Morte, em minúscula
Desde “O Ano da Morte de Ricardo Reis” que não desbravava uma obra de Saramago. Após o primeiro contacto fortuito com “Memorial do Convento”, que apesar de carregar capítulos pesados e extensos sobre a construção do convento de Mafra, como as pedras que sustentam o imponente edifício, tem um poder de fascínio e de mágica inolvidáveis protagonizados pelos Sete Sóis e Sete Luas e a passarola do padre voador. A incursão seguinte, o ensaio ambicioso de complementar a ilustre arca de Pessoa, teve altos e baixos pela Lisboa dos anos 30, tendo terminado por desesperançar um pouco face ao Memorial. Neste título, mantém-se a presença e ubiquidade da morte, porém com um cunho e um ritmo bem mais despreocupado e desenvolto, por estranho que possa parecer ao abordar um assunto tão temido.
“No dia seguinte ninguém morreu” é a provocação em absoluto que instaura a obra. Numa dada sociedade, num dado tempo, num dado país, o caos está instalado. A imprecisão espaço-temporal, cronológica e nominativa no que ao nome e identificação dos personagens diz respeito é habitual na obra de Saramago, fazendo parte do seu desígnio de generalizar e tornar universais os temas que aborda. Temas esses que vão ser alvo de profundas perturbações e reflexão pelo simples facto de ninguém morrer, como o valor da vida e dos memórias que vivemos, as relações humanas, as esferas de poder, da monarquia, aos governos, ao clero e à maphia (com ph), até à própria sustentabilidade das finanças públicas, do sistema nacional de saúde e das indústrias que convivem de perto com a morte, como a funerária. Afinal de contas, a imortalidade tão cobiçada não parece ser assim tão sublime. Continua a haver sofrimento, agora sem fim, e um vazio niilista assombra os cidadãos deste país, nos idos de dois mil e cinco, com numerais por extenso, como tanto apraz a Saramago.
Um livro mais acessível do autor, com o seu estilo vincado indelevelmente ao longo de toda a prosa, revela que é possível satirizar e rir com a morte. A mesma que vem a ser protagonista para o final da trama e cujos desejos, inquietações e conversas com a inseparável gadanha são imperdíveis. Destaco como episódios marcantes o diálogo do primeiro-ministro com o rei, a notícia no telejornal em torno dos ocultos sobrescritos violeta e o concerto do violoncelista. Como habitual, a sua leitura faz-nos indagar e raciocinar sobre falhas num sistema que tomamos por certo, sobre cenários que nos incitam ao “e se?”.
Curto mas recheado de significado, metafísica e polissemântica, “As Intermitências” pode ser uma boa introdução à obra do autor. Observações perspicazes e satíricas sobre valores da sociedade são narradas no decurso da história, que conta com um final estonteante. O tom oralizante, repleto de expressões idiomáticas e populares enriquecem a prosa, que despretensiosamente aborda o ciclo e o valor da vida.

