Carapaças Sociais
Um certo dia, o diligente trabalhador e exemplar cidadão Gregor Samsa acorda subitamente de um estranho sonho para uma realidade mais estranha ainda. Deixemo-nos ambientar pela escrita do próprio autor, que nos presenteia com uma das citações iniciais mais célebres da literatura universal:
“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto”
O ambiente absurdo e aterrador está montado: este inocente jovem adulto vê-se, de um dia para o outro, encapsulado numa medonha carapaça de insecto sem ter tido no incidente qualquer influência ou responsabilidade imputável. O sentimento de impotência e alienação na sociedade moderna, de base individualista e capitalista, é um tema caro a Franz Kafka, criado no Império Austro-Húngaro do virar do século XX. A título de curiosidade, Kafka, inseguro das suas criações, pedira a um amigo próximo para queimar todos os seus escritos após o seu óbito, ordem que foi felizmente ignorada pelo receptor que permitiu assim aos leitores desde há um século descobrir a obra do autor germânico. O conceito “kafkaesco” – ele mesmo -, não teria sido criado, ilustrando tão marcadamente o labirinto da burocracia (‘O Castelo’), a impotência do homem singular perante o sistema (‘O Processo’) e a alienação social.
Colocando a novela em contexto, escrita em 1912 e publicada volvidos três anos, é possível traçar uma causalidade com os efeitos da Revolução Industrial que pulsou a toda a força no século anterior. As condições de vida e laborais precárias nas fábricas e comércio, a conquista da ciência sobre os dogmas religiosos, o sentimento nacionalista, as conquistas coloniais e imperiais das nações europeias, a desconfiança pelo outro e pelas nações estrangeiras, vistas como rivais e que culminariam aliás na primeira grande guerra à escala global, são factores que ajudam a compreender a concepção deste curto livro (lido de um trago, num só dia).
Sem qualquer preâmbulo ou demora, o nosso protagonista é inocentemente encarcerado no corpo de ‘uma besta’, um “monstruoso insecto”. É levantada então a milenar questão que remonta à antiguidade clássica da dualidade do corpo-alma, ser que sente-ser pensante. Gregor, apesar da sua incapacidade de comunicar e inadaptado ao seu novo corpo, mantém a mesma acuidade mental, raciocínio, desejos e sentimentos. Perplexa com a trágica metamorfose física e morfológica, espelhada na transformação em insecto, a família, constituída pelos pais ociosos e a irmã carinhosa, dá lugar à metamorfose da sua própria estrutura familiar, espelhada pelo seu distanciamento e até repugnância. Após ter sustentado a título exclusivo a sua família com um emprego como vendedor ambulante que lhe era desmotivador, Gregor é imediatamente sacudido como uma mosca parasitária (shoo, shoo!), apartado e trancado no seu quarto. Os três familiares saem finalmente da dependência financeira e voltam a ser produtivos, ignorando todos os esforços do comerciante nos últimos anos. *Spoiler que não é decerto uma novidade: Gregor acaba por definhar no seu quarto após lesões que sofre ao ser enxotado pelo seu pai e morre solitário. Claramente, o título não é escolhido ao acaso. Incita à questão sobre qual será a verdadeira metamorfose. A biologicamente descrita e acidental transformação zoófila de humano para insecto? Ou por outro lado, a alteração dos comportamentos sociais, personalizados pela família de Gregor? Na sua análise à obra, o autor russo Vladimir Nabokov (‘Lolita’) notou que:
“Gregor é um ser humano disfarçado de insecto; a sua família insectos disfarçados de pessoas”.
— Vladimir Nabokov
Toda a trama é outrossim uma crítica à organização da sociedade moderna, dando clara primazia à produtividade e à optimização: produzir mais por menos, sem ser dada importância ao desenvolvimento pessoal. O papel do trabalho é também questionado a par com a compaixão. Gregor, consistentemente cumpridor sem nunca na sua vida profissional ter deixado o alarme tocar sem se levantar para ir trabalhar, vê-se impossibilitado de o fazer pela primeira vez. Mais do que a sua condição desumana, importa cumprir com as responsabilidades. Esta inquietação é, de maneira irónica, expressada nos seus pensamentos como fulcral. Bem presente quando Gregor, na profética manhã da metamorfose, testa as águas para ver se consegue apressar-se para o comboio, apresentar-se ao trabalho para cumprir com as suas obrigações, minimizar os constrangimentos que certamente causara aos seus superiores:
“Se eles se assustassem, Gregor não teria mais responsabilidades e poderia descansar em paz. Mas se eles levassem tudo com calma, ele também não tinha motivos para se empolgar e, se ele se apressasse, poderia estar às oito horas na estação.”
Dependendo da reacção alheia, Gregor iria definir o seu curso de acção. Esta curta novela tem ainda espaço para explorar a projecção do eu, pelos outros e consequentemente pelo próprio, sendo que essa receptividade tem o poder de influenciar os nossos actos. Kafka reflecte sobre a importância dada à percepção do outro, ao que os outros pensam. Uma reflexão que nunca teve tanta relevância como agora, na era das redes sociais e da iminente necessidade de aprovação e aceitação social.
Assim, o sentimento de alienação é brilhantemente transmitido através desta parábola de transformação animalesca. A mutação para um insecto acaba por ser uma alegoria aos acontecimentos imprevistos e aos infortúnios que podemos ver ocorrer nas nossas vidas e como cada um e a sociedade em volta recebe tal acontecimento. Mais profundamente ainda, é possível comparar com incapacidade, com as doenças mentais e demências ou o envelhecimento do qual nenhum de nós poderá escapar. Kafka alerta-nos para a ameaça da falta de empatia e a falta de humanização, desumanizando.
4.3
Metamorfose (1915)
[Die Verwandlung], 80 pág, Editores BIS / 11×17 / Editorial Presença

