#geraçãodeleitores O Alquimista — Paulo Coelho

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Neste episódio, o recém aniversariante Rodrigo traz-nos um volume sobejamente conhecido dentro e além fronteiras, ou não estaríamos a falar do livro lusófono mais traduzido de sempre, bem como o maior bestseller. Como tudo o que esse atributo descreve, reúne consenso como livro favorito por uns e, simultaneamente, dissonâncias por ser considerado uma mera amálgama de aforismos por outros.

Rodrigo, especialista em converter cliques em clientes e em avivar invariavelmente um sorriso na cara dos seus amigos, sempre procurou respostas para questões da sociedade, não se conformando com refutações que a polarizam.

Apresentando um registo menos convencional no Calhamaço, abrimos os horizontes para compreender o que faz esta obra figurar nas listas do livros que mais marcaram os seus leitores, ao fim e ao cabo a intenção precisa da rubrica Geração de Leitores. Só assim ouvimos outras vozes e partilhamos literatura.



A alquimia refere-se à ciência oculta medieval que se dedica a descobrir o elixir da vida e a pedra filosofal, permitindo transformar qualquer metal em Ouro. Paulo Coelho não poderia ter escolhido melhor nome para este conto, detentor do recorde do Guinness para o livro mais traduzido de um autor vivo.

Para fazer jus à sua escrita, deixo de fora deste comentário palavras francesas e construções frásicas complexas, pois o próprio conto parece ser redigido para crianças, pela sua escrita informal e infantil. Desta forma, somos convidados a recuar no tempo e a recuperar os nossos sonhos de infância, e, completamente desarmados, compreender os princípios básicos da busca da felicidade – ou da pedra filosofal.

Viajando com Santiago, um pastor andaluz que larga a sua casa em busca de um destino que lhe foi apresentado num sonho, desejamos entender de que maneira este conseguirá ultrapassar todas as peripécias que lhe vão surgindo para chegar ao tão aguardado final – pois é esta a nossa expectativa adulta: há uma Viagem, terá por certo que haver um destino concreto. Existem ao longo do conto infortúnios, mas será preciso vencê-los para chegar ao destino final. Santiago fará amizades, mas será preciso deixá-las para chegar ao destino final.

Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro.

No final da leitura, um coração que se foi tornando infantil saberá um pouco melhor de que destino se fala. Nesse momento, nós, já crianças, encontramos o final do conto em nós mesmos, e não nas páginas do livro. Entendemos que, como Santiago, estamos também nós num processo de alquimia, e que também nós nos encontramos nesta Viagem, e que assim será até ao último dia. O Alquimista confere-nos a tranquilidade de saber que a Viagem está longe de estar concluída, e que deve ser assumida de acordo com a nossa “Lenda Pessoal”. Se assim for, estaremos um passo mais perto de nos transformarmos em Ouro. 

“Eles não sabem, nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança”. 

“Pedra Filosofal”, António Gedeão



O Alquimista. 192 pág. 1988

Editado em Portugal pela Pergaminho e 11×17.

* Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores Fratelli Tutti — Papa Francisco

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Para abrir o ano num tom de esperança, após um mês de quietude e tempo para reflectir nos projectos para dois mil e vinte e um, trazemos a nova encíclica do Papa Francisco, que por seu turno traz no bico uma mensagem com um forte pendor de tolerância, compaixão fraternidade entre os povos.

Escrita no rescaldo do longo distanciamento social, bem como da série de confinamentos vivenciados por todo o mundo para fazer face à mais recente pandemia, Fratelli Tutti alerta para a nova realidade, que exacerbou fissuras no tecido social e pôs à prova a paciência da nossa sociedade contemporânea, habituada a uma cultura instantânea, de soluções quasi-imediatas e prêt-à-porter.

Margarida sugere-nos a leitura atenta desta boa nova como resposta aos tempos incomuns e sem precedentes para a nossa geração. De olhar vigilante, um coração que parece não ter fronteiras e uma preocupação muito premente por inclusão social, ouvimos esta amiga que é também exemplo de esperança, superação e perseverança.



