No início é nos dada a conhecer a inusitada família Ventura e um não-lugar no interior de África onde coabitam que nem eremitas, mantendo apenas proximidade com o mundo através do tio Aproximado. Desenvolve-se então uma história construída numa narrativa simples sobre o remorso e o esquecimento.
‘Jesusalém’ é um refúgio para almas perdidas que se encontram em pequenas coisas e assim fingem afastar-se do passado.
Mia Couto é um contador de histórias competente e extremamente criativo. A multiplicidade de jogos de palavras, neologismos e incorporação de um qualquer criolo comprova isso mesmo, espelhado no próprio título da obra: ‘Jesusalém’. Uma justaposição curiosa que resume numa palavra a ideia a transmitir de confinamento e distância.
É um livro que merece ser escrevinhado, sublinhado, realçado. Repleto de frases memoráveis e enquadrado por poemas fantásticos de Sophia de Mello Breyner.
Quando Daniel é levado pelo seu pai ao Cemitério dos Livros Esquecido, não imagina o quanto a sua própria vida se irá relacionar e enraízar no enredo do livro peculiar que, de entre milhares nesse santuário de páginas e páginas abandonadas, escolhe e devora num fôlego (ou terá sido ele o escolhido pelo livro?).
Daniel passa a viver assombrado por ‘A Sombra do Vento’, e consequentemente apercebe-se que também ele pertence àquela história, decidindo investigá-la e ao seu curioso e oculto autor Julián Carax encontrando pelo caminho personagens marcantes como Núria Monfort, Barceló ou o excêntrico Fermín Romero de Torres, que através do seus comentários eruditos e hilariantes arranca um sorriso do leitor.
A influência pessoal de um escritor na sua obra, bem como a sua dicotomia com o leitor é amplamente explorada neste livro que leva um livro dentro.
” A sua alma está nas suas histórias. Numa ocasião perguntei-lhe em quem se inspirava para criar as suas personagens e ele respondeu-me que em ninguém. Que todas as personagens eram ele próprio.
— Daniel
Uma aventura pelos meandros de Barcelona do pós-guerra, carregada de medo, suspeita e vigia constante do regime fascista de Franco, perdendo-se infelizmente em demasia na vida de Carax e na obsessão do seu paradeiro. Com suspense ao virar da página, é uma narrativa bem construída, pese embora o seu ponto mais favorável são os personagens inesquecíveis criados por Zafón que vagueiam pela cidade.
Um livro que nos marca, reflectindo o quanto um livro pode mudar as nossas vidas, a começar por ele próprio.
Livro revela que José Luís Peixoto é um grande escritor do panorama nacional e internacional. O seu estilo é inconfundível com diferentes ritmos narrativos, frases curtas (simples e simultaneamente complexas), múltiplos assíndetos, que acrescentam, através de vírgulas, sensações, inúmeras sensações, um emaranhado de sensações do quotidiano, magistral e unicamente descritas por José Luís Peixoto.
Todo o ‘Livro‘ tem uma estrutura circular com duas partes distintas, a primeira mais aliciante e recheada com as tais inconfundíveis sensações que valorizam muito este livro, a segunda é original e interessante, no entanto, por vezes despropositada e dispersa.
Em realidade, fiquei mais adepto do escritor do que da obra concreta (Livro livro e livro personagem: um trocadilho cíclico), embora as personagens (Ilídio, Adelaide, Josué, velha Lubélia, Cosme, para citar os mais marcantes) se tornaram memoráveis.
“Existe o que quero dizer e existe a minha voz. Nem sempre o tom da minha voz corresponde ao que quero dizer e, mesmo assim, molda-o tanto como as palavras, indexadas em dicionários que já estavam impressos antes de eu nascer. (…) A minha voz é como este livro: capa, papel, peso medido em gramas. O que quero dizer também é como este livro: mundo subjectivo, existente e inexistente, sugerido pelo significado das palavras.
— página 235
Em suma, o contexto da imigração portuguesa e da descrição da transição provinciana e rural portuguesa com os seus etnográficos detalhes, costumes e tradições ao ambiente urbano francês conferiu ao livro um carácter de bastante interesse.
Um incontornável clássico, um livro intemporal, paralelamente simples e complexo, leve e pesado, como a própria existência humana que procura retratar.
