que lhe foi apresentado num sonho, desejamos entender de que maneira este conseguirá ultrapassar todas as peripécias que lhe vão surgindo para chegar ao tão aguardado final – pois é esta a nossa expectativa adulta: há uma Viagem, terá por certo que haver um destino concreto. Existem ao longo do conto infortúnios, mas será preciso vencê-los para chegar ao destino final. Santiago fará amizades, mas será preciso deixá-las para chegar ao destino final.

Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro.

No final da leitura, um coração que se foi tornando infantil saberá um pouco melhor de que destino se fala. Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro. Entendemos que, como Santiago, estamos também nós num processo de alquimia, e que também nós nos encontramos nesta Viagem, e que assim será até ao último dia. O Alquimista confere-nos a tranquilidade de saber que a Viagem está longe de estar concluída, e que deve ser assumida de acordo com a nossa “Lenda Pessoal”. Se assim for, estaremos um passo mais perto de nos transformarmos em Ouro. 

“Eles não sabem, nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança”. 

“Pedra Filosofal”, António Gedeão



O Alquimista. 192 pág. 1988

Editado em Portugal pela Pergaminho e 11×17.

* Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores Fratelli Tutti — Papa Francisco

geraçãodeleitores

Para abrir o ano num tom de esperança, após um mês de quietude e tempo para reflectir nos projectos para dois mil e vinte e um, trazemos a nova encíclica do Papa Francisco, que por seu turno traz no bico uma mensagem com um forte pendor de tolerância, compaixão fraternidade entre os povos.

Escrita no rescaldo do longo distanciamento social, bem como da série de confinamentos vivenciados por todo o mundo para fazer face à mais recente pandemia, Fratelli Tutti alerta para a nova realidade, que exacerbou fissuras no tecido social e pôs à prova a paciência da nossa sociedade contemporânea, habituada a uma cultura instantânea, de soluções quasi-imediatas e prêt-à-porter.

Margarida sugere-nos a leitura atenta desta boa nova como resposta aos tempos incomuns e sem precedentes para a nossa geração. De olhar vigilante, um coração que parece não ter fronteiras e uma preocupação muito premente por inclusão social, ouvimos esta amiga que é também exemplo de esperança, superação e perseverança.



Fratelli Tutti, em português [Todos irmãos], é uma proposta de São Francisco de Assis que o Papa Francisco vem reforçar e aprofundar na sua nova carta encíclica sobre a fraternidade universal e a amizade social que desafia todos, crentes e não crentes cristãos.

Tal como na sua última carta encíclica Laudato Si, o Santo Padre reflete com uma enorme clareza sobre os sinais dos tempos, sem medos de tocar nas feridas que são as guerras, os conflitos, o individualismo, a indiferença e o descarte universal. Todas estas feridas são consequência de um modo de viver que não confere a devida dignidade humana ao próximo.

A carta encíclica Fratelli Tutti é outra prova do envolvimento do chefe da Igreja nas mais variadas áreas para o desenvolvimento da Humanidade, afirmando-se, com conhecimento, na política e na economia e apontando o diálogo como chave do progresso em qualquer uma das frentes. A sua reflexão sobre a política é de uma enorme riqueza, abordando e desmistificando alguns termos como o populismo e o liberalismo e clarificando ainda que a grandeza política reside na capacidade de “assumir este dever num projeto de nação, e, mais ainda, num projeto comum para a Humanidade presente e futura”.

A Fratelli Tutti é uma leitura densa pela importância de cada parágrafo. É um livro que requer disponibilidade para a reflexão e posterior transformação dos seus leitores. O convite do Papa Francisco é o de recomeçarmos e trabalharmos por ser construtores de sociedades mais abertas que integram todos, ungindo todos e qualquer um com a mesma dignidade humana.

“É um livro que requer disponibilidade para a reflexão e posterior transformação dos seus leitores.”

Se com a leitura desta carta encíclica não nos sentimos interpelados a comprometermo-nos com a fraternidade universal e com o bem comum, ou pelo menos com o desejo profundo de nos tornarmos comprometidos, apesar da nossa limitação, então a leitura não cumpriu o seu propósito.




Fratelli Tutti. 184 pág. 2020

Editado em Portugal pela Paulinas Editora e Apostolado da Oração.

*Esta recomendação faz parte da iniciativa Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores A Era dos Muros — Tim Marshall

geraçãodeleitores

Transpondo muros da desinformação e do preconceito, a convidada da #geraçãodeleitores não baixa os braços na sua missão de fazer chegar a mensagem das maiores questões humanitárias que assolam o nosso mundo. Um desafio majorado num mundo que, apesar da aparente enxurrada de informação e comunicação através dos meios digitais, se arrisca a ser mais indiferente pelo próximo e desconhecedor dos factos que jamais.