Fratelli Tutti, em português [Todos irmãos], é uma proposta de São Francisco de Assis que o Papa Francisco vem reforçar e aprofundar na sua nova carta encíclica sobre a fraternidade universal e a amizade social que desafia todos, crentes e não crentes cristãos.

Tal como na sua última carta encíclica Laudato Si, o Santo Padre reflete com uma enorme clareza sobre os sinais dos tempos, sem medos de tocar nas feridas que são as guerras, os conflitos, o individualismo, a indiferença e o descarte universal. Todas estas feridas são consequência de um modo de viver que não confere a devida dignidade humana ao próximo.

A carta encíclica Fratelli Tutti é outra prova do envolvimento do chefe da Igreja nas mais variadas áreas para o desenvolvimento da Humanidade, afirmando-se, com conhecimento, na política e na economia e apontando o diálogo como chave do progresso em qualquer uma das frentes. A sua reflexão sobre a política é de uma enorme riqueza, abordando e desmistificando alguns termos como o populismo e o liberalismo e clarificando ainda que a grandeza política reside na capacidade de “assumir este dever num projeto de nação, e, mais ainda, num projeto comum para a Humanidade presente e futura”.

A Fratelli Tutti é uma leitura densa pela importância de cada parágrafo. É um livro que requer disponibilidade para a reflexão e posterior transformação dos seus leitores. O convite do Papa Francisco é o de recomeçarmos e trabalharmos por ser construtores de sociedades mais abertas que integram todos, ungindo todos e qualquer um com a mesma dignidade humana.

“É um livro que requer disponibilidade para a reflexão e posterior transformação dos seus leitores.”

Se com a leitura desta carta encíclica não nos sentimos interpelados a comprometermo-nos com a fraternidade universal e com o bem comum, ou pelo menos com o desejo profundo de nos tornarmos comprometidos, apesar da nossa limitação, então a leitura não cumpriu o seu propósito.




Fratelli Tutti. 184 pág. 2020

Editado em Portugal pela Paulinas Editora e Apostolado da Oração.

*Esta recomendação faz parte da iniciativa Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores O Visconde cortado ao meio — Italo Calvino

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A fechar a quadra natalícia, um caro amigo chega como convidado para nos introduzir um clássico contemporâneo curto e facilmente digerível após o banquete de Natal, perfeito para empurrar com uma fatia restante de bolo rei e champagne do réveillon. Conimbricence naturalizado lisboeta, apaixonado pela aviação e economista que procura minuciar a estatística portuguesa. Francisco é um jovem economista curioso, meticuloso e cândido que domina a arte de bem receber. Um leitor assíduo um tanto tardio que redescobriu o gosto pela arte com o avizinhamento da actual pandemia.

Neste episódio da #geraçãodeleitores, recomenda-nos uma das primeiras obras de Italo Calvino, uma dos principais vozes da literatura italiana, que publicou inclusivé o ensaio lido por muitos bibliófilos que ressalva a pertinência e atemporalidade das maiores obras da literatura: “Porquê ler os clássicos” [Perché leggere i classici]. Calvino tem o talento de fazer ebulir ideias e premissas inusitadas de forma a transbordar criatividade das suas páginas.


“Não tinha a intenção de fazer uma alegoria moral, nem muito menos política”. A edição que li (Teorema) vinha capeada com esta citação de Calvino, que, como podem imaginar, faz exatamente isso mesmo nesta pequena obra.


O Visconde Cortado ao Meio” retrata um muito jovem aristocrata que se vê envolvido numa guerra contra os turcos, onde, logo na primeira batalha, vê o seu corpo ser trespassado por uma bala de canhão que o divide em dois. Uma das metades, que no início se acreditava ser a única, concentra em si apenas a maldade, o rancor e a fúria, e irá espalhar o terror quando regressa ao seu feudo. A outra metade, que continha apenas bondade e virtude, fará mais tarde o mesmo caminho até que ambos se encontram e disputam o amor da mesma mulher.


Fosse esta obra uma fantasia infantil, o bom triunfaria sobre o mal e talvez até a metade maldosa se convertesse em bondosa. Mas esta é de facto “uma alegoria moral” sobre o Homem, que, ao ser dividido, se torna único porque perdeu qualquer contradição nos seus sentimentos e pensamentos: agora ou é completamente bom, ou completamente mau. Mas este ser único, seja bom ou mau, não será adorado pelo povo: um, porque o aterroriza, o outro porque é “demasiado bom”.