Marco na literatura existencialista que condensa nas suas páginas as consequências das paixões violentas, os triângulos amorosos, a Primavera de Praga, chapéus, as nossas inseguranças, a companhia que encontramos nos animais de estimação. Um livro que condensa nele a busca pelo sentido da vida, dado que o seu fim é fugaz e inefável, e reflecte sobre quanto pesa a alma.
Estamos perante um grande escritor que cria curtos mas densos capítulos que se lêem com admirável leveza. Como o próprio ser.
Agualusa, mais do que um mero romancista, revela-se um natural e excelente contador de historias, inúmeras historias dos vários cantos da lusofonia envoltas umas nas outras, complementando-se umas às outras, encaixadas no enredo principal da relação entre dois linguistas portugueses de idades completamente distintas em busca de misteriosos e intrigantes neologismos roubados à língua dos pássaros.
O ‘Milagrário Pessoal‘ do narrador angolano guarda então vários milagres, incluindo o seu, e, é uma viagem através da história da língua portuguesa e do seu legado, para o qual José Eduardo Agualusa contribuiu bastante com este livro. Uma leitura ligeira e prazerosa que enaltece a nossa língua.
Interessante retrato do interbellum e dos loucos anos 1920.
A folia e cosmopolita vida de Paris e a pacata e tradicional Espanha vista sob o olhar de expatriados americanos.
O livro descreve extensivamente sobre temas como a admiração pela pesca e pelos toros e a tauromaquia, o que a dada altura se revela um tanto maçador e entediante. Por outro lado, é curioso verificar através da temática transversal do livro, que nestes loucos anos havia já o conceito de friendzone sentido silenciosamente na pele por Jake face à destemida e icónica Brett.
A cosmopolita Paris e a tradicional Espanha vista sob o olhar de expatriados americanos
Em suma, um romance que desapontou, talvez por uma questão de alta expectativa, e que não se destaca nem se imortaliza particularmente por nenhum episódio, personagem ou artifício de estilo literário (neste domínio, a tradução nesta edição deixou muito a desejar). Contudo, ‘The Sun Also Rises‘ abre o apetite a mais títulos da obra de Hemingway, o escritor soldado.
“Ah! que venturoso eu fora se não tivesse nascido em parte nenhuma e entretanto existisse.”
Antes de tudo, a palavra. Uma escrita soberba.
Sá-Carneiro usa língua portuguesa como ninguém, enaltecendo-a através de artifícios, de inversões sintáticas, de vocábulos arrojados e opulentos. ‘A Confissão de Lúcio‘ é uma novela vanguardista e à frente do seu tempo cujo valor inestimável está no seu estilo e na retórica, meritória de ser sublinhada de capa a contracapa.
” sabia-me arrastado, deliciosamente arrastado, em uma nuvem de luz que me encerrava todo e me aturdia os sentidos – mas não deixava ver, embora eu tivesse a certeza de que eles me existiam bem lúcidos. Era como se houvesse guardado o meu espírito numa gaveta.“
Ler este livro foi altamente recompensador pela prosperidade linguística que dele transborda, e acima de tudo, pela oportunidade de ter um vislumbre de uma mente do Modernismo português, essa ínclita geração de Orpheu.
Uma novela vanguardista e à frente do seu tempo cujo valor inestimável está no seu estilo e na retórica
Semelhanças com Pessoa ortónimo e Álvaro de Campos na sua fase abúlica não são mera coincidência, como se encontra evidenciado neste excerto:
“Meus tristes sonhos, meus grandes cadernos de projectos – acumulei-vos numa ascensão, e por fim tudo ruiu em destroços… Etéreo construtor de torres que nunca se erguem, de catedrais que nunca se sagraram… Pobres torres de luar… pobres catedrais de neblina…!
— página 79
Quanto à trama, por mais rocambolesca e inverosímil que esta possa parecer, como o narrador nos indica, trata-se de uma dura confissão, da verdade, da ‘vida’ de Lúcio, envolta numa névoa de sensações, emoções, espiritualidade.
” Acho me tranquilo — sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado de um outro. Permaneci, mas não me sou.
Uma obra curta porém indispensável para admirar a arte que é a língua lusitana e compreender um movimento e um autor de mão cheia que partiu cedo demais.