A dar este salto está Mafalda, estudante de medicina, apaixonada por húngaros de chocolate e criadora de uma página no Instagram que almeja trazer esta mensagem de igualdade: @kisokelela. A sua recomendação de leitura do autor de Prisioneiros da Geografia (analisado no Calhamaço) dá-nos uma visão global sob as fronteiras que mais nos dividem, para que possamos aprender com essas cisões e, no seu lugar, construir pontes.


Entender o que nos divide, no passado e no presente, é essencial para compreender tudo o que se está a passar no mundo.

Esta é a principal premissa do livro “A Era dos Muros” de Tim Marshall, ao longo do qual são descritas de forma audaciosa e pragmática não só as principais barreiras físicas que dividem o nosso planeta, mas também as barreiras imaginárias que existem no seio das várias sociedades, descritas pelo autor como sendo “mentalidades de fortaleza”.


“A divisão molda a política a todos os níveis – pessoal, local, nacional e internacional. Cada história tem dois lados, e o mesmo se passa com cada muro. É essencial estarmos conscientes daquilo que nos dividiu, e que continua a fazê-lo, de forma a compreendermos o que se está a passar no mundo de hoje.”

p. 12

Marshall reforça a ideia de que pelo menos um terço (1/3) de todos os países do mundo contam com algum tipo de muro ou separação física entre si, devido aos mais diversos factores: guerras, alterações climáticas, religião, perseguições étnicas ou, até mesmo, controlo por regimes totalitários.

O livro perscruta a questão fronteiriça entre o México e os EUA, Israel e Palestina, Arábia Saudita e Irão, Bangladesh e Myanmar, entre outros. Explora também questões tais como a exclusão com base na etnia ou religião, como é o caso dos muçulmanos uigures ou budistas tibetanos em relação aos chineses han.

Acima de tudo, “A Era dos Muros” permite ao leitor abrir os horizontes em relação a algumas das mais ignóbeis atitudes humanas, que determinam o cada vez mais evidente distanciamento entre sociedades e culturas e o oblívio da nossa humanidade em comum.

Considero ser uma leitura impreterível para todos os que se interessem por geopolítica e que procurem saber mais sobre o que motivou muitas das segregações que se vivem nos dias de hoje.



A Era dos Muros [Divided: Why We’re Living in an Age of Walls]. 288 pág. 2018

Editado em Portugal pela editora Desassossego e nos Estados Unidos pela Elliott & Thompson.

*Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores Princípio de Karenina — Afonso Cruz

geraçãodeleitores

Neste segundo episódio #geraçãodeleitores, convidámos o nosso caro amigo Afonso, vencedor consagrado de inúmeros Movembers, data scientist fã de esmiuçar as margens dos retalhistas em busca do melhor desconto, sportinguista incurável e deslumbrado pela poesia de Daniel Faria e Pessoa.

Apresenta-nos Afonso Cruz, um one-man band, que toca literalmente em quase todos os ofícios artísticos durante a sua carreira: escritor, ilustrador, realizador, músico. Conhecido pelas suas alegorias e memoráveis aforismos, é sem dúvida um autor a ter debaixo de olho e na senda de prestigiados prémios em nome da literatura portuguesa e lusófona.



Quando começam as nossas histórias? Esta é mais uma das perguntas inquietantes que Afonso Cruz nos coloca na comovente carta que um pai escreve à sua filha, onde lhe conta as suas origens e o que foi aprendendo ao longo da vida, entre lições e arrependimentos.

Narrado na primeira pessoa e carregado de intimidade, este livro fala-nos da importância de valorizarmos o que nos rodeia, desde a família aos amigos, de nos mostramos disponíveis e abertos para o mundo, para o amor ao próximo (física ou emocionalmente) e para o abstrato conceito da felicidade.

À semelhança de outras obras do escritor, Princípio de Karenina surge também como uma espécie de exame de consciência que, caso o permitamos, nos dá material suficiente para colocarmos a nossa própria vida em perspetiva.

Ao longo do seu trabalho literário, o autor defende que, mesmo que o não consigamos identificar, acontecimentos que possamos reconhecer como independentes uns dos outros se encontram unidos por fios. Numa escala menor, mas como forma de reforçar o seu argumento, Afonso cria ligações brilhantes entre os seus livros de modo a tornar as suas próprias narrativas mais realistas, característica que reforça este convite do escritor à introspecção.

Ao tentar responder à questão que inicia este comentário, este pai afirma que “Tudo começa a todo o instante (…) todos os lugares são centros e todos os instantes são começos”.

Da minha parte, apenas me resta dizer que nenhum instante é tarde para começar a ler Afonso Cruz.