Calvino pretendeu retratar nesta obra o Homem moderno, que procura tão incessantemente ser único dentro de si, que acaba por perder as suas qualidades sociais e a essência do ser humano, um ser racional, ponderado e completo. É um caso em que a soma das partes, é maior que o todo.


O Visconde Cortado ao Meio [Il visconti dimezzato]. 160 pág. 1952

Editado em Portugal pela Dom Quixote e em Itália pela Mondadori.

*Esta recomendação faz parte da iniciativa Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores A Era dos Muros — Tim Marshall

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Transpondo muros da desinformação e do preconceito, a convidada da #geraçãodeleitores não baixa os braços na sua missão de fazer chegar a mensagem das maiores questões humanitárias que assolam o nosso mundo. Um desafio majorado num mundo que, apesar da aparente enxurrada de informação e comunicação através dos meios digitais, se arrisca a ser mais indiferente pelo próximo e desconhecedor dos factos que jamais.

A dar este salto está Mafalda, estudante de medicina, apaixonada por húngaros de chocolate e criadora de uma página no Instagram que almeja trazer esta mensagem de igualdade: @kisokelela. A sua recomendação de leitura do autor de Prisioneiros da Geografia (analisado no Calhamaço) dá-nos uma visão global sob as fronteiras que mais nos dividem, para que possamos aprender com essas cisões e, no seu lugar, construir pontes.


Entender o que nos divide, no passado e no presente, é essencial para compreender tudo o que se está a passar no mundo.

Esta é a principal premissa do livro “A Era dos Muros” de Tim Marshall, ao longo do qual são descritas de forma audaciosa e pragmática não só as principais barreiras físicas que dividem o nosso planeta, mas também as barreiras imaginárias que existem no seio das várias sociedades, descritas pelo autor como sendo “mentalidades de fortaleza”.


“A divisão molda a política a todos os níveis – pessoal, local, nacional e internacional. Cada história tem dois lados, e o mesmo se passa com cada muro. É essencial estarmos conscientes daquilo que nos dividiu, e que continua a fazê-lo, de forma a compreendermos o que se está a passar no mundo de hoje.”

p. 12

Marshall reforça a ideia de que pelo menos um terço (1/3) de todos os países do mundo contam com algum tipo de muro ou separação física entre si, devido aos mais diversos factores: guerras, alterações climáticas, religião, perseguições étnicas ou, até mesmo, controlo por regimes totalitários.

O livro perscruta a questão fronteiriça entre o México e os EUA, Israel e Palestina, Arábia Saudita e Irão, Bangladesh e Myanmar, entre outros. Explora também questões tais como a exclusão com base na etnia ou religião, como é o caso dos muçulmanos uigures ou budistas tibetanos em relação aos chineses han.

Acima de tudo, “A Era dos Muros” permite ao leitor abrir os horizontes em relação a algumas das mais ignóbeis atitudes humanas, que determinam o cada vez mais evidente distanciamento entre sociedades e culturas e o oblívio da nossa humanidade em comum.

Considero ser uma leitura impreterível para todos os que se interessem por geopolítica e que procurem saber mais sobre o que motivou muitas das segregações que se vivem nos dias de hoje.



A Era dos Muros [Divided: Why We’re Living in an Age of Walls]. 288 pág. 2018

Editado em Portugal pela editora Desassossego e nos Estados Unidos pela Elliott & Thompson.

*Esta recomendação faz parte da rubrica Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores Princípio de Karenina — Afonso Cruz

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Neste segundo episódio #geraçãodeleitores, convidámos o nosso caro amigo Afonso, vencedor consagrado de inúmeros Movembers, data scientist fã de esmiuçar as margens dos retalhistas em busca do melhor desconto, sportinguista incurável e deslumbrado pela poesia de Daniel Faria e Pessoa.

Apresenta-nos Afonso Cruz, um one-man band, que toca literalmente em quase todos os ofícios artísticos durante a sua carreira: escritor, ilustrador, realizador, músico. Conhecido pelas suas alegorias e memoráveis aforismos, é sem dúvida um autor a ter debaixo de olho e na senda de prestigiados prémios em nome da literatura portuguesa e lusófona.



Quando começam as nossas histórias? Esta é mais uma das perguntas inquietantes que Afonso Cruz nos coloca na comovente carta que um pai escreve à sua filha, onde lhe conta as suas origens e o que foi aprendendo ao longo da vida, entre lições e arrependimentos.

Narrado na primeira pessoa e carregado de intimidade, este livro fala-nos da importância de valorizarmos o que nos rodeia, desde a família aos amigos, de nos mostramos disponíveis e abertos para o mundo, para o amor ao próximo (física ou emocionalmente) e para o abstrato conceito da felicidade.

À semelhança de outras obras do escritor, Princípio de Karenina surge também como uma espécie de exame de consciência que, caso o permitamos, nos dá material suficiente para colocarmos a nossa própria vida em perspetiva.

Ao longo do seu trabalho literário, o autor defende que, mesmo que o não consigamos identificar, acontecimentos que possamos reconhecer como independentes uns dos outros se encontram unidos por fios. Numa escala menor, mas como forma de reforçar o seu argumento, Afonso cria ligações brilhantes entre os seus livros de modo a tornar as suas próprias narrativas mais realistas, característica que reforça este convite do escritor à introspecção.

Ao tentar responder à questão que inicia este comentário, este pai afirma que “Tudo começa a todo o instante (…) todos os lugares são centros e todos os instantes são começos”.

Da minha parte, apenas me resta dizer que nenhum instante é tarde para começar a ler Afonso Cruz.



Princípio de Karenina. 168 pág. 2018

Livro editado em Portugal pela Companhia das Letras, uma chancela da Penguin Random House.

*Esta opinião faz parte da rubrica Geração de Leitores.

#geraçãodeleitores O Estrangeiro — Albert Camus

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A cortar a fita vermelha da nossa viçosa rubrica #geraçãodeleitores, que abre a porta a outras perspectivas literárias de convidados das gerações mais jovens, está Catarina, designer visual de 28 anos vivendo actualmente em Bruxelas, na Bélgica.

Portuense de gema, amante de ilustração, cinema e literatura, sempre sonhou vir a ser devoradora de queijo profissional. Desde cedo, impulsionada pelo seu pai, descobriu as intrigantes narrativas de autores do além-mar, entre eles de entusiasmantes autores como Albert Camus: o escritor franco-argelino que tem formado gerações de leitores atentos e pensantes.

Deixemos o brilhante laureado Nobel que cimentou o absurdismo na filosofia e na literatura ser o nosso maître de cérémonie da rúbrica #geraçãodeleitores!



Será Mersault julgado por matar um árabe ou será ele julgado e condenado por não ter chorado no funeral da sua mãe?

O que parece ao leitor um capítulo de frívola desimportância narrativa, vem a revelar-se a chave para a compreensão do desfecho trágico da personagem. Apresentado ao tribunal como um Monstro que demonstra sinais nítidos de insensibilidade, Mersault – assim apresentado por Camus – vive o episódio da morte da mãe com aparente displicência. Apresenta-se em frente ao caixão sem emoção e bebe tranquilamente um café com leite. Apresenta-se atrasado no desfile fúnebre sendo a sua única inquietação o calor insuportável que se faz sentir durante esse mês.

A frase emblemática do livro “A culpa deve ser do Sol” – dita por Mersault em tribunal durante o seu julgamento – não se perde nunca da memória de quem o lê.

Em O Estrangeiro, o leitor experimenta a metáfora do absurdo e o misantropismo, um magnum opus do aclamado escritor prémio Nobel de Literatura, Albert Camus, que morre tragicamente em 1960 num acidente de automóvel com o sobrinho do editor Gallimard. 

Talvez todos sejamos um pouco ‘Estrangeiros’ neste mundo cada vez mais impessoal e cruel.



O Estrangeiro [L’étranger]. 88 pág. 1942

Livro editado pelas Éditions Gallimard em França e pela Livros do Brasil em Portugal.

* Esta opinião faz parte da rubrica #geraçãodeleitores.