Princípio de Karenina. 168 pág. 2018

Livro editado em Portugal pela Companhia das Letras, uma chancela da Penguin Random House.

*Esta opinião faz parte da rubrica Geração de Leitores.

Prisioneiros da Geografia — Tim Marshall

crítica

Manobrar a desconfiança do “outro”

Olhar para um mapa-mundi (frequentemente representado de forma desproporcional à escala de Mercator que tende a sobreavaliar o mundo Ocidental), sempre me suscitou o maior fascínio. Naturalmente, após percorrer demoradamente as mais variadas linhas que constituem um mapa, surgiam a dada altura questões sobre as suas fronteiras ou divisões administrativas. Porque é que algumas seguem o curso natural dos rios e cordilheiras enquanto outras traçam verdadeiras rectas? Porque é que algumas regiões têm maior concentração de países de pequena escala enquanto outras têm nações que se estendem a larga escala por todo o território?

Prisioneiros da Geografia é indicado para quem partilha estas interrogações e aprecia aventurar-se no vasto e intrincado mundo da ciência que procura explicar como se governa o mundo, – a geopolítica – e, paralelamente, como este se relaciona – a diplomacia. Um livro com o desígnio de explicar a compartimentação do planeta Terra será sempre sujeito a crítica, por tocar apenas ao de leve em assuntos deveras complexos e multifacetados, por privilegiar determinadas áreas, ou ainda por adoptar um olhar mais ocidentalizado. Contudo, Marshall cumpre o desafio de forma muito competente e ultrapassa estes obstáculos epistemológicos. O facto de o conseguir de forma sintética é também bastante abonatório. Embora considerados o cânone da disciplina diplomática, confesso ter sempre evitado os grandes tomos de Henry Kissinger. 

Produto final de viagens pessoais e profissionais de Tim Marshall enquanto jornalista a vários pontos do globo (cobrindo os conflitos na Jugoslávia, Kosovo, Afeganistão, Iraque, Líbano, Síria e Israel com a BBC e Sky News), este livro está ‘arrumado’ e convenientemente organizado em dez grandes mapas que procuram explicar o porquê da organização do nosso planeta – Rússia, China, EUA, Europa Ocidental, África, Médio Oriente, Índia e Paquistão, Coreia e Japão, América Latina, Ártico. Marshall apresenta em cada capítulo, que versa sobre um dos mapas, um estudo estratégico semelhante aos elaborados por consultores de gestão a determinados mercados, oferecendo uma análise meticulosa dos dois lados da barricada que explora as fragilidades e forças das principais potências mundiais. Ao efectuar esse exercício, não se esquece igualmente de oferecer um olhar curioso à interligação dos referidos mapas no sistema internacional. Como indicado pelo título, o autor segue a teoria determinista da geografia e recorda que dela somos prisioneiros. O determinismo geográfico contemporâneo foi sobejamente desenvolvido por Jared Diamond no seu consagrado Guns, Germs and Steel, que aponta o dedo a factores naturais, climáticos e meteorológicos como determinantes para a distribuição geográfica das sociedades e a própria evolução humana.


“Desde o grande principado de Moscovo, pasando por Pedro, o Grande, Stalin e agora Putin, cada líder russo tem sido confrontado com os mesmos problemas. Não importa se a ideologia de quem detém o poder é czarista, comunista ou aproximada do capitalismo – os portos continuam a gelar e a planície do norte Europeu continua plana.”

— capítulo Rússia, p. 40

Neste livro conciso, aprendi especialmente sobre a Rússia e o que tira o sono a Putin – existirem montanhas somente nos Cárpatos -, a rivalidade entre a Índia e o Paquistão sem resolução à vista, as ambições do dragão chinês nos vários continentes, a criação arbitrária dos estados-nação no Médio Oriente, desenhados a régua e esquadro pelas potências ocidentais sem conhecimento geográfico da região e, por fim, a série de características naturais favoráveis com que foram brindados os norte americanos, o que ajudou em larga escala a garantir o seu papel como hegemon mundial.

Os endowments geográficos determinaram na história a prosperidade das nações. A desconfiança do “outro” propiciou conflitos, guerras e a luta pela supremacia e pelo acesso a determinados recursos. Apesar do encurtamento de distâncias e o acesso a regiões outrora inóspitas pelo meio do progresso tecnológico, a geopolítica foi e será sempre moldada pela geografia: os montes e vales, os recursos hídricos, rios navegáveis, portos naturais e climas propícios ao desenvolvimento humano. Somos e seremos subservientes à geografia. Já é tempo de a sabermos usar a nosso favor e de compartilharmos o inestimável território terrestre com os demais. 


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Prisioneiros da Geografia (2016)

[Prisoners of Geography], 255 pág., Editora Desassossego